Guardar
Guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la. Em cofre não se guarda coisa alguma. Em cofre perde-se a coisa à vista. Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la por admirá-la, isto é, iluminá-la ou ser por ela iluminado. Guardar uma coisa é vigiá-la, isto é, fazer vigÃlia por ela, isto é, velar por ela, isto é, estar acordado por ela, isto é, estar por ela ou ser por ela. Por isso melhor se guarda o vôo de um pássaro Do que pássaros sem vôos. Por isso se escreve, por isso se diz, por isso se publica, por isso se declara e declama um poema: Para guardá-lo: Para que ele, por sua vez, guarde o que guarda: Guarde o que quer que guarda um poema: Por isso o lance do poema: Por guardar-se o que se quer guardar. Antonio Cicero Do livro: "Esses Poetas", Aeroplano, 1998, RJ", 1998
Samadhi
Na mente quieta do monge em meditação acendem-se luzes. Ricardo Mainieri
Happy hour
Ancorado no bar navego entre copos de chopp doses de jazz. Copacabana espera além da porta. Ricardo Mainieri Este poema foi escrito em homenagem ao Bar Allegro Bistrô,após um sessão de jazz com o trio de Mauro Senise.
Selvacidade
Alta fero- cidade efervescência da ânsia fragrância do medo que alimenta nossa saga nesta selvacidade minha necessidade de percorrer suas ruas sujas, tensas; sensuais contornos do teu horizonte Rubens Rocha
Signos outonais
A primeira árvore despe-se despede-se o verão... Ricardo Mainieri
(Im)previdência
aposentado após sentado no banco da praça após desdentado & doente. Ricardo Mainieri
Poemerótico
linhareta que bran do em quinas. Ângulos d o amor: o sabre em riste e a f e n d a. Defenda-se! Ricardo Mainieri
Indústria Cultural
´ O mass-media intermedia a mediocridade. Dejetos culturais em embalagens geniais. À parte disso somos quase avis rara espécies em extinção amantes de filmes cult bebop do velho Tom. Navegantes na vertigem - alienação - sem tortura ditadura. Felizes por procuração. Os tempos serão outros? Seria somente ilusão? Ricardo Mainieri
Otro Once de Septiembre
+Allende +Victor Jara +Violeta Parra +Pablo Neruda donde están ustedes? Presencia en alma nel Estádio Nacional. Ricardo Mainieri
Meus (des)encontros com George Benson
George Benson estará hoje em Porto Alegre. No Teatro do Sesi, quase no limite geográfico da cidade. Assim, me instrui a manchete do Segundo Caderno. Alguns (muitos) mÃseros reais me separam do Ãdolo. Como me apartaram naquela distante noite do ano de 1985, no Rio de Janeiro. No mega-evento Rock in Rio, Benson compareceu e eu não. Ilhado na Zona Norte, não tive conhecimento, nem cruzados para ir até à Cidade do Rock, lá nos confins da Barra da Tijuca. Porém, hoje ele está em minha cidade. Possivelmente, dando entrevistas em rádio e tevê, enquanto teclo estas linhas. Depois, talvez saÃa de helicóptero para sobrevoar Porto Alegre cheia de morros verde-oliva e com um rio à Oeste. Ou ficará guardando energias para o show, após degustar um lauto churrasco. Enquanto encerro meu expediente e saio do escritório, Benson estará num veÃculo aconchegante que o levará até o local do show. Testará sua guitarra Ibanez e aquecerá a voz em vocalises rápidos. Num português risÃvel, tentará aprender a dizer muito obrigado, vocês são demais, boa noite Porto Alegre e outras saudações de praxe. Quando as luzes forem ligadas e ele simpático entrar no palco, estarei Off Broadway colocando This Masquarede no velho cd player... Ricardo Mainieri
Dia das Mães
Quase dois anos se passaram da tua partida. Era maio. Mitigando dores o bálsamo da morfina agia sempre e sempre. É a casa carece tua presença a mente não mente a ausência. Quase dois anos em outros planos quanto isto significa? Maio está aà de novo estou mais velho por dentro... Ricardo Mainieri
Closet
Tenho sede de teu corpo e bebo-te a vida mente teu perfume Ricardo Mainieri
Angústia da influência
Escrevi a quadra inteira Com a estrela de Bandeira. Tentei então mudar de tom, Dei com a pedra de Drummond. Calculei e me dei mal No mesmo salto que Cabral. Desisti, fiquei à toa Lamentando-me em Pessoa. Dei-me então porre de uÃsque E sonhei ser como Leminski. Ressaquei, fui me exilar No verso sujo de Gullar. Furtei fruto e chupei cana Até na quinta de Quintana, Tentando ser como os grandes Que se dizem pós-Noigandres. Deixo agora a folha quieta Pois deixei de ser poeta. Marcelo Alvarez Poeta paulistano autor do Livro "Rimas da Salamandra" confira seu blog :blog do Marcelo Alvarez clique aqui
Uma outra Paulicéia desvairada
Corpo & alma em ociosidade, transitando vou pela tarde-noite da cidade. Quatrocentona e amada Sampa. Fluxo & refluxo da humanidade no Viaduto do Chá. E ao fundo, o Teatro Municipal. O prédio repousa imponente no Centro Velho. Mármores importados adornam suas escadarias e os relevos & afrescos nos convidam a apreciar o alto. Cerimonioso, adentro o prédio que surgiu financiado pelos barões do café. Sacas e sacas do ouro negro vegetal em troca de tintas, mármores, artistas e artesões do Velho Mundo. Palco de concertos e da Semana que desconcertou o Brasil. Percorro o soberbo conjunto e pareço ver, ainda, Mário de Andrade e os poetas sentados na escadaria.O piano de Guiomar Novaes soando em pianÃssimo a mesclar erudição & brasilidade. E tantas obras, tantos frisos & afrescos.Uma porção de Florença, outra de Paris, por entre salões e o palco...Onde dançam prima-donas, tenores desafiam cristais, e a orquestra revive Mozart. Saio esmagado, minúsculo, diante de tanta imponência. Pego a Barão de Itapetininga e me misturo aos homens-sanduÃches e seus cartazes de emprego. Estaciono no Rei do Mate e peço um. A rua, agora, desfila deselegância. Porém, por Ãnfimos instantes, guardo este pedaço maravilhoso de Sampa no peito. Logo, vão surgir os michês e seus clientes e tantos outros habitantes noturnos das ruas. Pego o embrulho de minha saudade. Lentamente, me dirijo ao Hotel... Ricardo Mainieri