19 junho, 2011

Eu olho pro chão e piso no céu

Há quem diga que as pessoas não olham para baixo ou para o alto em seu dia a dia. Eu devo ser o oposto disso tudo. Estou sempre olhando para cima ao longo do dia. Tá certo que sou baixinho, mas eu não nego desfrutar do visual da lua, de um céu ao meio dia ou mesmo dos vidros espelhados dos arranhas-céu. Eu gosto de olhar para o alto e não me sentir pequenino, mas ter a sensação da vastidão que está a minha espera.
O mesmo acontece em olhar para baixo. Isso eu posso afirmar, que a maior parte das pessoas não olham para o chão ou para os pés dos outros. Eu por minha estranha vez, olho sempre aos sapatos de quem passa por mim. Gosto de sapatos. Olhar para eles ainda me dá a possibilidade em descobrir o que vai pelo meu caminho. Os ladrilhos, as tampas de bueiros das cidades, as faixas tinturadas das metrópoles, as folhas caídas de outono ou mesmo as marcas de um registro qualquer deixadas ali no meio da rua como uma prova de amor.
E nada disso é menos interessante do que o olhar usual, o olhar para frente. Mas é que além do teu campo visual em estado de descanso você tem o céu e o chão, e com um diferencial, esses dois te dão a exata dimensão das possibilidades e do limite. Se desço os meus olhos, dali eu não passo, mas se me volto para o alto, existe um mundo inteiro ao meu redor.
Essa dicotomia que me faz gostar de sapatos, deve ser o mesmo motivo pelo qual eu adoraria voar.

05 junho, 2011

burro!

Hoje eu estou burro. Não há muito o que se falar de hoje. Pronto. Esse post termina aqui.

03 dezembro, 2010

sempre

Eu podia contar os segundos sem saber poque faço isso. Eu sempre soube poder ser um ativista sem causa. Acreditar por horas lembrar de alguém que eu nem conheço, ou mesmo esperar por dias um desejo desconhecido. Já lutei uma vida inteira por conquistas acabadas e recorrente é acordar todo dia acreditando ser quem eu nunca fui.

Eu vivo num mistério de desencontros. Eu sou segredo sem grandes revelações. Um livro nunca aberto com páginas marcadas, destinado a nunca lerem a versão original. Eu penso o existir todos os dias e recaio na única certeza de não ser nada. As vezes também insisto em enxergar beleza na vida ou relutar ver o que tanto há de errado nela.

A grande questão é não haver tantos altos e baixos assim, é tudo morno. A vida passa por mim e deixa muitas marcas, quanto a mim por exemplo, tenho só a impressão de nada marcar com ela. Surpreendente e não inesperado. Eu tô quase sempre em conflito comigo.

caixa de fósforo

Trancado no corredor de uma casa amarela, número 64 de uma rua sem saída, olhava pra frente, estático na porta do corredor. Não passava por aquele portal há anos, não sabia como estava a rua, as casas e nem mesmo seu jardim. Uma dor o fez trancar-se no corredor. Não ia a sala, ficou entre cozinha, quarto e corredor. Tampouco sabia quanto tempo estava nessa rotina, pedera a noção de tempo. Dormiu por dias, achava ter acordado de um coma.

Não sabia o porque estava ali, só sabia que estava lacrado. Se perguntara algumas vezes qual seria aquela cidade. Ele já viajara tanto em sua vida, que não sabia aonde que realmente tinha parado. Parou ali, ali era o nome pra tudo. Morava ali, comia ali, dormia ali, sonhava ali, morreria ali? Estava decidido a tentar sair, sem alarde. Tinha receio do que pudesse estar atrás das portas e janelas que impediam a luz do sol, presenteando-lhe apenas com uma pequena fresta de luz.

Ali, tinha alguns amigos. Ele ocasionalmente conversava com uma cadeira e lembrava de grandes amores que vivera em suas viagens. Era a cadeira a sua grande amiga, sua amante, sua irmã. Certa vez, lembrou-se de uma incrível viagem que fez ao mais extremo norte da europa. Falava que parecia muito Ali, tinha dias escuros e frios. Lá ele conheceu o grande amor da sua vida, mas era proibido. Ele se apaixonara por um garoto. Um menino desses branquinhos e europeus com seus doze ou quinze anos. Ele tinha olhos claros, pele clara, mas cabelos escuros. Tinha sardas. Poucas, mas em quase todo corpo. Se conheceram numa estrada dessas que nos leva a lugar nenhum.

Era dia mas estava escuro ainda, como a maior parte do ano naquela região, igualzinho como Ali. O menino todo agasalhado por conta do frio, trazia uma bolsa e nada mais. Quando se viram, tiveram medo um do outro. Pararam e hesitaram seguir. Mexiam nas bolsas como se procurassem alguma desculpa para voltar em seus caminhos, não queriam correr riscos na estrada que não ia pra lugar nenhum. E não distante para sua surpresa o menino resolveu seguir, mas antes perguntou:

- O senhor tem fósforo?

Ele ficou bobo com a ousadia daquela criança, olhou procurando alguém que não fosse ele, mas logo respondeu:

- Está com frio? O que faz um menino sozinho por essas estradas?

O menino mostrou-se irritado com o interesse do solitário transeunte e ignorando sua curiosidade seguiu. Ignorado e mais uma vez sozinho ele sentiu-se invadindo a história daquele pequeno e amavel garoto, não questionou e ofereceu uma caixa de fósforos.

- Ei, volte aqui. Tenho um presente para lhe dar.

E retornando com toda sua inocência infantil o menino voltou, como se fosse ganhar o que mais sonhara por toda sua vida. Mas era apenas uma caixa de fósforos. Aceitou a caixa do transeunte e quis agradecer. Deu-lhe um beijo, um beijo na boca. Inerte e estático o mundo parou por um segundo naquela estrada de lugar nenhum. O escuro dava margem para coisas proibidas e aquilo lhe pareceu seguramente proibido. Mais uma vez o homem procurou alguém em volta, mas ninguém estava para julgar o beijo infantil.

- Mas o que foi isso? Ele perguntou.

- Um agrado pelo presente. É como melhor posso demonstrar a minha gratidão. Deixo em você uma marca minha.

- É que isso me parece proibido....

- Quem proibi a vida somos nós. Isso foi apenas um agradecimento. Obrigado pela caixa.

E despedindo-se outro beijo estalou na boca dele. Dessa vez foi abraçado, e no frio daquele dia escuro do norte europeu, numa estrada que levava a lugar nenhum, os dois corpos de tempos distintos eram tão próximos que trocaram calor, respiravam suas peles e sem que o garoto pudesse esperar, o tal homem da caixa de fósforo lhe deu outro beijo.

- Mas o que foi isso? Perguntou o menino, esquivando-se dos braços quase paternos.

- Um agrado pelo nosso encontro.

E sem mais nada falar, o homem parou e assistiu o menino virar as costas e ir embora apenas com agasalhos, uma bolsa e aquela caixa de fósforos. O jovem deu alguns passos rápidos como se procurasse fugir do que o homem tinha a lhe dizer. O homem continuava parado. O menino apressou-se, mas parou. Notou algo naquela caixa de fósforo, como se alguma coisa tivesse mudado naquele instante. Voltou-se correndo ao encontro do homem que continuava parado, deu-lhe mais um beijo e falou:

- Isso é porque te amo. Jamais te esquecerei.

E saiu correndo por aquela estrada que não dava em lugar nenhum. E enquanto o homem deixava correr as lágrimas sem notar que a criança sumia na escura noite de um dia no norte europeu.

Bastava escurecer a fresta de sol que ainda entrava na casa amarela, que a cadeira ouvia tudo sem mover uma perna. Ele contava emocionado as histórias que marcaram a sua vida sempre no mesmo horário. Essa do menino do norte europeu ele jamais contara a ninguém, mas nesse dia em especial, chorava como criança, debruçando-se sobre a cadeira. Lembrou-se daquele dia e como queria que o mundo tivesse parado para eles, ali. Conteve suas não discretas lágrimas olhou para o lado, como fazia ocasionalmente procurando alguém, mas não tinha ninguém pra julga-lo. Lembrou-se que existia alguém em algum lugar que o amava. O que ele fazia trancado ali? Foi até a porta e batia desesperado por amar. Queria saber o nome do menino para gritar por ele, mas não sabia e chorava. Correu até um velho armário na cozinha antiga daquele corredor trancado, procurou algo para lhe ajudar a sair. Jogou todas as sobras e restos deixados de lado por todo aquele tempo. Nada, mas apenas uma caixa de fósforos.

Queria falar com a alguém e a cadeira nada dizia, queria sair dali, mas ninguém lhe abria a porta, ninguém lhe procurava. A dor era imensa e a lembrança daquela estrada de lugar nenhum lhe fez querer encontrar alguém, que não estava ali. Ninguém estava ali. Acendeu o primeiro fósforo. Era luz além da pequena fresta de sol que entrava pelas manhãs no corredor lacrado. Queimou o segundo e parecia que não durava o tempo suficiente. Acendeu três de uma vez, rapidamente apagaram. A chama queimava-lhe por dentro, precisava acabar com aquela dor, que aumentava a cada fósforo perdido. Foi então que resolveu dar luz a sua vida e quem sabe um dia, em alguma estrada de lugar nenhum, encontrar alguém.

07 abril, 2010

Ao acaso de dormir

Essa noite eu fui dormir e no acaso encontrei minha vida. Era um dia incomum, de lugar incomum e atitude ainda mais. Surpreendi-me ao não hesitar em tornar a andar por caminhos que me assustavam antigamente, que torturavam uma história que já tinha tido fim. Sem receios e medo decidi partir em frente e pela primeira vez na vida fiquei cara a cara com o futuro.

Naquela noite eu simplesmente encontrei o futuro, entendi e passei a respeitar cada vez mais o acaso, que me trouxe num dia qualquer, numa hora qualquer, a um lugar não tanto assim e fez com que cada vez mais, eu que se quer pensava aonde estava indo, apenas pisasse com a certeza de passos firmes e seguisse numa trilha segura com destino final desconhecido, mas de viagem indescritível.

E nessa noite, a mesma noite, mas já não mais aquela eu me vi ali, estático e turbulento, fui apresentado a mim mesmo. Na penumbra do meu caminho a dormir, eu lancei meu braço ao desconhecido próximo e num toque mais que comum, totalmente passivel de ordinariedade, fui trazido ao futuro. Um toque que não me deixou dormir. E aqui é onde estou e o porquê que sou a pessoa mais feliz do mundo.

Que o acaso seja eterno.

12 fevereiro, 2010

mais

Eu já quis pintar um quarto inteiro de azul. Eu pensei que isso fosse me levar ao céu. Pensei em ser sozinho, pra alcancar mais facilmente o meu mais intimo desejo. Não sabia que ele vinha acompanhado de alguém. Me escondia na ilusão de um quarto azul.
Cantava pra sentir mais forte, fechava até os olhos na esperança de ser real. Era verdadeiro, mas intocavel. E no azul do quarto colei algumas imagens. Eu tinha um céu agora cheio de estrelas, eram todas cadentes, cada uma com seu desejo suspensos pra se realizar. Qual primeiro cairia pra mim?
Numa noite, escura em que não se via o azul, algo caiu. Era uma das imagens que colei no céu. E que sem que eu esperasse invadiu meu mundo. Planava no ar e lentamente caia em mim. Parou ao meu lado, sem dúvida trazendo o mais esperado desejo realizado. Mas não abri. Aquilo eu já tinha agora. Eu queria mais.

pra fora

Esses dias parei de escrever. Nada do que vivia parecia ser digno de palavras escritas. É, parei de escrever. Um dia ou outro sentava na frente do computador com ideias mirabolantes, sonhos inesperados e histórias fantasticas de mundos que não o meu. Batia umas duas ou três teclas, nada muito maior que isso e ali parava. Era como se fosse uma mentira, não era eu. Não era meu. Tentar colocar pra fora o que não quer sair, no meu caso, é impossível.
Um dia li em algum lugar que a gente escreve pra externar o que é maior do que o espaço que reservamos dentro de nós. E é verdade. Nada era maior naquele instante, nada estava sobresaltando o espaço que havia dentro de mim. Era tímido o que outrora fora grande e a verdade é que não saia. Não tinha o que sair.
Só que esses dias, os últimas dias, parece que alguma coisa cresceu. Surgiu e ocupou um espaço doado a nada, a ninguém. E comecou a inquietude, quando naturalmente mais do que duas ou três teclas foram saindo na tela, mesmo que depois apagadas inicialmente, mas elas saiam. E tudo o que não parecia ser digno antes, ganhou cor, letra e até movimento. Eram rápidas as palavras num pensamento incessante. Escrevi algumas cartas, algumas frases, algumas músicas.
Foi quando num belo dia desses, a vida acordou mais viva. Tentava parar e não conseguia. Eu precisava colocar pra fora. Estava imenso, não cabia. Precisava acomodar em algumas letras, numa folha qualquer aquilo pulsando dentro de mim. E ordinariamente voltei a escrever. Eu sorria sem nem saber porque, corria sem poder andar, sonhava mesmo sem dormir. O meu mundo voltou a existir, e um mundo cheio de letras para o acompanhar.

previsível

Eu queria parafrasear pra mim nessa noite todas as coisas bonitas que eu já li. Talvez contar alguns números pra poder me sentir inteiro. É novo esse estado diferente, um controle desgovernado, uma causa sem bandeiras por conta de uma saudade. Incompreensível e verdadeiro, tudo que nunca quis ter vivido antes. Um instante errado, um minuto de silêncio e o resto da vida distante.
Eu queria olhar nas nuvens e ver flores. Um céu que sorrisse pra mim de rosas vermelhas e que nunca chovessem as brancas. Eu quis uma eternidade já finda. Sonhei junto por um mundo melhor, chorei junto por dias mais quentes. Nada do que eu disse foi sincero, nada do que fiz inesperado. Morremos no tempo calculado, sozinho como em praia de verão, ardente e queiamando por dentro.
Eu queria um vazio sonorizado, que ecoasse pelas formas de amor. Eu vivi tudo um pouco meio errado. Desejos acabados, sonhos em vão, vidas de fraude. Tempos passados, encontros atrasados. Um quebra-cabeça previsivelmente desmontado.

22 novembro, 2009

Do que ele nunca foi

Em algum lugar perdido no mapa viveu Pedro. Ambicioso por uma vida recheada do que ele sempre sonhou. Enquanto levava seu tedioso e interrupto cotidiano de aluno de uma escola de sociedade qualquer, esse ainda menino vivia a sonhar com a liberdade, com algo especial, um mundo, seu mundo.
Para muitos era demais, para poucos um exagero, mas para ele era na medida certa. Ele desejava poucos amigos, uma casa e carro próprios e sua família sempre presente, chorava pela família presente.
Como muitos outros garotos que vivem em algum lugar perdido no mapa, Pedro terminou a sua escola e seguiu com a vida. Descobriu aos poucos que nada do que fora aprendido servia para viver, refez suas escolas e comprou novos diplomas. Tudo muito rápído, ele não podia ficar para trás, já era velho para esperar. Velhice que incomodava muito a ele, pois embora durante toda escola estivesse sempre metido com outras idades, o menino não queria crescer.
E cresceu.
Mais velho estava ele perdido em algum lugar do mapa. Não tinha nada de especial, como ele um dia sonhou, nem se quer tinha ciência de que existia para ele, ali, um mundo. Era mais velho e via-se infantil, tinha liberdade e sentia-se preso. Ele usava óculos, mas negava-se a enxergar o futuro.
Em algum lugar do mapa, em que Pedro andou, ele esqueceu de carregar consigo o que ele quisera ser. Perdeu-se em qualquer uma dessas esquinas seus sonhos, seus planos, seu mundo e sua juventude. Carregou consigo a dúvida e angústia de não saber se localizar no mapa.
Envelhece todo dia, Pedro, mas não morre. Nem vai morrer. Ele é velho demais para infinda juventude não vivida e jovem demais para descobrir que na velhice é quando se é jovem. A impressão que me dá, é a de que Pedro tem uma dessas doenças sem cura: a eterna saudade do que ele nunca foi.