O “filme de tubarões” é um subgénero que nunca passou de moda desde que Steven Spielberg lançou o seu Jaws em 1975. Já aqui falámos de filmes de tubarões, de baleias assassinas e de outros animais aquáticos saídos diretamente da influência dessa obra. Também já abordámos produções de super baixo orçamento da The Asylum ou do canal Syfy, recheadas de efeitos especiais ranhosos e performances sofríveis, mas que, por alguma razão bizarra, continuam a ser lançadas às centenas anualmente com um público abundante e muito específico sempre sedento de os consumir. Ultimamente tem ressurgido uma vaga deste género de filmes, todos iguais a todos os outros, só que com muito melhor marketing e muito mais dinheiro metido nas partes de carnificina, que é afinal aquilo que nós estamos aqui para ver.
Continue readingComo sou este típico consumidor influenciado do século XXI, não consegui resistir ao lançamento do novo filme que dizem ser o “Purge da Foda”, um filme que usa e abusa do conceito de que, num futuro distópico muito próximo, o governo apenas permite que os solteiros tenham sexo uma noite por ano. Toda a gente é controlada através de umas tatuagens biométricas que, sem grande justificação científica, monitorizam quem pode ou não gratinar o canelone e avisam de imediato as autoridades quando ocorre algum incumprimento originado pela utilização negligente do coito.
Continue readingOutro género de filmes a que não consigo resistir é o stoner movie. Quanto mais idiota, melhor! Tal como a comédia com Jim Carrey que, não sendo estritamente deste subgénero, faz-se passear por um registo muito semelhante. E estava descansado no meu sofá, infelizmente sóbrio, quando surge uma novidade novinha em folha na área do entretenimento droganóide. The Wrong Girls, a primeira longa-metragem realizada por Dylan Meyer, na qual Kristen Stewart volta a molhar os pezinhos nesta temática tão exótica do fritanço.
Continue readingI Want Your Sex tem andado com o fogo no rabo pelas redes e fóruns de cinema, frequentemente puxado para a conversa para tentar ilustrar a versatilidade de Olivia Wilde enquanto atriz. O pretexto é a chegada quase em simultâneo de dois filmes protagonizadas por ela. Por um lado The Invite (que també, realiza e que fez uma carreira muito consistente nas salas), e por outro este I Want Your Sex, realizado por Gregg Araki, onde a atriz salta para o polo oposto da representação. Se em The Invite encarna quase o arquétipo da dona de casa tradicional, o sonho húmido desta nova vaga conservadora e de extrema-direita, ainda que minado por fantasias reprimidas nas entrelinhas, aqui aparece como uma libertina sexual predatória, desprovida de tabus sobre o próprio corpo ou sobre os sítios bizarros onde o enfia.
Continue readingPassamos dias, semanas, meses e anos inteiros a ver filmes dedicados a personagens com os quais apenas levemente nos identificamos. Mas eis que hoje vos trago uma fita que fala diretamente sobre nós. Fala de mim, fala de ti que estás a ler e fala de toda a nossa bolha cinéfila, cuja vida parece ser um constante orbitar à volta da cinefilia. Em Fade to Black, filme de 1980 realizado por Vernon Zimmerman, temos um tema muito sensível que mistura a cinefilia mais obsessiva com o trauma de uma vida inteira de abandono e orfandade.
Continue readingFalamos muitas vezes de filmes que vimos com anos ou até décadas de diferença, e de como o nosso olhar muda por completo entre a primeira vez e a revisão mais recente. É um processo natural, reflete o nosso próprio amadurecimento e o modo como a sociedade evolui e encara certas temáticas ao longo do tempo. Hoje calhou rever Sete Noivas para Sete Irmãos, o clássico de 1954 realizado por Stanley Donen, o mesmo homem por trás de obras icónicas como Serenata à Chuva e de fitas improváveis como Saturno 3, de que já falei no podcast.
Continue readingApareceu de um dia para o outro, como se se tivesse materializado diretamente na Enterprise, o filme It Ends. É mais um caso típico de filme que estreia em festivais e traz agarrado a si o ano da sua passagem pelo circuito independente, acabando por chegar mais tarde ao circuito comercial. Embora sejam novinhos em folha, reluzentes e a brilhar, surgem com datas que parecem antigas. Como um carro que não cheira a novo. Desta vez apanhei-o de surpresa, anunciado como um thriller de terror ou um suspense denso. No trailer nota-se logo perigo no ar, com uma espécie de zombies ou monstros a perseguir os protagonistas, deixando a dúvida no ar sobre que caralhos estará a acontecer.
Continue readingDracula de 1958 é a versão do livro de Bram Stoker produzida pela inigualável Hammer Films. Para contextualizar rapidamente, a Hammer foi uma produtora britânica que viveu a sua era de ouro entre meados dos anos 50 e o início dos anos 70, dedicando-se a refazer os monstros clássicos da Universal, Múmia, Frankenstein, o Homem Invisível e o próprio Drácula, sempre em glorioso Technicolor e embrulhados numa densa névoa de erotismo gótico muito maroto mas discreto.
Continue readingVer cinema ao fim de quase 50 anos é uma atividade muito parecida com completar uma coleção de cromos quando só falta meia dúzia para acabar a caderneta. Vemos filme após filme após filme, quase todos banais, maus ou formulaicos, os repetidos para quem já se esqueceu que era uma analogia. Mas, ocasionalmente, calha um bom. É exatamente a mesma sensação do colecionador que tem quase a caderneta cheia e de repente lhe sai aquele cromo que ainda não tinha. Quando acontece, não causa euforia nem momentos de êxtase, mas antes uma profunda sensação de alívio, o alívio de perceber que a conversa de que “os filmes estão cada vez piores” ainda tem exceções suficientes para nos manter à procura.
Continue readingOutro mecanismo pelo qual vocês podem acertar os vossos relógios e os vossos calendários solares são os lançamentos de filmes de Jason Statham. Toda a gente sabe ao que vai mesmo antes de começar a ver. A receita é quase sempre a mesma: a história de um profissional, um homem trabalhador do povo, alguém com um curso técnico-profissional que exerce uma tarefa bastante especializada, mas cujo passado envolve ter sido um comando de elite numa força de intervenção secreta de uma potência militar composta inteiramente de John Wicks. Enfim, algo que lhe confira, de forma imprevista, capacidades quase paranormais na arte mágica de assentar o sopapo.
Continue readingEntretanto, 2026 revela-se um dos melhores anos para o terror, nomeadamente se vier com a etiqueta de que é de baixo orçamento, que é independente, que é de um realizador muito jovem e, se for baseado numa história do YouTube ou da internet, é um opcional bastante bem cotado. E nós, atentos a estes sinais divinos, lá vamos refinando a nossa pesquisa de filmes, tendo em conta que eles saem aos milhares todos os meses. Desta vez mais um especimen da safra de 2026? Será bom? Para saber a resposta a esta pergunta é preciso, também, saber ler.
Continue readingEstreou o filme do The Mandalorian. Estava em casa a obrar com o telefone na mão esquerda quando alguém me pergunta: “Então, vais ver o filme do Mandalorian?” E eu pergunto: “Mas já saiu o trailer?” Ao que me respondem que o filme já tinha estreado na semana anterior! Fiquei sem piadas nem apontamentos interessantes para dizer, porque nem tinha ideia de que existia um filme do The Mandalorian a caminho para as salas de cinema. Nunca consegui ver potencial deste personagem para cinema. É um herói da TV, feito para resolver problemas em 25 minutos ou, no limite, em dois slots de meia hora enquanto exibe o seu boneco para criar a necessidade nas nossas crianças de mais plástico chinês a 89 euros + portes a dose.
Continue readingAo carregar acidentalmente num botão do comando, fui dar à aplicação do HBOMax. Dei por mim no painel inicial com as novidades e o primeiro destaque da lista era Drag Me to Hell , uma das obras de terror mais recentes de Sam Raimi. Há muito tempo que não lhe punha o olho em cima e pensei: “Comando na mão, carrega no botão“. Só rever o início para refrescar a vista. Lembrava-me de algumas cenas e da história em geral, mas revê-lo veio recordar-me uma das principais marcas registadas de Sam Raimi.
Continue readingDei comigo a falar com o António Araújo, do podcast Segundo Take e dos Universos Paralelos, acerca do filme Top Secret! É daqueles assuntos gostosos que, por vezes, germinam no meio de uma conversa de maneira silvestre e natural, e deixámo-nos ficar ali um bocado a banhar na nostalgia e também na melancolia pela morte recente de Val Kilmer. Pois é neste filme que molha os pés pela primeira vez nas quentes águas do sucesso em Hollywood. À altura ele apareceu com a pujança da juventude e foi com essa característica tão importante neste filme que subiu para a primeira divisão, por onde andou bastante tempo. Isto quando nem a morte o safa porque, ao que parece, a família já vendeu os direitos da sua aparência física para ele poder ser protagonista de filmes nos próximos 500 anos.
Continue readingEnquanto fazia uma daquelas habituais campanhas de garimpagem na Amazon à procura de DVDs a 1 euro e Blu-rays a menos de 5, deparei-me com um filme de terror chamado Evilspeak. Uma edição francesa, mas trazia o que realmente interessa: o áudio original e legendas em inglês. Para mim, tratava-se de um título desconhecido, enquadrado num subgénero muito específico que populou o cinema ali no início dos anos 80, a fase em que o computador, um equipamento quase mágico sobre o qual ninguém sabia muito bem o que se podia fazer, era usado para executar as ações mais bizarras. Neste caso, magia negra e operacionalização da vontade dos demónios.
Continue readingSou frequentemente alvo de chacota por parte dos meus amigos quando vejo um filme que à primeira vista não estaria no meu radar. Ou uma série de televisão ou uma comédia romântica, enfim, tudo que não tenha nudez ou violência gratuita. A minha desculpa é sempre que vejo por causa dos meus filhos. Não tenho nada a contrariar esse movimento, uma vez que eu, de facto, acompanho os meus filhos a tudo o que eles queiram ver, desde séries a filmes. Só o facto de poder estar com eles a ter a experiência de ver cinema, ou mesmo televisão, de estar no sofá, ou de discutir um tema que é só nosso porque os dois, ou os três, ou os quatro, ou os cinco vimos a mesma série, já é uma coisa positiva.
Continue readingO casamento perfeito feito no inferno tecnológico! Imaginar o Vincenzo Natali, o homem que nos fechou no Cube, a adaptar a bíblia cyberpunk de William Gibson com o traço sombrio e arquitetónico do Tsutomu Nihei deixa qualquer fã de sci-fi com uma lágrima no olho. Fica para a história como mais um daqueles “fantasmas de futuros passados” que nunca chegaram a ver a luz da sala escura.
Continue readingPara quem olha para os créditos de longe, a dupla “Fábio Powers” e “Jules Ramos Spaniard” soa quase a uma produção anglo-saxónica ou a uma descendência exótica da aristocracia da Bielorrússia do século XIX. A explicação, contudo, é bastante mais pitoresca. Fábio explica que o seu nome de batismo é Fábio Luís, mas como a sua lista de amigos contava com uma sobrepopulação de “Luíses”, tornou-se imperativo adotar uma alcunha nos tempos do secundário. A paixão desmedida pelos filmes de Mike Myers, do universo de Wayne’s World a Austin Powers, tratou de colar a marca até hoje.
Já o caso de Jules Spaniard atinge contornos verdadeiramente caricatos. O nome original, “Jules Spada Anal”, trazia consigo um potencial inesgotável para piadas de mau gosto que valia a pena mitigar. Quando foi para a faculdade e se cruzou com estudantes de Erasmus, onde uma colega húngara chegou a perguntar se Portugal não era uma província de Espanha, a piada consumou-se: “Se somos todos espanhóis, então fica Jules Spaniard”. Ficou assim batizado aquele que viria a tornar-se o pilar dos efeitos especiais do filme.
Continue readingE entretanto, 40 anos depois, cá estamos confortavelmente sentados a bordo do autocarro Psycho! Depois de aceitar Psycho II no meu coração, cheguei a Psycho III e à conclusão de que esta saga e o Scream do Wes Craven não são assim tão diferentes. No fundo, temos sempre um assassino de faca na mão disfarçado de “mãe” do Norman Bates, trocado a cada filme num estilo whodunit meio Scooby-Doo. Desta vez, com o próprio Anthony Perkins a tomar as rédeas da realização, a história reabre o motel, contrata um empregado sabujo meio criminoso, e uma noviça em crise de fé que é a cara da personagem original de Hitchcock. Entre crises psicológicas do Norman, alucinações e um banho de sangue, o filme desenrola-se em três atos certinhos cheios de peripécias e twists deliciosamente improváveis.
Continue readingUm destes dias passeava-me por um fórum na internet em que se discutia quais eram as melhores transferências de Blu-ray que estavam a sair em 4K no mercado atual. Não se falava, claro, de filmes modernos, mas sim de filmes antigos que, à luz desta nova digitalização e desta nova transferência para este meio que é o 4K HDR, viviam uma súbita ressuscitação. Várias pessoas mencionaram o filme de 1988, The Blob. Estava aqui uma bela altura para rever este filme e perceber por que é que isto está assim tão bem cotado.
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