Outro dia, eu estava andando pela Avenida Paulista e resolvi tentar a sorte de ser o milhonésimo cliente a entrar na FNAC e ganhar o mesmo valor em reais para serem gastos com produtos da loja (sobre essa utópica promoção da rede francesa de comércio, leia o próximo post). Não ganhei. Porém, pude encher a minha sacola imaginária com todas aquelas memorabílias que ficariam bem melhores na minha estante. Logo quando você entra, desce um lance de escadas e se depara com as sugestões de consumo. E ali estava um livro que me dá curiosidade mesmo sabendo que não passa de bobagem: Guiness Book Of The Records 2007 (não, este enfeita melhor a prateleira da loja mesmo). Abri e logo ali, na primeira página que vi, tinha uma foto. Eram umas casas coloridas, com algumas pessoas caminhando na rua, pássaros no céu. A legenda trazia: "Essa é a Cidade de Lá". E eu me perguntei o que diabos uma cidade aparentemente tão normal fazia no livro dos recordes.
Lá, todos os habitantes têm os olhos inteiramente vermelhos.
Medo! João Abelardo tinha medo de tudo. Inclusive de pernilongo. Por isso, sempre dormia com a luz apagada, as janelas fechadas (mesmo no calor) e com um mosquiteiro sobre a cama.
Tesão! O irmão de João, Décio Camargo, tinha 45 anos. Morava numa pensão na rua Peixoto Gomide e se sentia atraído pelas mãos da zeladora. Só pelas mãos, afinal, Maria Eudóxia era mais feia que o Batoré depois de cair de cara do penhasco.
Repulsa! Maria andava pela rua sem cruzar o olhar com ninguém. Desde pequena, receava assustar alguém com sua "beleza" a lá Quasimodo. Era o que ela dizia. Na verdade, Maria tinha repulsa ao branco dos olhos das pessoas. Sabe-se Lá porquê!
Priscila Figueiredo tinha cabelo chanel totalmente tinturizado pra chegar no tom preto azulado. Possuía de forma magistral um piercing em forma de ferradura entre as duas narinas. A tatuagem, feita quando tinha apenas quinze anos, era ainda de cores tão vivas que reluzia a Betty Boop tomando quase o braço inteiro. Com uma blusinha simples, porém listrada e uma saia preta de vinil, a menina descia a rua Augusta fumando seu cigarro quase já no filtro.
Priscila Fiqueiredo gostava de ser apresentada de forma que a enaltecesse.
Priscila Figueiredo tinha cabelo tão pixaim que repetidas vezes encontrou um inseto morto, desde então alisava antes de sair. O piercing, que auto fez em seu nariz com uma agulha de costura, mostrava o tamanho da inflamação cheia de pus. A pin-up tatuada em um de seus membros começava a desbotar e por isso, a menina retocava todos os dias com caneta esferográfica o desenho. Ela não usava uma blusinha, esse diminutivo não cabe aqui, o mais correto seria dizer que usava uma blusona, pois a gordura acumulada na barriga aumentava pelo efeito que as listras davam de aumentar o tamanho de sua pança.
Priscila Figueiredo também gostava de total sinceridade.
Estou sentindo dificuldades em escrever. Digo, digitar as letras certas, formar as palavras de pixels na tela, formulando um pensamento concreto. Está difícil. Porque escrever por digitar é muito fácil. Mas nem isso, eu estou conseguindo fazer hoje.
Doutor - Qual é seu problema, meu filho? Meu filho - Pois é, doutor, não consigo me expressar mais. Não sei se me amo, se amo ela, ele ou todos. Doutor - Porque diz isso? Meu filho - Porque eu estou totalmente aberto a amar quem eu amo ou quem eu já amei, ou até quem eu vou amar... mas não vejo o mesmo das pessoas. Elas acham que eu não presto. Que eu sou ninguém... (pausa) Faz algum sentido? Doutor - Pra mim... faz todo sentido, meu filho. Meu filho - E qual é o caso, doutor? Doutor - Internação.
Colocaram uma camisa de força no rapaz. Continuou sem saber como berrar pro mundo tudo o que queria gritar, e pior, com os braços presos, nem conseguia digitar por escrever.
Numa suposta briga entre um leão e um tigre, qual animal ganharia? Quando sol ainda reinava, o leão também mostrava sua presença. O astro refletia-se na coroa imaginária sobre a juba deste felino. Ele não fez feio... estava lá, bonito, balançando seus cabelos ao vento e marcou o território. Já aquele das listras no corpo ficou com preguiça. Deitou-se no lamaçal e não mostrou a que veio. Rondou o adversário algumas vezes, se esgueirou pelos arbustos, estudou com leves toques da pata como atacar, mas foi só hesitação. Pena, talvez poderia ter ganhado. Talvez não. Ficou na esperança de ter outro ringue de combate. Vai ter que aguardar. Pode ser que o leão acredite que uma luta basta. Já que, hoje, ele mostrou quem é o rei da selva.
A voz saindo dos alto falantes anunciava a última chamada para o embarque. Plataforma F. Uma neblina da manhã pairava sobre o ar e o trem ajudava, soltando fumaça do primeiro carro. Havia também alguns fumantes que expeliam seus gases, fazendo toda a estação ficar nublada. Mesmo assim, não desisti de correr com pouco fôlego, para entrar na viagem. Comprei a passagem para o destino que tinha saída imediata. E lá estava eu, suando às bicas, carregando uma mala cheia de adesivos de transportadoras e com os óculos parados na ponta do nariz prestes a cair. Finalmente, cheguei à porta do meu vagão com atraso de um minuto. Entreguei meu bilhete e entrei.
Sentado no meu banco, lendo algumas revistas, me deparei com um rapaz me olhando na cadeira do outro lado do vagão. Devia ter por volta de vinte anos, cabelos lisos e uma estranha cicatriz na testa, que eu ousava acreditar que vinha da infância. Acenei com a cabeça e ele voltou a olhar a janela. Levantei meu queixo e uma garotinha, lia, por cima do meus ombros e do banco a minha revista. Loira, com um batom vermelho e sete anos de idade. Sei porque posteriormente, perguntei quantos anos ela tinha. Usava a maquiagem na boca, porque se sentia mais sensual. Pode?
Quando o sol já estava no topo do céu, decidi me levantar e ir ao vagão-restaurante. Todas as mesas estavam ocupadas, exceto uma, que havia uma pessoa. Justamente o rapaz da esquisita marca no rosto. Pedi licença e sentei na cadeira em sua diagonal, não ficando nem a frente e nem ao lado dele, evitando assim, qualquer mal estar. Em seu prato, havia uma vagem e uma folha de alface, que ele salgava a cada garfada. Em alguns momentos, eu tentava olha-lo para puxar assunto, mas desde que eu o peguei de surpresa, me espionando lá no outro vagão, ele não tornou os olhos em minha direção. Terminei de comer e voltei para o meu banco.
A menina estava sentada ao meu lado. Quando cheguei, ela já estava ali, folheando, sem pedir. Tudo bem, era só uma criança. Comecei a conversar. Pelo menos ela falava comigo.