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Posto de Escuta

Achados numa página ou rua algures.

Achados numa página ou rua algures.

09.06.26

Dois anos depois de ter reativado o Posto de Escuta, este blog ruma novamente à sua origem, em postodeescuta.blogspot.com, o endereço virtual onde comecei a colecionar "ecos" da blogosfera há 23 anos. A par do extinto Blogo, foi o Posto de Escuta que me lançou nesta aventura incrível no mundo dos blogs e é lá que podem continuar a acompanhar os meus recortes de tudo o que vou lendo online e offline.

Obrigado a quem leu, favoritou e subscreveu o Posto de Escuta por aqui.

Abraço,
Pedro

02.06.26

Om Malik, num texto sobre canetas e uma das lições mais importantes das aventuras do Pinóquio:

"The algorithmic feed is the Land of Toys. It is built to keep you there past the point of nourishment, past the point where you are even enjoying it. Outrage travels faster than understanding. Spectacle beats judgment. The algorithm doesn’t care whether something is true. It cares whether it moves. And it keeps you scrolling, reacting, and returning in ways that benefit the platform, not you. The political system has learned the same lesson. Governance is slow and grinding and unsatisfying. Performance is fast and shareable. We have built media and political economies that reward entertainers over administrators, and the clean story over the complicated truth."

19.05.26

Patrick Leigh Fermor, no livro "Tempo de silêncio" (Tinta-da-china, 2018): 

"Na tradição medieval, as abadias e os conventos foram sempre considerados núcleos inexpugnáveis de resistência contra o domínio infernal na terra. Tornaram-se, por esse motivo, alvos específicos. Diz--se que Satã, quando deu instruções aos seus miseráveis sequazes ao cair da noite, enviou para as capitais apenas um diabo menor. Este demónio solitário, segundo reza a lenda, podia dormir em serviço. Não havia nada para fazer; a batalha estava ganha há muito."

19.05.26

Patrick Leigh Fermor, no livro "Tempo de silêncio" (Tinta-da-china, 2018): 

"A carta termina com estas palavras: <«Perdoar-me-ás que vá depressa, como faço, para este lugar; afinal, nem sequer Alcméon, depois de descobrir as Equinadas, pôde continuar a suportar uma existência errante.» Há um tom de humanidade e simplicidade nos seus escritos, uma ausência de intolerância que parece soprar como uma brisa suave vinda desses pomares de oliveiras, tamarindeiros e lentiscos, despenteando suavemente a superficie do pensamento e depois deixando-o silencioso e quieto."

12.03.26

"Uma praça, uma rua da região com uma fronde arbórea, densa e pomposa, é coisa que se confunde com a própria civilização. Os povoados sem árvores e sem sombras são puros vilarejos sem integração possível. Um povoado que tem sombras tem lugares onde as pessoas se reúnem. Nas minhas viagens a pé procuro estas tertúlias e, se por falta de arvoredo não as encontro, abandono a povoação. Se as há, aproximo-me delas e oiço que dizem as pessoas. Aprendo sempre. Para aprender é preciso ouvir os outros. Desconfiem dos que não escutam - são puros fanáticos, verdadeiros imbecis, dogmáticos grotescos."

Josep Pla, em "Viagem a pé" (Tinta-da-China, 2024).

11.03.26

"Desenhou-se os pagesos [gente que trabalha a terra] com muito folclore. Isso aumentou-lhes a desconfiança. Agora estão na mó de cima. No entanto, não estão contentes. Se as coisas continuarem desta maneira, estarão cada vez menos. Eles não sabem falar como as pessoas das cidades; vêem as coisas confusamente, mas as pessoas que são obrigadas a isso também não as vêem com clareza. A única coisa que sabem é que há pessoas cada vez mais ricas a trabaIhar cada vez menos — muito menos do que eles."

Josep Pla, em "Viagem a pé" (Tinta-da-China, 2024).

10.03.26

"Nestas pequenas aglomerações só há, na realidade, três coisas genéricas: a bisbilhotice, o transporte em comum (quando há) para ir ao mercado e o secretário da câmara para a imensa papelada agrário-associativa. (...)

Quanto ao resto, a falta de solidariedade, no plano da integração, é total. Não há o menor vestigio de esperança ou de ideal; o menor vestigio de interesse colectivo; o mais pequeno desejo de melhoria de nenhuma espécie; vê-se a mais absoluta indiferença, mesmo para falar do que existe. A solidão é total. O individualismo, feroz. As pessoas estão permanentemente de mau humor. Mau humor porquê, perguntarão. Não sei. Nunca soube. Mas o mau humor existe."

"Viagem a pé" (Tinta-da-China, 2024), de Josep Pla.

09.03.26

"Mas no Verão é impossível tentar ir ao Algarve, se formos justos com ele. Vamos na Primavera ao Algarve, gozar a paz de ali estarmos descansados, a ver o que é manso ainda, como os pinhais antes de Vilamoura, as encostas de Vale do Lobo, a praia linda de Olhos-d'Água, a longa marginal de Lagos, o caminho das estrelas entre Sagres e Vila do Bispo, nesse cabo esquecido. Vamos ao Algarve, se quisermos - demoramo-nos na Salema e na Maria Luísa, vamos depois até Cacela junto de Tavira, vamos para todo o lado, que o Algarve é longo grande, embora ocupado, reino distante."

Francisco José Viegas, em "COMBOIOS PORTUGUESES: Um Guia Sentimental" (Círculo de Leitores, 1988).

05.03.26

"Hoje, o comboio que atravessa Portugal de um lado a outro é um veículo sentimental, visitando paisagens construídas ao longo dos carris, memórias desse outro tempo em que a nossa geografia era também possível distribuída por estações, apeadeiros, ramais, jardins floridos em estações solitárias. Poucos são os que viajam de comboio querendo viajar de comboio - utilizamos, antes, meios de transporte, sempre mais rápidos que o antigo e quase monótono ritmo de uma locomotiva a subir e a descer por vales, a demorar-se no horizonte quase branco de uma planície.

Por isso, os amantes de comboios são gente rara, coleccionadores de emoções repartidas por partidas e chegadas de recordações de viagem a uma estação que geralmente fica desenhada no interior do coração, de viagens nocturnas por lugares desconhecidos, por travessias de um país que conserva os seus carris mas os vai esquecendo perigosamente."

Francisco José Viegas, em "COMBOIOS PORTUGUESES: Um Guia Sentimental" (Círculo de Leitores, 1988).

04.03.26

"Porquê uma geografia sentimental? Precisamente porque está em vias de desaparecer. E o que desaparece cria em nós um alerta e uma surpresa que dificilmente se podem perceber e racionalizar. Em algumas zonas do nosso país, o comboio era a única ligação possível com 0 mundo, com os outros habitantes do território nacional.

O que nós temos hoje para ver, ainda, dessa geografia, é resto de uma história e de uma saudade: das viagens para um lugar distante ou do ritmo pausado de uma composição que nos iria mostrando, quilómetro a quilómetro, aquilo que ela criava para sempre como paisagem e como referência paisagística."

Francisco José Viegas, em "COMBOIOS PORTUGUESES: Um Guia Sentimental" (Círculo de Leitores, 1988).

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