21.9.26

Guilherme de Oliveira (Simplesmente feliz)




SIMPLESMENTE FELIZ

 

Sem
artes e sem letras
ambições materiais
um projecto de vida
agruras na pele
dramas existenciais
discriminação à vista
vizinhos incómodos
cheias torrenciais
carências no bolso
um frio na barriga.

Feliz
como as folhas de uma couve.

GUILHERME DE OLIVEIRA
Não deixaram entrar o cão
Glaciar (2025)

 .

19.9.26

Miguel Sánchez-Ostiz (Vivo como quero viver)





 VIVO COMO QUIERO VIVIR

 

Envidié a quienes amaron ‒es una vieja historia‒
y supieron o tal vez tuvieron el valor
de vivir la vida como desearon vivirla,
e hicieron ‒o hacen‒ de cada día una celebración,
un arte, a pesar de saber que la vida,
eso que llamamos con enfermiza insistencia
o con tenacidad de visionarios, vida,
es las más de las veces algo mediocre,
triste, sucio, gastado y violento.
Envidié a quienes eligieron como divisa de sus días
«El corazón me manda», desterraron la indiferencia
y no desdeñaron otra cosa que las pasiones tristes:
el menoscabo de sus vidas.
Y en una época más sombría que cualquier otra
pusieron pasión en el pasar de cada día.

Miguel Sánchez-Ostiz


Invejei os que amaram - é uma história antiga - 
e souberam ou tiveram talvez a coragem
de viver a vida à sua vontade,
e fizeram - ou fazem - de cada dia uma festa,
uma arte, sabendo embora que a vida,
isso que chamamos vida com doentia insistência 
ou tenacidade de visionários,
é as mais das vezes alguma coisa de medíocre,
triste, suja, gasta e violenta.
Invejei os que escolheram como divisa de seus dias
‘O coração ordena-me’, desterraram a indiferença
e não desdenharam senão as paixões tristes,
o desdém de suas vidas.
E numa época mais sombria do que outra qualquer
empenharam a paixão no passar de cada dia.


(Trad. A.M.)

 

17.9.26

António Maria Lisboa (Poema)



POEMA

 

Moveu-se o automóvel – mas não devia mover-se
não devia! 

Ontem à meia-noite três relógios distintos bateram:
primeiro um, depois outro e outro:
o eco do primeiro, o eco do segundo, eu sou o eco do terceiro 

Eu sou a terceira meia-noite dos dias que começam 

Pregões de varina sem peixe
- o peixe morreu ao sair da água
e assim já não é peixe 

Assim como eu que vivo uma VIDA EXTREMA.
  

António Maria Lisboa

 . 


15.9.26

Antonio Hernández (O passado é a marca)




El pasado es la constancia
de nuestro asombro,
el hueco de amor que deja
la experiencia en nuestro pecho.

(Sólo la infancia no tiene memoria
porque nada brilló antes que ella.)

Mi pasado es el saldo de lo nítido:
un aroma, un amor, una luna
sin cautela,
el viejo enigma en que amaneceré.

Antonio Hernández

  

O passado é a marca
do nosso assombro,
o vazio de amor que a experiência
nos deixa dentro do peito.

(Só a infância não tem memória
porque nada brilhou antes dela)

Meu passado é o saldo do nítido,
um aroma, um amor, uma lua
sem cuidado,
o velho enigma em que hei-de amanhecer.


(Trad. A.M.)


>>  Poesia universal (25p) / Zenda (5p) / Lit. española (recensão)

.

13.9.26

Antonio Carlos Secchin (Uma prosa súbita)




Uma prosa súbita
para a rosa de neve:
às vezes é só um verso
onde a voz de Andrade ferve.
E perdura, apesar do inverno
armado na paisagem:
o que há pouco era flor
virou arte,
rosa em riste na beira do abismo
contra
o silêncio azul da tarde.

Antonio Carlos Secchin

.

11.9.26

Martín López-Vega (Campos da Hungria)




CAMPOS DA HUNGRIA

 

 

O comboio atravessava a lenta calma

dos nevados campos da Hungria, 

deixando para trás casas, vales, cemitérios,

e na minha frente uma formosa jovem ia lendo

e cantarolava uma misteriosa melodia.

Eu lia

esse poema de Gyula Juhász intitulado

“Anna örök”, Eterna Ana. E foi então que se uniram

naquele comboio as minhas recordações e as minhas ânsias,

atravessando os nevados campos da Hungria.

 

E hoje voltou a mim aquele momento

e não sei porquê, não sei.



Martín López-Vega

 

(Trad. Ruy Ventura)


.



9.9.26

António Cabral (Quando fulano de tal)




QUANDO FULANO DE TAL

 

Quando fulano de tal subiu
à tribuna reparei naquela
gente olhos despojados de
sua cor imóveis e re
dondos como beatas então
pensei camarilha de merda


ANTÓNIO CABRAL
Emigração Clandestina
(1977)

.