João Goulart
João Belchior Marques Goulart (São Borja, 1 de março de 1919[nota 1] – Mercedes, 6 de dezembro de 1976),[4] conhecido popularmente como Jango, foi um advogado, agropecuarista e político brasileiro, que serviu como o 24.º presidente do Brasil, de 7 de setembro de 1961 a 2 de abril de 1964, quando foi deposto por um golpe militar. Anteriormente, foi o 14.º vice-presidente do Brasil, de 31 de janeiro de 1956 a 25 de agosto de 1961, sob os presidentes Juscelino Kubitschek e Jânio Quadros. Notavelmente, nas eleições de 1955, Jango obteve mais votos para vice-presidente do que o próprio JK para presidente,[5] e foi o primeiro político brasileiro a ser reeleito para um segundo mandato consecutivo no mesmo cargo executivo federal (vice-presidência).
Herdeiro político de Getúlio Vargas, Jango é considerado um dos principais expoentes do trabalhismo no Brasil. Sua presidência foi marcada por intensa polarização política e social, com propostas de reformas de base que visavam profundas transformações estruturais no país. Sua deposição instaurou uma ditadura militar que durou 21 anos. Jango faleceu no exílio na Argentina.
Início de vida, família e educação
[editar | editar código]João Goulart nasceu na Estância de Iguariaçá, no então distrito de Itacurubi (hoje município emancipado), em São Borja, Rio Grande do Sul, em 1º de março de 1919.[6] Era filho de Vicente Rodrigues Goulart, um abastado estancieiro e coronel da Guarda Nacional que havia combatido ao lado de Borges de Medeiros na Revolução de 1923, e de Vicentina Marques Goulart, conhecida como "Dona Vicentina", uma dona de casa.[a] Jango foi o primogênito de oito filhos do casal: teve seis irmãs – Eufrides, Maria, Nair, Yolanda,[8] Cila e Neusa – e um irmão, Ivan,[9] profundamente ligado a Jango, que faleceu de leucemia aos 33 anos.[10] Um outro irmão, Rivadávia, morreu de meningite na infância.[8] Seguindo uma tradição local, sua mãe o vestiu com roupas femininas durante seu primeiro ano de vida.[8]
A família Goulart possuía raízes açorianas; seu avô paterno, Alfeu Rodrigues Goulart, era filho de imigrantes açorianos.[11] O sobrenome "Goulart" tem origem flamenga, possivelmente derivado de "Govaert" ou "Van Govaert", e foi introduzido nos Açores por colonos flamengos, chegando ao Brasil com a imigração açoriana no século XVIII.[11][b]
Durante a infância, recebeu os apelidos de "Jango" e "Janguinho".[8] Passou os primeiros anos na estância e, posteriormente, mudou-se com a família para Itaqui, onde seu pai estabeleceu uma parceria com Protásio Vargas, irmão de Getúlio, em um frigorífico.[12] Ali, Jango e seus irmãos estudaram no Colégio das Irmãs Teresianas.[12] Foi em Itaqui que desenvolveu o gosto pelo futebol e pela natação.[2]
De volta a São Borja, foi matriculado no Ginásio Santana, dos Irmãos Maristas, em Uruguaiana, onde cursou o primário, sendo reprovado em 1931.[2] Em seguida, seu pai o enviou para o Colégio Anchieta, em Porto Alegre.[13] Na capital gaúcha, destacou-se no futebol, jogando como lateral-direito no time infanto-juvenil do Sport Club Internacional, sagrando-se campeão estadual em 1932.[14]
Após concluir o ensino médio no Ginásio Santana em Uruguaiana,[14] ingressou na Faculdade de Direito da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) em Porto Alegre, para satisfazer o desejo de seu pai. Na faculdade, manteve uma vida social ativa, mas durante esse período contraiu uma infecção sexualmente transmissível (possivelmente sífilis ou gonorreia com complicações artríticas), que resultou em uma paralisia parcial e permanente de seu joelho esquerdo, apesar de tratamentos e cirurgia.[15] Essa condição o levou a se formar em Direito em 1939, separadamente de sua turma, e o impediu de seguir carreira militar, como cogitara. Jango nunca exerceu a advocacia, dedicando-se à administração das propriedades rurais da família.[16]
Entre 1941 e 1945, consolidou sua posição como um próspero agropecuarista, utilizando empréstimos bancários para expandir seus negócios com gado, acumulando um patrimônio considerável.[17] Apesar de sua riqueza, era conhecido pelo tratamento afável com seus empregados[17] e pela humildade com os mais necessitados,[15] além de rechaçar qualquer forma de discriminação.[18]
Carreira política
[editar | editar código]Após a morte de seu pai em 1943, Jango assumiu integralmente a gestão das estâncias da família.[9] Com a queda de Getúlio Vargas em 1945, amigo próximo de seu pai, Goulart decidiu ingressar na vida política.[19]