segunda-feira, 21 de setembro de 2026

Nemésio Prata (Plantando Trovas)

 

1
A droga foi seu arpéu,
sem destino, destroçado,
vagueia na rua, ao léu,
até quando for "levado"!
2
Antes do quebrar da barra,
ao canto do caboré,
sussurrando, ela me agarra,
dizendo: hora do café!
3
Ao relento, relegado,
negado pelo destino;
hoje vive escravizado,
coitado; que desatino!
4
Ao ver a imagem singela
do barco, tranquilo, ao mar,
lembrei-me: não há procela
que Deus não possa acalmar!
5
Chorando, segue o andarilho
solitário, a sua dor;
de deixar pra trás um filho,
fruto de um fugaz amor!
6
Com talento e sutileza
no salão, "a media luz",
o casal mostra a leveza
do belo tango andaluz!
7
Coração, enquanto bate,
é vida, amor e paixão;
mas depois que ele se abate,
é vela, choro e caixão!
8
Correndo, desesperado,
de mala e chapéu na mão,
o passageiro, coitado,
perdeu o trem... e a razão!
9
Deixe a Natureza em paz,
rapaz, tenha mais juízo; 
pois isso que você faz
demonstra falta de siso!
10
Descendo esta escadaria
Onde ela vai me levar?
Se eu soubesse eu desceria;
Como não sei, vou ficar!
11
Despertando, reparei
a "louça" já preparada
em nossa cama, e tomei
o "Café" da madrugada!
12
De toda trova legenda
que já fiz na minha vida
esta veio de encomenda,
pois não dei nem a partida!
13
De tudo que eu aprendi
pra chegar a ser “doutor”,
se, bem, eu o compreendi:
devo muito ao Professor!
14
Deus me livre, por um dia
me faltar um Livro a mão;
de tristeza eu morreria,
em pungente solidão!
15
Deus, o Poeta dos Poetas,
é TROVADOR; e em poesias
manda-nos netos e netas
para encher-nos de alegrias!
16
Dizem, com propriedade,
que a saudade é inexplicável;
explica-se: na verdade,
o senti-la é indecifrável!
17
Dois minutos, Cinderela;
está chegando o momento!
Não vá cair na esparrela
de esquecer o encantamento!
18
É noite, e a brisa do sono
sopra, mansa e sorrateira;
em seus braços me abandono,
enroscado, a noite inteira!
19
Entre lágrimas e risos,
respostas às emoções,
liberamos sentimentos
represos nos corações!
20
Férias! Ah, sim, bem eu sei,
que és bem merecedora;
mas, cá, não esquecerei
de ti, grande trovadora!
21
Homem, mau, vil e perverso;
toda vez que tu desmatas,
mesmo em nome do progresso,
é a ti mesmo que tu matas!
22
Já não suportamos mais
ver os nossos pequeninos,
nas mãos destes marginais:
traficantes-assassinos!
23
Lancei minha rede ao mar
e pesquei bela sereia
que comigo foi deitar
noutra rede, em plena areia!
24
Maranguape a tua glória
são teus filhos de valor;
foi Capistrano, na História,
e Chico Anísio, no Humor!
25
Na mata o machado bate
forte pra tirar "madeira";
e assim o "homem" abate,
uma a uma, a mata inteira!
26
Na mão o toco de giz,
na outra, o apagador;
na assistência o aprendiz,
no tablado o Professor!
27
Não "curta" a sua velhice
dando voz ao seu lamento;
deixe dessa "caduquice"
seu "velhote" rabugento!
28
Não queiras por teu amigo
quem não pode ser provado
no dar água, pão e abrigo,
para alguém necessitado!
29
Na solidão do meu eu,
fugindo da realidade,
meu pensamento varreu
da mente toda verdade!
30
No céu, as nuvens, e as flores,
no campo; um quadro sem par.
É Deus tingindo de cores
a Primavera a chegar!
31
Nos bailes não dava trela,
e a todos dizia não;
mas no fim foi a donzela
quem "dançou": ficou na mão!
32
Nos braços do seu amor,
loucamente apaixonada,
ela sente o seu calor
mesmo sob a chuvarada!
33
O ato de ler praticado
com prazer, pelo leitor;
no final, seu resultado,
assemelha-se ao do amor!
34
O bailarino, indeciso,
na chuva, dá mil volteios;
e o lampião diz, bem preciso:
homem, deixe de rodeios!
35
O envelhecer é sublime
presente a nós concedido
por Deus; o que bem exprime:
Dele, ninguém é esquecido!
36
Olhando com bem clareza
pras marcas do seu herdeiro,
já não tem tanta certeza
de ser o pai verdadeiro!
37
Olho azul, branco e lourinho
o filho do "Zé Negão"
lembrava mais o vizinho;
coitado, tinha razão!
38
Os dois silentes, colados,
corações a palpitar;
olhares apaixonados...
já pensou no que vai dar?
39
Para cuidar da saúde
com desvelo e competência
busco Médico amiúde,
amigo, de preferência!
40
Passei horas meditando,
pensando no que dizer;
terminei nada compondo,
sem nada para escrever!
41
Perdido na multidão
das ruas, sem ter alguém
que ao menos lhe estenda a mão;
não passa de um "Zé Ninguém"!
42
Pintor, por que teimas ver
o teu sol onde ele não
pode mais aparecer,
vítima da poluição?
43
Por aqui passava um rio
caudaloso e pleno em vida;
hoje mal se vê um fio
d'água suja e poluída!
44
Quando chove no sertão
o sertanejo se apega
ao santo de devoção,
esperando pela sega!
45
Quem ama a literatura,
e a ela se entrega, tem
prazer não só na leitura,
mas, no produzir, também!
46
Quem busca noiva, é preciso
que tome muito cuidado;
procure uma de bom siso,
pra não terminar "ornado"!
47
Quem corta, na natureza,
árvores sem precisão,
destrói-a e deixa-a indefesa;
é um ser sem coração!
48
Selva: bela e exuberante;
cria, de rara beleza,
de Deus que, naquele instante,
nominou-a... Natureza!
49
Sem um "pingo" de pudor
o mar fita a lua, arfante,
clamando: vem meu amor,
quero te ter por amante!
50
Ser Poeta neste mundo
é cultivar nele o Amor;
sentimento mais fecundo
na vida do TROVADOR!
51
Se tu estás velho, também,
mais perto de Deus tu estás;
tem tu, pois, por grande bem
ser velho, e bem viverás!
52
Se você anda amargado,
tristonho, ou com grande dor,
procure ser "medicado"
por um Doutor TROVADOR!
53
Se você sofre de tédio
só tem um jeito: tomar
TROVADOR, santo remédio;
e seu tédio vai passar!
54
- Solta-me! Clama o navio
ao cais que o faz prisioneiro;
- deixa-me sair vadio
pelo mar... que é meu parceiro!
55
Tem coisas que não se explica
na vida de um TROVADOR;
uma: é quanto ele mais fica
só, mais cultiva o Amor!
56
Tem Poeta nesta terra
que seus versos dão prazer
de lê-los, pois ele encerra
numa Trova o seu dizer!
57
Tem quem só quer receber
para si o que é melhor,
porém ao aparecer
chance pra dar: dá o pior!
58
Toda noite o seresteiro
aguardava a madrugada
para declarar, faceiro,
seu amor à sua amada!
59
Todo livro deve que ter
"título" bem eficaz...
pois não é que o meu vai ser:
Leia-me... (se for capaz).
60
Triste sina a da criança
deste meu Brasil gigante;
vive “presa” na esperança
de escapar do traficante!
61
Uma folha de caderno,
um lápis, e a inspiração,
bastam ao trovador terno
pra lhe abrir o coração!
62
Vendo a imensidão do mar
pensei cá, com meus botões:
se esta turbina falhar
tem "janta" pros tubarões!
63
Vindo de tão longe, não
se deu conta que chegara
ao seu velho e antigo chão,
que há muito tempo deixara!
64
Voa, canário indeciso,
o que esperas; afinal
seres liberto é preciso,
mesmo pensando irreal!
Três Trovas sem Pé nem Cabeça
65
Sem barulho, corta o céu
por entre as nuvens, um trem,
levando pro beleléu
a lua, e o sol também!
66
Era noite e a lua cheia,
viu chegar a madrugada,
trazendo o sol, em candeia,
deixando-lhe "encandeada"!
67
Não deixe a coisa ficar
do jeito que já não dê
pra você, um jeito dar,
no sujeito que é você!
Teia de Trovas sobre o Limão
68
No meio do laranjal
que plantei lá no sertão
deu-se um fato especial:
só foi colhido limão!
69
Recebendo este recado
do presidente Alencar
vou tomar maior cuidado
quando limão for provar!
70
Trovando e tirando as provas
deste fato memorável;
provei, brincando com trovas,
de que o limão é saudável!
71
Ao tomar a limonada
vá bebendo devagar
sorvendo cada golada
pro seu gosto apreciar!
72
Pode até não ser remédio
mas não dê cavaco não;
agora, ao chegar o tédio
o remédio é... com limão!
73
Cabe a cada cidadão
interpretar os pontinhos
desde que o "velho" limão
não falte nos pingadinhos!
74
Se você não é chegado
a quaisquer pingas, então:
esqueça logo o pingado
e chupe, puro, o limão!
75
Quem muito chupa limão,
dizem alguns entendidos,
melhora a "disposição":
aceito seus desmentidos!
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *  
Nemésio Prata
    NEMÉSIO PRATA CRISÓSTOMO é um destacado poeta e trovador cearense, amplamente reconhecido no meio literário da trova nacional. Embora sua produção literária seja bastante ativa e premiada É associado a Fortaleza/CE, cidade onde reside e desenvolveu grande parte de suas atividades culturais e estudantis (consta, por exemplo, na lista histórica de alunos do Colégio Militar de Fortaleza. Nemésio é uma figura carimbada e altamente premiada em Jogos Florais pelo Brasil. Entre suas marcas registradas estão premiações de destaque no Prêmio de Poesia e Trovas Juvenal Galeno, no Concurso de Trovas de Maranguape, no Prêmio Chico Anysio, além de participações em eventos de destaque como os Jogos Florais de Viçosa/MG (2024). Suas trovas e poemas aparecem com frequência em coletâneas especializadas e almanaques literários de circulação nacional, como o conceituado Almanaque Literário O Voo da Gralha Azul
A relevância de Nemésio Prata Crisóstomo reside na preservação e fomento da trova, uma das formas poéticas mais tradicionais, exigentes e populares da Língua Portuguesa. Ao produzir trovas que combinam rigor formal com temas cotidianos, sociais e filosóficos, ele ajuda a manter viva a tradição dos menestréis e trovadores no Nordeste e no Brasil, garantindo que essa rica herança poética continue alcançando novas gerações.

Cantinho do Frata (Cartas para Helena)

Juntando o expediente de trabalho, que era puxado, mais os estudos que consumiam o tempo, pouco sobrava para outras atividades. Isso, porém, não foi barreira: às madrugadas me punha a escrever. Era a maneira de falar pela pena, o que não conseguia presencialmente.

Essas cartas, no fim dos anos 60, se destinavam a uma moça que eu nem conhecia. Era amiga da noiva de um amigo, em cidade distante.

Não é que elas passaram a ser respondidas? Num período curto, sim. Depois cessaram. Todavia, as simples cartas abriram o caminho para uma passagem sólida. Eram anjos, os mensageiros e, passados dois anos, por fim nos conhecemos. Para que, na primeira troca de olhares, eu me dissesse: ela será minha. Batalharia para isso. E voltamos a nos corresponder. Também às visitas mensais.

O coração, com asas de saudade, levava-me por estradas longas e esburacadas, a provar que não há caminho que não possa ser vencido, só a vontade é movida pela paixão.

As cartas trocadas? Quase 200. Estão guardadas em um grosso volume capa dura cheio de encantos, desejos, fome, dificuldades e saudade. Substâncias essenciais para o namoro que prometia futuro. Nas folhas, as confidências, procura, promessas, nostalgia e incompletude, causadas pela ausência.

Nelas, a saudade! E a disposição para amargar a espera a dois.

Cartas de amor são palavras lidas com o coração, embora os olhos se convertam nele diante do envelope manuscrito, com letras conhecidas e esperadas. Com a carta nas mãos, parava-se tudo. Corria-se para a luz que iluminava pensamentos e intenções ali deixados. Afinal, os olhos caminhavam pelas palavras escritas pelas mãos que o abraçaram, e soavam languidamente por lábios oferecidos a ternos beijos.

Conclui-se que cartas de amor são papéis transformados em pontes a ligar duas solidões.

Foi um tempo de construção de sonhos, idealização de utopias, aflição e doação nas horas dedicadas à pessoa da outra ponta. Hoje as redes sociais e a facilidade telefônica mataram as cartas. 

O carteiro já não é mais o "pombo-correio" amigo e esperado nas duas extremidades. Ele, que partilhava da ansiedade, alegria ou tristeza, foi substituído por mensagens eletrônicas. Os carteiros hoje, infelizmente, entregam outro tipo de correspondências. Apressados, logo se vão; há muito serviço para poucas pessoas. Perderam, que pena, a confidencialidade dos amantes.

Voltando às nossas cartas hoje amareladas, mesmo que não contenham segredo algum, revelam amor enraizado. Constituímos família, filhas, o nosso ninho. Produzimos esperança e fizemos, em par, aquilo que não faríamos sozinhos. Amamos um ao outro. 

E esse amor, se não consegue ter vida eterna, durará enquanto houver um suspiro no sussurro do último fôlego.

Obrigado, Helena, pelo presente da sua companhia.
= = = = = = = = = = = = = =  
“O verbo acreditar inserido em mim, pode crer, me dá asas e, com elas, voo. Plano o céu, visito estrelas e até encontro o amor. 
Não acreditasse, quando poderia sentir estas emoções?”
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *  
Renato Benvindo Frata (1946)
RENATO BENVINDO FRATA, nascido em Bauru/SP, em 1946, é um dos principais pilares contemporâneos da cultura de Paranavaí (onde se radicou) e de todo o Noroeste do Paraná. Paranaense por adoção, ele consolidou uma trajetória sólida que une o rigor do ambiente acadêmico e jurídico à sensibilidade das crônicas e contos do cotidiano. A atuação profissional de Renato Frata é marcada por múltiplas frentes técnicas e intelectuais: Atua firmemente como advogado na região; Também possui formação e exerceu atividades como contador; Dedicou grande parte de sua vida ao ensino superior como professor universitário, encontrando-se atualmente aposentado das salas de aula.
O interesse de Frata pela literatura surgiu "desde moleque" por influência direta do pai e do irmão, que eram grandes leitores. Começou arriscando versos ao se apaixonar na adolescência, migrando mais tarde para a prosa, gênero no qual se consagrou. Sua caminhada é pontuada por conquistas institucionais e premiações: Na década de 1990, seu conto A Pá de Polenta foi premiado no renomado FEMUP (Festival de Música e Poesia de Paranavaí), dando um impulso definitivo à sua carreira pública de escritor. Fundador e presidente de honra da ALAP (Academia de Letras e Artes de Paranavaí), instituição que já presidiu por diversas gestões e onde continua engajado na promoção cultural local. O autor escreve de forma disciplinada, utilizando crônicas e contos para registrar memórias da infância e observações do dia a dia. Suas crônicas circulam frequentemente em veículos de imprensa da região, como o Diário do Noroeste (https://diariodonoroeste.com.br/).
Principais obras publicadas: A Pá de Polenta (Conto expandido focado em memórias de infância); Reflexão dos Cinquenta (Contos); O Sapo Chorão e Rosso Saladete, o Intrépido Tomate (Obras voltadas ao público infantojuvenil); Fragmentos (Livro que reúne 102 crônicas e excertos lançado originalmente em 2022/2023); Crepúsculos Outonais (Coletânea de contos e crônicas lançada em 2025)
A relevância de Renato Benvindo Frata transcende as páginas de seus livros, gerando impactos profundos no ecossistema cultural do Paraná: Seu livro Reflexão dos Cinquenta carrega o marco histórico de ser a primeira obra literária solo publicada por um escritor radicado em Paranavaí, abrindo as portas do mercado editorial para outros talentos locais. Cronista do cotidiano do interior. Suas narrativas capturam a sensibilidade da vida no campo, as tradições familiares e a evolução urbana do Noroeste do estado. Ao fundar e capitanear a ALAP, ele ajudou a tirar Paranavaí do isolamento literário, integrando a cidade em encontros estaduais de academias e promovendo o intercâmbio de novos autores com o público universitário e escolar.

Fontes: 
Renato Benvindo Frata. As 100 gostosas crônicas do Ben. Paranavaí: Egpack Embalagens, 2026. Livro enviado pelo autor. 
Biografia = Diário do Noroeste; Sesc Parana e UCPParana.edu

Cecília Meireles (Compras de Natal)

A cidade deseja ser diferente, escapar às suas fatalidades. Enche-se de brilhos e cores; sinos que não tocam, balões que não sobem, anjos e santos que não se movem, estrelas que jamais estiveram no céu. As lojas querem ser diferentes, fugir à realidade do ano inteiro: enfeitam-se com fitas e flores, neve de algodão de vidro, fios de ouro e prata, cetins, luzes, todas as coisas que possam representar beleza e excelência. Tudo isso para celebrar um Meninozinho envolto em pobres panos, deitado numas palhas, há cerca de dois mil anos, num abrigo de animais, em Belém.

Todos vamos comprar presentes para os amigos e parentes, grandes e pequenos, e gastaremos, nessa dedicação sublime, até o último centavo, o que hoje em dia quer dizer a última nota de cem cruzeiros, pois, na loucura do regozijo unânime, nem um prendedor de roupa na corda pode custar menos do que isso.

Grandes e pequenos, parentes e amigos são todos de gosto bizarro e extremamente suscetíveis. Também eles conhecem todas as lojas e seus preços — e, nestes dias, a arte de comprar se reveste de exigências particularmente difíceis. Não poderemos adquirir a primeira coisa que se ofereça à nossa vista: seria uma vulgaridade. Teremos de descobrir o imprevisto, o incognoscível, o transcendente. Não devemos também oferecer nada de essencialmente necessário ou útil, pois a graça destes presentes parece consistir na sua desnecessidade e inutilidade. Ninguém oferecerá, por exemplo, um quilo (ou mesmo um saco) de arroz ou feijão para a insidiosa fome que se alastra por estes nossos campos de batalha; ninguém ousará comprar uma boa caixa de sabonetes desodorantes para o suor da testa com que — especialmente neste verão — teremos de conquistar o pão de cada dia. Não: presente é presente, isto é, um objeto extremamente raro e caro, que não sirva a bem dizer para coisa alguma.

Por isso é que os lojistas, num louvável esforço de imaginação, organizam suas sugestões para os compradores, valendo-se de recursos que são a própria imagem da ilusão. Numa grande caixa de plástico transparente (que não serve para nada), repleta de fitas de papel celofane (que para nada servem), coloca-se um sabonete em forma de flor (que nem se possa guardar como flor nem usar como sabonete), e cobra-se pelo adorável conjunto o preço de uma cesta de rosas. Todos ficamos extremamente felizes!

São as cestinhas forradas de seda, as caixas transparentes os estojos, os papéis de embrulho com desenhos inesperados, os barbantes, atilhos, fitas, o que na verdade oferecemos aos parentes e amigos. Pagamos por essa graça delicada da ilusão. E logo tudo se esvai, por entre sorrisos e alegrias.

Durável — apenas o Meninozinho nas suas palhas, a olhar para este mundo.
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *  
Cecília Meireles (1901 – 1964)
CECÍLIA BENEVIDES DE CARVALHO MEIRELES foi uma das mais importantes escritoras e poetas do Brasil, amplamente reconhecida como a voz feminina mais expressiva da segunda geração do Modernismo brasileiro. Marcou a história do país não apenas pela profundidade de seus versos metafísicos, mas também por sua atuação pioneira na educação e no jornalismo cultural. Nasceu em 1901, na cidade do Rio de Janeiro (RJ) e faleceu nesta mesma cidade em 1964 (aos 63 anos), vítima de câncer. Órfã de pai antes de nascer e de mãe aos 3 anos, foi criada por sua avó materna açoriana, Jacinta Garcia Benevides. Passou a maior parte da vida no Rio de Janeiro (inclusive residindo no bairro do Cosme Velho). Devido ao seu prestígio intelectual, passou temporadas no exterior dando palestras e cursos, como na Universidade do Texas (EUA), além de viajar por Portugal, Índia, México, Israel e outros países das Américas. Formou-se professora primária em 1917 pela Escola Normal do Rio de Janeiro. Lecionou no ensino básico e, mais tarde, foi professora de Literatura Luso-Brasileira na Universidade do Distrito Federal (1936-1938). Em 1934, fundou o Centro de Cultura Infantil no Rio de Janeiro, a primeira biblioteca infantil do Brasil. O espaço acabou fechado anos depois pela censura do regime de Getúlio Vargas. Escreveu intensamente sobre educação e cultura para jornais como o Diário de Notícias e produziu crônicas para programas da Rádio MEC e Rádio Roquette-Pinto.
Cecília estreou na literatura aos 18 anos com o livro Espectros (1919). Embora tenha surgido na época do Modernismo, sua poesia possuía características muito singulares. Teve forte influência do Simbolismo e Neosimbolismo (através do grupo da Revista Festa). Seus temas centrais giravam em torno da efemeridade do tempo, a solidão, a melancolia, a transitoriedade das coisas, o misticismo e a busca espiritual. Destacou-se pela musicalidade rigorosa e pelo uso de sinestesia (mistura de sentidos) em seus versos. Ao contrário de muitos de seus contemporâneos, Cecília Meireles não pertenceu à Academia Brasileira de Letras (ABL) como membra efetiva — as mulheres só foram admitidas na instituição a partir de 1977. Contudo, manteve uma relação próxima com a ABL, que reconheceu oficialmente sua genialidade por meio de prêmios máximos. Ela fez parte de comissões de folclore e agremiações culturais pelo mundo. Prêmio de Poesia Olavo Bilac (1939) – Concedido pela Academia Brasileira de Letras pelo livro Viagem (foi a primeira mulher a receber uma distinção desse nível pela instituição). Título de Doutora Honoris Causa (1953) – Concedido pela Universidade de Délhi (Índia) em reconhecimento à sua relevância literária e traduções da obra de Rabindranath Tagore. Prêmio Jabuti de Poesia (1943/1964) – Pelo livro Solombra. Prêmio Machado de Assis (1965) – Concedido postumamente pela ABL pelo conjunto de sua obra.
Cecília publicou mais de 50 obras ao longo da vida, englobando poesia, crônicas e literatura infantil:
Poesia Lírica/Metafísica: Espectros (1919), Viagem (1939), Vaga Música (1942) e Mar Absoluto (1945).
Obra-Prima Histórica: Romanceiro da Inconfidência (1953), um longo poema épico-narrativo que recria a história da Inconfidência Mineira com lirismo impecável.
Literatura Infantil: Ou Isto ou Aquilo (1964), um clássico absoluto da poesia para crianças, que explora a sonoridade e o lúdico sem o tom moralista da época.
Cecília rompeu barreiras em um cenário literário majoritariamente masculino, consolidando-se pelo puro rigor técnico e estético, sem precisar se prender a panfletarismos. Ela rejeitava o termo "poetisa" por considerá-lo segregador, definindo-se simplesmente como "poeta". Enquanto o Modernismo de 1922 buscava romper radicalmente com o passado, Cecília uniu a liberdade moderna com a tradição clássica e a musicalidade simbolista, criando um estilo único e atemporal. Foi responsável por humanizar o livro didático e a poesia infantil no Brasil, tratando a criança como um ser poético e inteligente. Sua poesia trata de dores humanas universais — o tempo que passa, a perda, o sonho —, o que faz com que sua obra continue atual, viva e traduzida no mundo inteiro.

Fonte:
Cecília Meireles. Janela Mágica. Editora Moderna, 1983.

Emilio de Menezes (Poemas Esparsos)

 

CONSOLO

Tudo! ... tudo morreu, mas n'alma brota Uma esperança ainda.
SÊNIO

A alma aberta. . . e chega-me a saudade
Do meu amor — coitado! — a enchê-la. . . a enchê-la...
Como me enchia o peito a felicidade
Dos bons sorrisos, dos carinhos dela.

E o martírio e a tristeza agora é tê-la
Ausente — ausente! ... e a cruel vontade
Que avulta e eu a tenho e é de vê-Ia,
Inda mais cresce aqui na soledade.

Mas nesta ausência em que — só de pensar —
Sinto que a vida vai-se me acabando,
Inda vem-me — feliz! — acalentar

As esperanças que ela dava quando,
— Cego de amor que a luz vai mendigando —
Ia pedir-lhe a esmola de um olhar.

SÚPLICA
Deixa esses mortos graves,Quero a luz desse olhar ase me consola.
( L. CORREIA: "Canção" — Volatas )

Se o teu olhar me conta, magoado,
Quando a dor me tem feito dentro d'alma,
Inda que o lábio cale, descorado,
Este martírio que o teu riso acalma,

E se deste sofrer encontro a palma
No teu piedoso riso, imaculado,
Por que não volves à alegria, à calma?
Por que me deixas triste e amargurado?

Descerra o lábio! A dor, o esquecimento;
Lança-me o sol do teu sorriso, basta
Para aquecer-me a alma em desalento.

A nuvem do pesar do rosto afasta:
— longe de nós a mágoa, o sofrimento;
Limpa-me o céu da tua fronte casta!

A UM RETRATO

Até vós! até vós! talismã sagrado
Daquele morto amor, daquele amor eterno,
Ides deixar-me só, e triste, e abandonado!
Ó meu fiel amigo, inseparável, terno!

Oh! meu leal companheiro, oh! testemunho amado
Deste sofrer sem termo, este martírio interno;
Até vós! até vós! a quem só hei confiado
Os meu dias de céu e os meus dias de inferno,

Ides abandonar-me, ides voltar contente,
Sujeitar-vos, feliz, ao doce julgo dela;
Mas quero que volteis tão límpido e nitente,

Que na morta expressão de vossa fronte bela
Não se note o vestígio, — esse vestígio ardente
Das lágrimas de dor que derramei por ela!

ASPIRAÇÃO

De uma vida sem fé ao glacial inverno
Furtei-me sacudindo o gelo da descrença.
Aquece-me outra vez este calor interno,
Anima-me outra vez uma alegria intensa.

Sinto voltar-me a minha antiga crença,
Creio outra vez no céu e no descanso eterno,
Pois creio em teu olhar, e na ventura imensa
Que ele encerra, e me mostra apaixonado e terno.

E quando deste corpo a alma arrebatada
Seja, e procure, flor, essa região sagrada
Que aos bons é concedida, esplêndida, a irradiar,

Aos sons celestiais de apaixonado hino
Abra-se para ela, olímpico, divino,
O infinito céu do teu sereno olhar.

O VIOLINO

São, às vezes, as surdinas
Dos peitos apaixonados
Aquelas notas divinas
Que ele desprende aos bocados...

Tem, ora os prantos magoados
Dessas crianças franzinas,
Ora os risos debochados
Das mulheres libertinas...

Quando o ouço vem-me à mente
Um prazer intermitente...
A harmonia, que desata,

Geme, chora... e de repente
Dá uma risada estridente
Nos "allegros" da Traviata.

A UM PESSIMISTA

Olhas o céu e o céu, todo em atra gangrena,
Se te mostra corroendo as rútilas esferas.
Baixas à terra o olhar e a terra, em outras eras,
Plena de gozo e amor, ora é de horrores plena.

Sangra a etérea região, sangra a região terrena
E o horizonte, que as une, inda mais dilacera-as.
E as próprias linhas — louco! em que a sânie verberas,
Podres vêm ao papel, podres brotam-te à pena.

Mas, se ao céu e se à terra, e se ao horizonte e ao verso,
Asco e náusea tressuando, a podridão atrelas
E nela vês tombar e fundir-se o universo,

Sobe do chão o olhar, baixa-o das nuvens belas
E volve-o dentro em ti, pois fora o tens imerso
Na própria irradiação das tuas próprias mazelas.

DIAFANEIDADES

Brumas, névoas, no espírito doentio
Passem-me, embora veladoramente,
Tu surgirás eterna flor do estio,
Radiante, rubra, tentadora, ardente.

Toldem-me a vista sóis, e fio a fio,
Trama ofuscante me perturbe a mente,
Eu te verei, eterna flor do frio,
Fria, polar, consoladora, albente.

Visão de fogo, aparição de gelo,
O mágico poder, estranho e raro,
Dás-me de tudo a ver, nítido e belo.

Pois tudo em ti, de amor abrigo e amparo,
Faz-se como este amor que tu'alma fê-lo
Diáfano, leve, transparente, claro.

INSTANTE NEGRO

Anda, acima de nós, na abóbada infinita
Em sinistro remígio, algum sinistro corvo
Que grasna ao nosso mal e à nossa dor crocita
Pondo, entre nós e o sol o seu feral estorvo!

Anda, abaixo de nós, uma víbora aflita
Que assalta o nosso sangue e o suga sorvo a sorvo!
A terra é para nós uma furna maldita.
O céu é para nós um teto negro torvo!

Terra e céu, contra nós, se conspiraram ambos.
A vida é um volutabro*, e o sofrer não se exprime
Com que andamos por ela esfalfados e bambos.

Nem mais ao próprio poeta há um amor que o reanime,
— Em vez dele hoje entoar, hinos e ditirambos,
Canta a glória suprema e a volúpia do Crime! ...
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* Volutabro = lamaçal.
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Emílio de Meneses (1866 - 1918)
EMÍLIO NUNES CORREIA DE MENESES foi um dos mais brilhantes e temidos poetas do início do século XX no Brasil. Mestre do soneto perfeito, ficou eternizado na história literária como o principal sucessor de Gregório de Matos na poesia satírica nacional, combinando uma erudição impecável com uma ironia fina, mordaz e destruidora de reputações. Nasceu em Curitiba/PR, em 1866 e faleceu no Rio de Janeiro/ RJ em 1918, aos 51 anos de idade. Passou a infância e a juventude em Curitiba. Aos 18 anos, mudou-se para a capital federal, (Rio de Janeiro), onde viveu a maior parte da sua vida adulta e se consolidou nos círculos intelectuais. Teve uma breve passagem pela cidade litorânea de Paranaguá (PR) em 1889, retornando em definitivo ao Rio logo no ano seguinte.
De origem humilde, Emílio começou a trabalhar ainda na adolescência (aos 14 anos) como ajudante na farmácia de um cunhado em Curitiba. No Rio de Janeiro, sua grande arena foi o jornalismo. Atuou como cronista, repórter e colaborador assíduo de colunas de humor e política em periódicos influentes (frequentemente usando pseudônimos provocadores como Zangão, Gaston d'Argy e Neófito). Durante o período do Encilhamento (uma bolha financeira no início da República), ele arriscou dinheiro no mercado de ações, enriqueceu rapidamente e passou a ostentar uma vida de luxo, roupas extravagantes e alta alfaiataria. Contudo, perdeu tudo com a mesma velocidade, tornando-se o arquétipo do último grande boêmio da suntuosa Belle Époque carioca, vivendo nos cafés e confeitarias do centro do Rio.
A obra de Emílio de Meneses é marcada por uma fascinante dualidade: de um lado, poemas formais melancólicos e obsessivos com o tema da morte; de outro, os sonetos satíricos, improvisados nos bares, que ridicularizavam políticos, generais e desafetos intelectuais. Esteticamente, ele se filiou ao Parnasianismo, corrente que exigia rigor formal máximo e rimas raras. Foi eleito para a Academia Brasileira de Letras (ABL) em 1914, e protagonizou um dos momentos mais rebeldes da história da ABL. O seu discurso de posse foi considerado tão agressivo e satírico pela comissão da academia que eles exigiram cortes e censuras. Altivo, o poeta recusou-se a alterar uma única linha de seu texto. Por causa desse impasse, ele morreu em 1918 sem nunca ter tomado posse formal de sua cadeira.
Na virada do século XIX para o XX, a literatura brasileira não contava com o sistema moderno de prêmios institucionais ou editais governamentais. O grande "prêmio" e validação de um autor na época era a consagração popular nos jornais, o aplauso nas rodas da Confeitaria Colombo e, no topo da pirâmide, a eleição para o fardão da ABL — honrarias que Emílio obteve amplamente em vida devido à sua genialidade técnica incontestável. Embora grande parte de suas sátiras tenha sido distribuída oralmente ou em pasquins da época, ele publicou volumes de fôlego: Marcha Fúnebre (Sonetos, 1892); Poemas da Morte (1901); Dies Irae – A Tragédia de Aquidabã (Poema épico-trágico, 1906); Poesias (Compilação, 1909); Últimas Rimas (1917); Mortalha - Os Deuses em Ceroulas (Reunião póstuma de artigos, organizada em 1924)
Emílio de Meneses é uma figura crucial na literatura brasileira por ter provado que o rigor técnico impecável da escola parnasiana (o "culto à forma") não precisava ficar restrito a temas acadêmicos, distantes ou excessivamente sérios. Ao canalizar a métrica perfeita do soneto para a crônica humorística e a sátira feroz, ele agiu como um cronista de sua era, despindo as vaidades políticas da Primeira República e humanizando a poesia do período. Junto a nomes como Nestor Vítor e Emiliano Perneta, ele ajudou a colocar o Paraná no mapa das grandes forças literárias do país, quebrando o eixo exclusivo de produção Rio-São Paulo. 

Fontes:
Obra Reunida, de Emílio de Menezes. RJ: Livraria José Olympio, 1980.
Biografia = Repositório da UFSC, Wikipedia, Recanto do Poeta, Antonio Miranda, Ascademia Brasileira de Letras, Notibras, Enciclopedia Itaú Cultural, etc.

Estante de Livros (“Alquimia do Tempo”, de José Feldman)

(Prefácio do escritor romeno Cailin Dragomir)

Existe uma sabedoria mansa que não se aprende nos grandes centros acadêmicos, nem se compra nos balcões da pressa moderna. É uma clareza que nasce do chão, do olhar demorado e da capacidade de escutar o silêncio que o mundo faz quando todos decidiram gritar. Esta é a assinatura invisível de José Feldman, um escritor que carrega em suas raízes a identidade profunda do interior do Paraná. É desse solo paranaense, onde o tempo parece guardar uma conexão mais honesta com a terra, que ele extrai a matéria-prima para a sua obra mais íntima e necessária: A Alquimia do Tempo.

O leitor que abre este livro traz, muito provavelmente, o peito acelerado pelo ritmo tonto dos nossos dias. Vivemos na era do excesso. Somos bombardeados por gigabytes de informação, cobrados por metas invisíveis e arrastados por uma rotina automatizada que nos transforma em meros passageiros da nossa própria existência. Sob o pretexto de estarmos "conectados", desconectamo-nos de nós mesmos. É exatamente contra esse esvaziamento contemporâneo que a escrita de Feldman se levanta, não com a agressividade de um manifesto, mas com a delicadeza de um convite.

O conceito que sustenta as páginas a seguir é o da filosofia das pequenas coisas. Feldman opera como um arqueólogo do cotidiano. Ele não busca o sentido da vida nas grandes teses abstratas, mas sim na crueza e na beleza do ordinário. Ele encontra transcendência na cor do cimento impregnado nas mãos do operário, no mistério de uma janela acesa às três da madrugada, no gosto amargo e negligenciado do último gole de café, no silêncio grávido de cumplicidade entre dois amigos antigos e na vertigem de perceber que podemos ver alguém pela última vez sem sabermos. Para o autor, o cotidiano não é uma repetição enfadonha; é um laboratório alquímico. Cada pequeno fato do dia guarda o potencial de se transformar em ouro existencial, desde que haja um olhar atento para decifrá-lo.

Por essa razão, Alquimia do Tempo não é um livro para ser devorado com a mesma pressa com que checamos as redes sociais. Feldman nos oferece estas crônicas como uma espécie de conta-gotas para a alma. Cada texto foi arquitetado para ser saboreado gota a gota, pausa a pausa. Ler este livro de uma só vez seria um sacrilégio semelhante a engolir um bom vinho sem permitir que ele toque as papilas gustativas. O autor pede o seu tempo. Ele exige que você leia uma crônica, feche o livro por alguns minutos, encare o vazio do seu quarto ou a janela da sua sala e permita que a palavra encontre eco nas suas próprias vivências.

Essa leitura em conta-gotas é um exercício urgente de confrontação. Ao desacelerar o leitor, o força a olhar para o espelho do tempo atual e a fazer perguntas que a velocidade do mundo tenta silenciar. O que estamos realizando com os nossos dias? O que temos colocado dentro do nosso prato da existência? As páginas deste livro funcionam como um balanço afetivo da nossa própria história, dividindo nossa atenção em três eixos fundamentais: o que realizamos, o que deixamos de realizar e o que ainda podemos realizar.

Ao ler sobre as mãos calejadas que constroem o mundo, somos levados a pensar sobre o que já edificamos de concreto e com quanta dignidade assinamos os nossos dias. Ao depararmo-nos com a melancolia das últimas vezes ou das janelas insones, somos inevitavelmente confrontados com as nossas omissões — com o abraço que deixamos de dar, com a palavra de afeto que economizamos por orgulho, com os projetos que guardamos na gaveta do "amanhã" e com tudo aquilo que, por covardia ou distração, deixamos de realizar. Essa dor do potencial desperdiçado é o amargo necessário que o conta-gotas do autor nos deposita na língua.

No entanto, o grande triunfo desta obra não está no lamento pelo tempo perdido, mas sim na faísca do que ainda podemos realizar. Feldman usa a crônica para nos lembrar de que, enquanto houver fôlego e a capacidade de nos espantarmos com o mundo, o livro da nossa vida continua com as páginas em branco, prontas para serem reescritas. Não precisamos aceitar o destino de uma vida vazia, sem conteúdo, anestesiada pelo consumo e pela indiferença. Podemos, sim, escolher a presença. Podemos escolher olhar nos olhos do vizinho no elevador, saborear o café até o fim, calar com um amigo sem medo do vácuo e resgatar o heroísmo miúdo de acordar todas as manhãs dispostos a enfrentar os nossos dragões internos.

A Alquimia do Tempo é, em última análise, um antídoto contra a superficialidade. Nas mãos deste escritor paranaense, a literatura cumpre a sua missão mais nobre: a de nos devolver a nós mesmos. Ao terminar este prefácio e avançar para a primeira gota deste livro, dispa-se da pressa que o trouxe até aqui. Deixe que o silêncio confortável das palavras do autor cure o ruído do seu dia. Permita-se sentir o peso, o sabor e a direção do seu próprio tempo. Afinal, a vida é curta demais para ser vivida no automático, e preciosa demais para não ser transformada em arte.

Boa leitura. Desacelere e saboreie.

Texto integrante do Livro Alquimia do Tempo, de José Feldman

Irmãos Grimm (A Lua)

Em tempos que já lá vão havia uma terra onde a noite era sempre escura e o céu estendia-se sobre ela como um lenço negro, pois ali a Lua nunca subia e nenhuma estrela piscava na escuridão. Na altura da criação do mundo, a luz da noite era suficiente. Uma vez, saíram desta terra em peregrinação quatro rapazes e chegaram a um outro reino onde, quando à noite o Sol desaparecia atrás dos montes, havia uma esfera brilhante pendurada num carvalho, que deitava uma luz suave em todas as direções. Devido a ela, era possível ver e distinguir tudo muito bem, embora não fosse uma luz tão forte como a do Sol. Os rapazes pararam e perguntaram a um lavrador, que passava por ali com o seu carro, que luz era aquela. "Aquilo é a Lua", respondeu ele, "o nosso prefeito comprou-a por três moedas e pendurou-a no carvalho. Tem de lhe deitar óleo todos os dias e mantê-la limpa, para que ela não deixe de brilhar. Por isso, pagamos-lhe uma moeda por semana."

Assim que o lavrador partiu, disse um deles: "Esta lanterna fazia-nos jeito, também lá temos um carvalho, tão alto como este, onde a podemos pendurar. Que grande alegria deixar de tropeçar na escuridão!"

"Sabem que mais?", disse o segundo, "precisamos de arranjar um carro e um cavalo e levar a Lua embora. As pessoas daqui bem podem comprar uma outra."

"Eu trepo com muita facilidade", disse o terceiro, "trago-a já para baixo!" O quarto trouxe um carro e um cavalo e o terceiro trepou pela árvore acima, fez um buraco na Lua, passou-lhe um fio e fê-la descer. Assim que a Lua brilhante ficou dentro do carro, deitaram-lhe um lenço por cima, para que ninguém se apercebesse do roubo. Levaram-na sem problemas para a sua terra e penduraram-na num alto carvalho. Velhos e novos alegraram-se, quando a nova lanterna começou a estender a sua luz sobre os campos e os quartos e salas se encheram dela. Os anões saíram dos seus buracos nas rochas e os pequenos elfos, com os seus casacos vermelhos, faziam rodas nos prados.

Os quatro rapazes tratavam da Lua com óleo, limpavam a mecha e recebiam a sua moeda semanal. No entanto, envelheceram e quando um deles adoeceu e se apercebeu de que a morte estava próxima, ordenou que o quarto da Lua que lhe pertencia fosse levado com ele para a sepultura. Quando morreu, o prefeito trepou à árvore e, com a tesoura da poda, cortou um quarto da Lua que meteu no caixão. A luz da Lua diminuiu, mas não muito. Quando morreu o segundo, foi-lhe dado o segundo quarto e a luz mingou. Mais fraca ficou ainda quando morreu o terceiro, que também levou o seu quarto e, quando o quarto homem foi sepultado, instalou-se de novo a velha escuridão. Sempre que as pessoas saíam à noite sem lanterna, batiam com as cabeças umas nas outras.

Porém, assim que os quartos da Lua se juntaram no inferno, os mortos, habituados à escuridão, agitaram-se e acordaram do seu sono. Ficaram espantados por poderem ver de novo: a luz da Lua chegava-lhes bem, pois os seus olhos estavam tão fracos que não teriam podido suportar a luz do Sol. Ergueram-se, alegraram-se e retomaram os seus hábitos de vida. Alguns deles dedicaram-se ao jogo e à dança, outros foram para as tabernas onde pediram vinho, embriagaram-se, vociferaram e lutaram e, por fim, pegaram em cacetes e bateram uns nos outros. O barulho era cada vez maior até que, por fim, chegou ao céu.

São Pedro, que guarda as portas do céu, calculou que o inferno se tinha revoltado e chamou as hostes celestes, que lutavam contra o maligno, porque este e os seus associados pretendiam assolar a morada dos abençoados. Como, porém, elas não vinham, São Pedro montou no seu cavalo, atravessou as portas do céu e foi ao inferno. Aí sossegou os mortos, fê-los voltar de novo à sepultura e levou com ele a Lua, pendurando-a no céu.
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Irmãos Grimm = Jakob (1785 - 1863); Wilhelm (1786 - 1859)
Folcloristas e escritores de contos infantis, Jakob Ludwing Carl Grimm (1785-1863) e Wilhelm Carl Grimm (1786-1859) nasceram em Hanau, no Grão-ducado de Hesse, na Alemanha. Receberam formação religiosa na Igreja Calvinista Reformada. Das nove crianças da família só seis chegaram à idade adulta. Os Irmãos Grimm passaram a infância na aldeia de Steinau, onde o pai era funcionário de justiça e Administração do conde de Hessen. Em 1796, com a morte repentina do pai, a família passou por dificuldades financeiras. Em 1798, Jakob e Wilhelm, os filhos mais velhos, foram levados para a casa de uma tia materna na cidade de Hassel, onde foram matriculados numa escola. Depois de concluído o ensino médio, os irmãos ingressaram na Universidade de Marburg. Estudiosos e interessados nas pesquisas de manuscritos e documentos históricos, receberam o apoio de um professor, que colocou sua biblioteca particular à disposição dos irmãos, onde tiveram acesso às obras do Romantismo e às cantigas de amor medievais. Depois de formados, os Irmãos Grimm se fixaram em Kassel e ambos ocuparam o cargo de bibliotecário. Em 1807, com o avanço do exército francês pelos territórios alemães, a cidade de Kassel passou a ser governada por Jérome Bonaparte, irmão mais novo de Napoleão, que a tornou capital do reino recém-instalado, Reino da Vestfália. Essa situação despertou o espírito nacionalista do romantismo alemão. A busca das raízes populares da germanidade estava em voga. Os irmãos reivindicaram a origem alemã para histórias conhecidas também em outros países europeus – como Chapeuzinho Vermelho, registrada pelo francês Charles Perrault bem antes do século XVII. No final de 1812, os irmãos apresentaram 86 contos coletados da tradição oral da região alemã do Hesse em um volume intitulado “Kinder-und Hausmärchen”, Contos de Fadas para o Lar e as Crianças. Em 1815 lançaram o segundo volume, Lendas Alemãs, no qual reuniram mais de setenta contos. Em 1840 os irmãos mudaram-se para Berlim onde iniciaram seu trabalho mais ambicioso: Dicionário Alemão. A obra, cujo primeiro fascículo apareceu em 1852, mas não pode ser terminada por eles. Faleceram em Berlim Wilhelm em 1859 e Jakob em 1863.

Fonte:
José António Gomes e Isabel Ramalhete (Seleção e coordenação). Contos de Sempre. Porto/Portugal: Porto Editora, Setembro de 2004.