setembro 19, 2026

TRUZ, TRUZ, É O OUTONO….

 

Gosto de ver como as cores mudam ao longo das quatro estações do ano. Perceber como a luz se comporta,  umas vezes a levantar-se cedo e deitar-se tarde, outras vezes a preguiçar de manhã e a ir para cama mais cedo. O ciclo da luz, o mesmo é dizer a viagem do sol, é sempre fascinante. A forma como vai mudando, de cor, intensidade, cria novas imagens, transformando as paisagens que conhecemos e refrescando as memórias. Em cada mês de Setembro tenho esta sensação de um Verão que se vai despedindo, de forma tímida, com idas e vindas, como se tivesse pena de partir. A partida do Verão não me faz grande impressão - gosto do Outono a aparecer pé ante pé, da mesma maneira que, daqui a alguns meses, hei-de ansiar pela chegada da Primavera. A verdade, verdadinha, é que Outono e Primavera são as minhas duas estações preferidas. Gosto desses fins de tarde, que vão sempre mudando, mas gosto sobretudo dos de Outubro e de Abril, talvez os meus meses preferidos por uma série de razões, algumas até nada atmosféricas. São as melhores épocas do ano para, ao fim do dia, ficar sentado ao lusco fusco a  ver as cores mudarem.


(PENSAMENTOS OCIOSOS, SEMPRE EM SAPO.PT)


setembro 18, 2026

COMO SE FABRICOU A DECADÊNCIA DE UMA GERAÇÃO



A DESEDUCAÇÃO - Na campanha eleitoral de 1995 António Guterres, que então foi eleito Primeiro-Ministro, proclamou que a educação devia ser a paixão de Portugal. Ao longo dos anos, nesta e noutras funções, tem repetido que a educação deve ser a prioridade de Portugal. Vamos aos factos: desde 1995 o PS esteve quase 22 anos no poder, enquanto o PSD esteve, até agora, cerca de nove anos. A recente avaliação internacional PISA, que mostrou quebras acentuadas na aprendizagem da leitura e da matemática, evidenciou que os níveis de desempenho em Portugal regrediram duas décadas, com a média a leitura e a matemática a atingir o valor mais baixo de sempre. Esta avaliação PISA foi feita a alunos que nasceram por volta de 2009. Ou seja, grosso modo, nasceram quando José Sócrates era Primeiro Ministro e começaram a escolaridade obrigatória por volta de 2015, quando António Costa se tornou chefe de Governo. Os seus primeiros nove anos de escolaridade passaram-se em governos do PS, com ministros de educação que foram fazendo várias reformas, muitas delas facilitistas, como a abolição de exames do 4º e 6º ano da escolaridade, a alteração dos currículos e de sistemas de avaliação, acções que especialistas em educação consideram que contribuíram para os maus resultados agora obtidos. A OCDE, que promove este estudo, aponta problemas estruturais, entre os quais a distração digital e a alteração dos hábitos de leitura como um enquadramento a ter em conta. A quebra foi quase generalizada em vários países e um dos maiores sinais de alarme, muito saliente em Portugal, surge na degradação da capacidade de leitura, reflectida na avaliação da informação obtida, na capacidade de reflexão crítica e na capacidade de concentração. Em contraste, aumentou a leitura superficial, apressada. Como Vasco Teixeira, administrador da Porto Editora, sublinhou num artigo publicado no “Expresso” “uma sociedade que perde capacidade de leitura perde instrumentos para compreender, discernir, imaginar e participar plenamente”. Já agora, a OCDE considera a literacia em leitura “a mãe de todas as competências” e lembra que a leitura é a base para compreender tudo o resto, seja para resolver um problema de álgebra, analisar uma informação histórica ou interpretar uma experiência científica. Os países que enfrentam as perdas mais acentuadas na leitura tiveram degradação do desempenho dos alunos a matemática e ciências. Infelizmente durante muitos anos, nas sucessivas reformas do sistema educativo em Portugal, as crianças foram encaradas como “cobaias de um laboratório cruel”, como Susana Peralta escreveu no Público. Toda esta degradação se passa, convém sublinhar, num contexto de avanço fulgurante da Inteligência Artificial. Alunos menos preparados para compreender são mais suscetíveis de se tornarem cidadãos mais mal informados, mais facilmente iludidos, colocados à mercê das máquinas e desligados do pensamento autónomo e do conhecimento. 



SEMANADA - O autarca de Loures, Ricardo Leão, anunciou que pretende construir uma piscina de ondas com dois hectares na Bobadela; o estudo TGI da Marktest indica que três em cada quatro portugueses adultos consome bebidas alcoólicas; 2,7 milhões de portugueses tem gatos como animais de companhia; segundo o Ministério Público a violência conjugal ou equiparada é um dos fenómenos criminais de maior aumento registado em 2025, ano em que entraram 33 844 novos inquéritos, uma subida de 31,7% em relação ao ano anterior; o crime que teve um maior aumento de percentagem de ocorrências foi o tráfico de estupefacientes, com um aumento de 36,4% dos casos reportados em relação ao ano anterior, num total de 8794 ocorrências; o branqueamento de capitais registou um aumento de 31,3% e os crimes de incêndio florestal subiram 26,1%; a quantidade média de resíduos urbanos produzidos por cada português em 2024 foi de 517 kgs, acima dos 502 kgs registados no ano anterior; os sacos de plástico fino têm um pegada ecológica menor que os de papel; as licenças para construção e reabilitação de edifícios habitacionais caíram 6,9% no primeiro semestre; segundo o International Expat Insider, Portugal está no 8º lugar em relação a qualidade de vida, no 29º em condições para estrangeiros cá trabalharem e em último lugar quanto a perspectivas de evolução de carreira; a diferença do preço dos combustíveis entre Portugal e Espanha aumentou devido à diferença da carga fiscal, que penaliza Portugal. 




O ARCO DA VELHA -  A PSP deteve um homem de 30 anos que se dirigia para o concerto de Carl Cox com 108 gramas de cocaína, 52 de ecstasy, 29 selos de LSD, 16 comprimidos de Viagra e um frasco com GHB (droga da violação). Foi libertado pelo tribunal.




NA ESTEPE - Imaginem um projecto fotográfico, feito ao longo de seis anos, no pico do inverno da Mongólia Interior, a 40º C negativos. O fotógrafo chinês A Yin fê-lo, seguindo  os cavalos semi-selvagens que por lá existem. A exposição que resulta deste trabalho tem na verdade dois temas, a beleza dos cavalos, permanentemente no meio da neve, marcados por ela, e a temperatura que dá o título à exposição: “40 graus negativos”. É impressionante ver seres vivos numa paisagem gelada, que é o seu habitat e as manadas de cavalos que A Yin fotografou pacientemente são uma prova da persistência da vida mesmo em condições tão adversas como estas.  João Miguel Barros, curador da exposição e responsável pela Ochre Space, a galeria onde ela decorre, deixa uma pergunta: “que forma assume a vida quando é obrigada a existir no limite?” E responde: Os cavalos, cobertos de inverno, não representam apenas a sobrevivência, tornam visível a sua forma”. Ochre Space, Rua da Bica do Marquês 31, até 24 de Setembro.




ROTEIRO Miguel Telles da Gama apresenta uma nova exposição, de colagem e pintura, que reúne 60 peças inéditas, feitas ao longo de quase um ano, sob o título “Movimento Perpétuo” (na imagem). Desenho à faca, chamou-lhes a crítica de arte Luísa Soares de Oliveira, evocando a forma como o artista pintou, cortou e depois montou e colou cada obra. A exposição está no Espaço Triângulo da Galeria Diferença até 8 de Outubro (Rua Filipe Neri 42). Na Galeria 111 Fátima Mendonça apresenta três dezenas de novos trabalhos sob o título “Dias de tédio e a dança com o lobo mau”. A exposição mostra pinturas da própria casa da artista, por vezes com os animais que lhe fazem companhia, em situações que descolam da realidade para  a fantasia, num exercício que espreita o humor no quotidiano. Até 31 de Outubro na 111, Rua Dr João Soares 5B. Na Fundação Carmona e Costa a jovem artista Mónica Coelho apresenta-nos uma viagem pelas obras que tem feito ao longo dos últimos anos,em suportes que vão do azulejo ao ferro, passando pelo vidro, pano cru e  papel. Chama-se “Fora de Horas” e está exposta até 14 de Novembro na Fundação Carmona e Costa (Rua Soeiro Pereira Gomes 8, 6º).




UMA HISTÓRIA ANTIGA - Uma jornalista e escritora  neozelandesa que vive em Lisboa, Brigid Hampton,  imaginou um romance que conjuga o exílio, a guerra e o fim do império colonial português, “Parar o Vento Com as Mãos”. A história começa em 1939, quando uma alemã, Fanny Reiss, foge da Alemanha nazi e desembarca em Lourenço Marques com os seus dois filhos mais novos. Um, Otto, tem uma vida de aventura, casa-se com uma moçambicana no norte do país e acaba por se envolver na guerra. Eva, a sua irmã, fica em Lourenço Marques onde casa com um membro de uma família chinesa abastada. Tem dois filhos, Luís e Sofia, que partem para estudar na Europa. Luís vai para Londres estudar Medicina e Sofia frequenta a universidade em Lisboa. E é em Londres e Lisboa que são surpreendidos pelo 25 de Abril e vivem vidas bem diversas. O livro percorre quatro décadas e segue a evolução da História de Moçambique, culminando na independência, e no período que se seguiu, entre esperança e desencanto. Luís torna-se ortopedista, especialista em traumas de guerra e percorre o mundo onde há conflitos. Mas no fundo está sempre a querer regressar a Moçambique, onde descobriu o amor.  “Parar O Vento Com As Mãos” é uma história passada entre os sobressaltos que a História trouxe. Porto Editora.


MESA DE CABECEIRA  -Ricardo Paes Mamede é um economista e professor de Economia Política no ISCTE e o seu novo livro  aborda a situação em que vivemos ultrapassando as politizações do costume entre esquerda e direita ou a discussão entre  o papel do Estado e o do mercado. Está mais preocupado em sublinhar que o nosso futuro comum passa pelo que somos capazes de fazer para melhorar as capacidades existentes. Este é o tema do seu livro  “Política Industrial, Como os Estados Transformam as Economias”, uma  Edição Contraponto. A grande questão é saber até que ponto pode o Estado intervir. São do próprio autor estas palavras:  “Esta a questão central deste livro: O que podem fazer os Estados para transformar a estrutura das actividades produtivas tendo em vista determinados objectivos públicos?». O outro livro que escolhi esta semana é “Revoluções, Uma Nova História”, de britânico Donald Sassoon, que lecciona História Comparada em Londres. O historiador evoca algumas das revoltas mais célebres, como a Guerra Civil inglesa, a guerra de independência americana, a revolução francesa que produziu a Declaração dos Direitos do Homem, as revoluções nacionais que unificaram a Itália e a Alemanha e as revoluções Russa e Chinesa, que marcaram o século XX. Donald Sassoon estabelece comparações entre estes marcos históricos gigantes com  numerosas rebeliões, golpes de Estado e tumultos que o tempo esqueceu, conseguindo construir uma narrativa emocionante. Edição Temas & Debates.




ALMANAQUE - O MUDE acolhe entre 19 e 27 de Setembro a 3ª edição da Bienal de Joalharia Contemporânea. Além do MUDE, a Bienal estende-se pelo Convento dos Cardaes e o Ar.Co – Centro de Arte e Comunicação Visual. No MUDE está  a exposição “Coexistências – A Joalharia e a Beleza do Mundo”, com curadoria de Marta Costa Reis e Patrícia Domingues, e também a exposição da Coleção de Joalharia Contemporânea de Tereza Seabra, composta por cerca de 300 peças reunidas ao longo de mais de meio século e agora doadas ao MUDE.


DIXIT - “Os políticos que temos já são a consequência de um meio ambiente dominado pelas regras do analfabetismo funcional. Lamento a brutalidade da linguagem, mas é mesmo assim. “ - Francisco Mendes da Silva, no Público.

BACK TO BASICS - A História da Humanidade é cada vez mais uma corrida entre a educação e a catástrofe” - H.G. Wells


A ESQUINA DO RIO É PUBLICADA SEMANALMENTE, ÀS SEXTAS, NO SUPLEMENTO WEEKEND DO JORNAL DE  NEGÓCIOS










setembro 12, 2026

A PAISAGEM E A MIRAGEM


Vamos imaginar que esta é uma fotografia da actual paisagem de ideias na política portuguesa. No primeiro plano vemos arbustos bravios, mal definidos, desordenados, que vão ficando mais raros à medida que o olhar avança. Depois, no segundo plano, começamos a ver cada vez menos vida,  domina o deserto de ideias. Para mim esta fotografia é o perfeito retrato  do país político: à primeira vista parece cheio de debate e perspectiva, mas um olhar mais atento revela a sua pobreza. Por muito que me esforce não sinto no espectro partidário ninguém que consiga transmitir uma ideia clara do que propõem para que o país cresça, as pessoas vivam melhor, tenham melhor educação, saúde, justiça. Em vez disso, o país discute as peripécias de um ministro que nunca devia ter sido chamado ao governo. Em vez de luta de ideias, temos luta de egos. Em vez de planos para avançar, surgem todos os dias planos e manobras para esconder. Às vezes olho para as caras dos principais protagonistas da política portuguesa actual e interrogo-me se compraria um carro usado a algum deles. Acho que não.  Este rectângulo à beira mar podia ser um belo sítio para viver, mas está a tornar-se apenas num local para sobreviver. Gostava de ver outra paisagem e não apenas a desolação, mas temo que isso seja cada vez mais uma miragem.


(os pensamentos ociosos estão semanalmente em sapo.pt)

setembro 11, 2026

POLÍTICOS QUE VIVEM PARA DAR NAS VISTAS

POLÍTICA ANIMAL - Às vezes diz-se de um ou outro político que ele parece um animal feroz e em todos os partidos surge gente a quem a expressão assenta que nem uma luva. Distinguem-se pela oratória e demagogia, pelo desfasamento entre a realidade e o que dizem, por uma permanente tentação de darem nas vistas, pelo uso de linguagem desbragada. Normalmente são pessoas que, pela sua atitude  e comportamento, encaixam na categoria “cão que ladra não morde”, muito usada na gíria popular - aliás falam muito mas na realidade fazem pouco e são essencialmente exibicionistas. De acordo com a evolução das espécies, alguns passam para uma outra categoria, a que eu costumo chamar de rottweiler da política. Os rottweiler podem ser cães tranquilos, mas são conhecidos por defender os donos, e os seus instintos protectores podem levar à agressão contra quem sentem como uma ameaça. Não é preciso ser génio para perceber que um dos factores que mais contribui para o bloqueio do nosso sistema político e para o clima tenso que existe entre o PS e o PSD, os dois maiores partidos portugueses, é a existência de sistemáticos comportamentos de ataque de um e outro. Do lado do PS, durante os anos em que esteve no poder e era alvo de acusações da oposição, Augusto Santos Silva revelou-se como rottweiler de serviço no parlamento. Agora que está, até ver, retirado, e o governo é do PSD, o papel de guardião do poder e escuteiro de Montenegro criou um novo rottweiler no PSD: Hugo Soares. Tirando as diferenças partidárias, o comportamento de ambos é semelhante, são as duas caras de uma má moeda da política. Os líderes gostam deles, são os porta-vozes daquilo que muitas vezes querem dizer mas não podem. Tal como os rottweiler, são fiéis e atacam quando se sentem ameaçados. São animais ferozes e a única utilidade que têm é servirem de maus exemplos do debate político democrático, sempre instigando o ódio contra quem pensa de forma diferente. O parlamento seria bem melhor sem espécimes destes, o espectáculo que dão é ainda mais degradante que as discussões entre adeptos de clubes de futebol adversários. Estes rottweiler da política sentem-se donos do mundo quando têm um microfone e uma câmara de televisão à frente. Vivem para dar nas vistas.


SEMANADA - O fisco cobra 60 mil multas por mês a condutores que não pagaram portagens; faltam anestesistas no Hospital D. Estefânia e ortopedistas no Hospital de Santa Maria; o Governo anunciou que abandonou o objectivo de  proporcionar médico de família a todos os utentes do SNS;  38% dos portugueses fazem compras online pelo menos uma vez por semana; de entre os portugueses dos 25 aos 34 anos que vêem televisão, 40,2% seguem plataformas de streaming e de internet na TV, 34,5% seguem canais de cabo e apenas 26,1% vêem os canais generalistas;  33% das pessoas que vivem na União Europeia, tem assinaturas pagas de serviços de streaming de filmes, séries ou desporto e em Portugal o número desce para 22%;  Portugal registou o maior aumento anual do custo da habitação entre 57 países analisados num estudo internacional, tendo-se verificado um aumento de 15,2% em apenas um ano, enquanto o preço das casas, em termos mundiais, caíu 1,2% no mesmo período;  a despesa do Estado com juros da dívida pública tem a maior subida em quatro anos, um agravamento de 776 milhões e euros; o aeroporto de Lisboa foi considerado o mais stressante de toda a Europa, apenas metade das partidas não tiveram atrasos e 55% das opiniões dos viajantes foram negativas; um outro estudo colocou o aeroporto Humberto Delgado na posição 274 num total de 279 aeroportos avaliados em todo o mundo; este ano o limite de voos nocturnos em Lisboa só foi cumprido em duas semanas; há mais turmas sem professor no início deste ano escolar que em 2025; até ao dia 3 deste mês, morreram nas estradas portuguesas 333 pessoas em 102 824 acidentes que causaram  2003 feridos graves e 30 102 feridos ligeiros.



O ARCO DA VELHA - Um em cada três jovens diz ter visto nas redes sociais conteúdos relacionados com a automutilação.




LISBOA INVADIDA POR FOTOGRAFIA - O colectivo de fotografia CC11 realiza mais uma vez  ao longo de Setembro o seu ciclo de exposições MFA - Mostra de Fotografia e Autores. Esta semana podem já ser vistas algumas exposições e o destaque vai para  o trabalho “Raspberries For Christmas” do luxemburguês Marc Schroeder (nos Jardins do Bombarda, Rua Gomes Freire 161)). As imagens apresentadas integram um projecto sobre o risco de deslocação provocado pelas alterações climáticas, iniciado por Marc Schroeder  durante uma caminhada de longa distância pelo Sul de Portugal, em Janeiro de 2022, marcado pela seca, e que culminou, no início de 2026, com a devastação provocada pela depressão Kristin na Mata Nacional de Leiria. Schroeder tem desenvolvido um ensaio fotográfico que aborda as consequências do aquecimento global e dos fenómenos meteorológicos extremos (na imagem uma das fotografias expostas). O trabalho não é um simples registo documental de um desastre natural,  as imagens mostram uma paisagem profundamente transformada, onde a violência do acontecimento está inscrita no território. Outras exposições que já podem ser vistas estão nos Pavilhões da Mitra, em Lisboa (Rua do Açúcar 56) e ali estão expostas uma retrospectiva do trabalho da fotojornalista Céu Guarda, “Dois segundos na Luz”, “Algarve 63”, de Tim Motion e “Guerra Com Gente Dentro”, de André Luís Alves, que foi o vencedor do Prémio CC11 de Fotografia 2026. Para a semana inauguram duas exposições no Mercado de Campo de Ourique:Outras Paisagens” - aqui  tenho que deixar uma declaração de interesse, já que  é uma exposição minha sobre o lixo que todos produzimos;  a outra exposição é de João Pedro Almeida, “Chão Que Não se Pisa não Dá Fruto”. Dia 23 na Casa de Imprensa inaugura uma retrospectiva do fotojornalista Manuel Moura, que desenvolveu toda a sua actividade profissional ao longo de quatro décadas em agências noticiosas. E no dia 30, no Mercado da Ribeira, inaugura “A Cidade” de Rui Soares Esteves e “O Mar” de Eduardo Leal.




ROTEIRO -  Com Setembro já pujante as galerias de arte contemporânea retomam o seu percurso e começam a apresentar novas exposições. Na Fundação Carmona e Costa inaugura dia 12  uma exposição individual de Mónica Coelho, uma jovem artista que vale a pena seguir. “Fora de Horas”, assim se chama a exposição, tem curadoria de Manuel Costa Cabral e pode ser vista até 14 de Novembro. A Fundação Carmona e Costa fica na Rua Soeiro Pereira Gomes 8, 6o andar e o horário de funcionamento é de quarta a sábado das 15 às 19h. Num salto até Madrid recomenda-se uma visita ao Jardim do Museo Lázaro Galdiano que na 17ª edição do Apertura Madrid Gallery Weekend se transforma numa sala de arte ao ar livre onde o português Pedro Calapez apresenta uma escultura inédita integrada na exposição “Entre la retícula y la vida” (na imagem). E na Galeria Sá da Costa (Rua Serpa Pinto 19) a artista britânica Ramona Galardi apresenta  até 26 de Setembro a exposição “Odyssey”, com desenhos, pintura e colagens.





LEITURAS ECONÓMICAS - “Economia de Exílio” aborda alguns dos grandes problemas que varrem a economia do mundo atual, como tarifas, guerras comerciais e o futuro depois da globalização. Originalmente editado em 2025 no Reino Unido foi escrito por Ben Chu, um jornalista de economia que trabalha em Londres. Chu defende a tese de que existe uma  “Economia de Exílio» baseada na rejeição da interdependência, na desvalorização da colaboração multilateral e na procura de uma maior autossuficiência nacional e os defensores desta nova ordem argumentam que ela trará segurança, prosperidade e paz duradouras. Será assim? Este é o tema do livro editado pela Temas e Debates. Noutro livro, também dedicado à economia, o jornalista Pedro Andersson ensaia em "Dinheiro à Prova de Crises" um guia de como organizar, gerir e multiplicar o salário e debruça-se sobre as razões que levam algumas pessoas a construir património com salários normais enquanto outras passam a vida aflitas com dinheiro. Pelo meio sugere formas de organizar as finanças sem complicações, acabar com hábitos que destroem riqueza,  criar fontes de rendimento extra e preparar a reforma e conquistar mais liberdade financeira. Edição Contraponto.




MÚSICA SURPREENDENTE - “So Much For Goodbyes”, de Billy Stings, está entre os melhores discos que ouvi este ano. Stings, um músico americano que vai no seu sexto disco,  é praticante de bluegrass, um género musical com influências dos blues, mas também do jazz e do folk irlandês, e que utiliza exclusivamente instrumentos acústicos. Dos blues traz a tradição de cantar histórias e dos irlandeses traz a tradição de música que chama para a dança. O novo disco de Billy Stings tem 16 faixas, que se ouvem de forma cada vez mais cativante ao longo de uma hora e um quarto. É um disco de memórias, sobre a vida agitada do cantor: o pai e mãe morreram de overdose em épocas diferentes, ele saíu de casa aos 14 anos e o disco está cheio de referências à sua vida, desde o título, à capa baseada numa colagem que a mãe estava a fazer quando morreu,  até à última canção, que lhe é dedicada, “Debra’s Waltz”. “Lay Me Down” e “Light The Way” podem parecer versões de temas dos anos 40 ou 50, mas são canções bem actuais, sobre os problemas que mais afectam as pessoas. “Mill Town Flood” lembra, na sua estrutura narrativa, uma canção dos primeiros tempos de Bruce Springsteen. Stings conta o que sente e o que vê à sua volta como poucos na sua geração (tem agora 34 anos). O seu trabalho tem sido elogiado por nomes como Bob Dylan ou Willie Nelson, que já o classificou como “o John Coltrane do bluegrass”. “Burn the Other End”, uma das canções mais marcantes do disco, é como um intenso alerta, que chama todo o quarteto que o acompanha num arranjo musical intenso, onde violino, bandolim, baixo e banjo coexistem com o virtuosismo de Billy Stings na guitarra. E sim, leram bem: não há bateria nem percussão neste disco tão arrebatador. Disponível em streaming.

TV GUIA - “This Town” é uma série da BBC que mostra como era o Reino Unido no início dos anos 80, com a guerra civil instalada na Irlanda e motins em várias cidades inglesas. Na HBO.


DIXIT - “Nunca um só ministro, com tão medíocres trapalhadas, pôs assim em causa a democracia, o Governo e as instituições” - António Barreto, sobre Luís Neves.

 

BACK TO BASICS - “O homem é o único animal que consegue conviver com as pessoas que pretende aniquilar “ - Samuel Butler


A ESQUINA DO RIO É PUBLICADA SEMANALMENTE, ÀS SEXTAS, NO SUPLEMENTO WEEKEND DO JORNAL DE  NEGÓCIOS








setembro 05, 2026

A VOLTA MOLHADA


Agora, quando vou ao supermercado, além da lista de compras levo um saco para entregar às máquinas do Volta. Declaro desde já que gosto de ir ao supermercado, espreitar as prateleiras, descobrir novidades, bisbilhotar quem oferece brindes ou descontos, eventualmente comprar a preço reduzido produtos que estão em fim de prazo. Costumo dizer que um dia sem ir ao supermercado não é dia para mim. Por isso não é o ir ter com a máquina que me aborrece. O que me aborrece é não ter resposta do mecanismo. São mais as vezes que as encontrei fora de serviço do que as vezes em que consegui fazer a troca pelo talãozinho. Num destes dias de chuva deparei-me com uma situação nova: a máquina tinha-se afogado, deve ter-lhe entrado água para as entranhas e constipou-se. Deixou de reagir. Uma alma caridosa tapou-lhe as ranhuras e a pobre deixou de engolir. Encontrei-a assim e ao longo dos últimos sete dias é assim que continuo a vê-la. Deixou de ter utilidade, deixou de poder fazer o seu trabalho. Por causa da molha na mala do carro acumulam-se garrafas de litro de água das Pedras, que é a única coisa que lhe posso dar. Não tenho muito carinho por esta geringonça, mas ao fim de uma semana já tenho saudades de a ver a acender luzes, a espreitar a garrafa a desaparecer para dentro dela. Assim como está não serve para nada, a não ser para me aborrecer. No fundo está a cumprir a função para que foi criada: aborrecer os clientes com este volta que é useiro em não querer volta. Não deixa de ser curioso: a Volta meteu água. 


setembro 04, 2026

As habilidades de políticos para darem nas vistas ou se esconderem.


OS NOVOS COMUNICADORES - Nos últimos tempos a comunicação política tem mudado de forma acentuada. Multiplicam-se as conferências de imprensa onde os políticos, sobretudo os governantes, apenas fazem declarações e avisam logo  que não respondem a perguntas dos jornalistas. Na Universidade de Verão do PSD a fuga às respostas foi a regra, até do porta-voz do partido. Foi aí que Luís Montenegro reforçou o que já tinha feito na Festa do Pontal: preferiu fazer o anúncio de uma medida do Governo numa iniciativa partidária em vez de usar os canais institucionais do governo. Ou seja, confunde cada vez mais o partido com o governo e subalterniza o debate sobre as decisões que toma. É normalmente um caminho perigoso. Se Montenegro é  modesto nas redes sociais, em compensação  tem no seu governo uma autêntica influencer: Margarida Balseiro Lopes. A ministra da Cultura, Juventude e Desporto, é de longe a mais multifacetada instagrammer do executivo. Ela publica um diário completo das suas actividades, desde os Jogos do Mediterrâneo à Feira Medieval de Castro Marim, passando pela romaria de Nossa Senhora dos Remédios ou a Universidade de Verão do PSD, tudo no espaço de uma semana. Margarida Balseiro Lopes é sem dúvida a campeã da utilização de redes sociais no elenco governativo. Passa a imagem de que fala com toda a gente, vai a todo o lado, está sempre presente. A sua produção é cuidada, desde o permanente sorriso ao variado guarda-roupa. A exuberância do seu instagram contrasta, no entanto,  com a escassez e a pobreza das medidas que toma enquanto governante. É como aquelas pessoas que andam sempre a correr mas no fim do dia têm pouco de concreto para apresentar além das correrias. É mais uma caixeira viajante que uma ministra. Estes dois exemplos mostram como a comunicação política está a mudar, uma mudança que chega até ao Presidente da República. António José Seguro faz-se fotografar a vindimar na companhia da sua mulher e publica a fotografia, de um episódio privado,  na página oficial da Presidência da República. Seguro publica pouco, mas fabrica cuidadosamente ocasiões. É uma pose bem diferente das selfies espontâneas de Marcelo Rebelo de Sousa. António José Seguro age sempre para passar uma calculada imagem de moderação, atenção ao interior do país, por vezes num estilo descontraído, como quando apareceu em suspensórios, a andar de comboio no Douro e a defender a importância da ferrovia.  Aquilo a que estamos a assistir, e de que estes casos são exemplos, é a uma alteração profunda da forma de comunicar dos políticos, uma alteração transversal a todo o espectro partidário. Sob a aparência de que comunica muito, a elite política esconde-se mais. No fim do dia há pior informação.


SEMANADA - Em Portugal, cerca de 4 em cada 10 adultos não têm competências digitais básicas, apenas 59% da população é digitalmente capacitada e o país está muito distante da meta europeia até  2030; um estudo da União Europeia indica que em Portugal a renda de habitação significa 116% do salário médio nas grandes cidades, o índice mais elevado de toda a UE; 540 euros é o valor médio do aluguer em Lisboa de um quarto para estudante; na capital só há 3500 camas em residências públicas, mas na cidade existem 60 mil estudantes deslocados da sua residência familiar; o número de camas da rede pública de alojamento para estudantes é de cerca de 18 mil, nove mil abaixo da meta que tinha sido estabelecida pelo PRR;  a área plantada de cereais em Portugal diminuiu 77% em 20 anos e o país só produz 6% do trigo que consome; segundo o banco UBS em 2025 existiam em Portugal 181 mil milionários, ou seja, com activos líquidos superiores a um milhão de dólares; em 2025 o peso fiscal voltou a aumentar em e em média, cada contribuinte português pagou 16.055 euros em impostos, mais 1.041 euros face a 2024 e 3.063 euros em relação a 2016; Portugal é o 3.º país da UE com maior índice de envelhecimento: um rácio de 182 idosos por cada 100 jovens; o Ministério da Educação deve 38 milhões de euros aos Institutos Politécnicos; há 3000 enfermeiros recém formados, o SNS não tem autorização para novas contratações e muitos encaram ir para o estrangeiro.


O ARCO DA VELHA - O actual Director da Polícia Judiciária, Carlos Cabreiro, negou a um juiz a existência de uma escuta que ele próprio ordenou e que não tinha sido autorizada pelo Ministério Público.




O MUSEU DE VISEU - Até 6 de Setembro decorre ainda em Viseu a tradicional Feira de S. Mateus, uma das maiores festividades populares do país. Se a forem visitar não percam a oportunidade de, na mesma viagem, visitar o Museu Grão-Vasco, um dos mais importantes museus portugueses que tem nas suas colecções 22 peças classificadas como tesouro nacional. A colecção do museu inclui pintura, escultura, desenho, ourivesaria e um foco especial no trabalho de Vasco Fernandes, que ficou conhecido como Grão Vasco, nascido na região e que foi um expoente da arte portuguesa na primeira metade do século XVI. Trabalhou para os bispos das dioceses de Viseu e de Lamego e para importantes casas conventuais da região do Douro e das Beiras. Influenciado pela escola flamenga, formou ele próprio vários discípulos que com ele trabalharam. Uma das suas obras mais importantes é o antigo retábulo da capela-mor da Sé de Viseu, originalmente com 18 painéis. Os 15 painéis que sobreviveram à sua desmontagem estão expostos reagrupados no Museu Nacional Grão Vasco (na imagem) Esta é uma obra fundamental para perceber a influência que os pintores provenientes dos Países Baixos exerceram sobre o gosto da clientela da época e sobre o trabalho dos nossos pintores. A obra foi uma encomenda do bispo de Viseu, D. Fernando Gonçalves de Miranda, manifestando a sua preferência pela pintura que se fazia na Flandres e terá sido executada entre 1501 e 1506, com a colaboração do pintor flamengo Francisco Henriques.




QUATRO BOAS PALESTRAS - Rutger Bregman é um historiador e escritor holandês que publicou diversos livros sobre história, filosofia e economia, escreve regularmente para vários jornais e foi considerado como "um dos jovens pensadores mais proeminentes da Europa". Na BBC fez uma série de palestras, inseridas nas célebres palestras Reith, assim chamadas em homenagem ao primeiro Director Geral da BBC, Lord Reith,  que as criou em 1948 para marcar que o serviço público devia ter como função enriquecer a vida cultural e intelectual do Reino Unido. As quatro palestras de Bregman abordam a ascensão do autoritarismo, o fracasso das elites em fazer-lhe frente e a crescente pressão sobre as instituições democráticas. Bregman é um crítico assumido de Donald Trump e na sua primeira palestra foi alvo de censura da BBC, que retirou uma frase que descrevia Trump como «o presidente mais abertamente corrupto da história americana». Esta intervenção ocorreu após o processo editorial ter sido concluído, foi ordenada pelos mais altos níveis da gestão da emissora e teve lugar sem o consentimento de Bregman.  «As democracias não colapsam da noite para o dia, elas vão-se erodindo gradualmente através de atos de medo. Não tenhamos medo de dizer o que está a acontecer e não tenhamos medo de dizer a verdade”, sublinha Bregman. No livro “A Revolução Moral” estão as quatro palestras na sua versão integral. A primeira, “Tempo de Monstros” é um retrato do mundo actual. Cito uma frase: ”Nas famosas palavras de um prodígio matemático que acabou a trabalhar no Facebook, as melhores mentes da minha geração estão a pensar em como fazer as pessoas clicarem em anúncios. É uma treta”. Um livro fascinante, editado pela Bertrand.






MESA DE CABECEIRA - Esta semana trago  dois livros de divulgação científica escritos por portugueses, ambos da colecção “Ciência Aberta”, da Gradiva. O primeiro é “Após a Bomba”, de Jorge Calado, que faz um relato, na primeira pessoa, do renascimento da ciência em Portugal, nos anos 50.  É um ensaio que nos leva numa viagem entre ciência, arte e história do século XX e nos revela como a bomba atómica transformou muito mais do que a política. O livro é  uma reflexão sobre o momento que redefiniu a ciência, a arte e a sociedade e um contributo para a História da ciência em Portugal, passando pelos seus principais protagonistas. O outro livro é “Casamentos E Outros Desencontros… a culpa é da matemática?” , de Jorge Buescu, outro importante divulgador científico português, que cruza matemática, vida quotidiana e histórias humanas . O livro tem prefácio de Carlos Fiolhais e em dúzia e meia de curtos ensaios Jorge Buescu explica de uma forma divertida como é que uma abordagem matemática ao mundo enriquece a nossa compreensão do seu funcionamento. O autor sublinha que a matemática é acima de tudo uma extraordinária aventura intelectual, fervilhante de ideias e em permanente construção. 




EMOÇÕES
- O novo trabalho da norte-americana Julia Holter, “Materia”, é construído em torno da evocação do álbum anterior “Something In The Room She Moves”. Em “Materia” ela revê e reinterpreta canções anteriormente gravadas, novas composições e desvenda gravações até agora inéditas. Nas reinterpretações destaque para duas novas e intensas versões da canção “Materia”, que figurava no álbum anterior. A combinação da voz de Holter, com as melodias que compõe e os arranjos instrumentais que cria, constituem um caso raro na música actual pela sobriedade e pela carga emocional que transmite.




ALMANAQUE TV - “Tout Pour Agnés” é uma série francesa que conta a história de Agnès Le Roux, a gerente de um dos casinos mais populares em Côte d’Azur nos anos 1970 e que se defronta com problemas que vão de ameaças da máfia até à concorrência de outros casinos. A dada altura na sua vida, vendeu a sua participação no casino e desapareceu. O que lhe aconteceu? A série, de 2023, tem quatro episódios, foi exibida na RTP2 e está disponível em streaming  na RTP Play.


DIXIT - “É difícil compreender a lógica e o espírito da acção deste Governo. Faltam-lhe “alma” e “visão”, como se diz. Não se detecta nenhuma razão central, para além de gastar o que há para gastar, prometer o que se pode e não pode prometer e selar compromissos com fornecedores, auditores, consultores e compradores. Das poucas vezes que meteu mãos à obra de questões difíceis, fugiu mal percebeu que não ganhava.“ - António Barreto, no Público


BACK TO BASICS - "Quando uma pessoa diz que em princípio está de acordo com uma coisa, isso significa que na realidade não faz a menor intenção de a pôr em prática” - Otto von Bismarck.


A ESQUINA DO RIO É PUBLICADA SEMANALMENTE, ÀS SEXTAS, NO SUPLEMENTO WEEKEND DO JORNAL DE  NEGÓCIOS





agosto 29, 2026

O BRILHO DA NOITE


Os dias estão bem mais curtos, a noite chega mais cedo, já há campanhas de material escolar por todo o lado. É oficial: o Verão está a acabar e o Outono está a chegar. No dia 31 de Agosto o pôr do sol vai ser às 20h05 e quando o Outono entrar, a 23 de Setembro, o sol vai dormir pelas 19h30. Não há muito tempo às 21h00 ainda era dia. Acabou-se! Ainda por cima a despedida do verão antecipou-se nesta semana que passou, com dias de Outono a chegarem mais cedo: chuva, vento, queda de temperatura, nuvens nada passageiras.  Eu confesso que sou fã das estações intermédias e das suas cores: do explodir da natureza na primavera, das cores quentes do outono, das temperaturas amenas sem excessos de frio ou de quente.  Só não gosto dos dias muito curtos. Quando a noite começa cedo parece que o dia não tem as 24 horas que manda a lei. Tenho a sensação de que me estão a roubar tempo. Não é uma boa sensação. Mesmo que as noites sejam bonitas, mesmo que as noites sejam palco de histórias, mistérios e seduções, prefiro dias longos e noites curtas a estes dias curtos e noites longas que se aproximam velozmente. Em vez de o sol fechar a luz podia adoptar o sistema de Hollywood que, para simular a noite em pleno dia usa uma técnica que se chama “noite americana”, escurecendo o dia só durante o tempo que se deseja. François Truffaut em tempos pegou na ideia e fez em 1973 um filme chamado “La Nuit Américaine” onde Jacqueline Bisset brilhava mesmo no escuro. Só assim a noite tem brilho.


(pensamentos ociosos, às sextas em sapo.pt)