E daí você se vê dentro de um carro zero, daqueles grandes e
bonitos, sabe? Cum ar condicionado geladíssimo, as janelas fechadas, no banco
de carona. Uma ficha meio que cai e você não lembra como foi parar ali. Você olha
pro lado e uma bela mulher, clara, de cabelos lisos e morenos, um belo par de
brincos, um vestido leve de cor verde, as pernas depiladas e lisas e um belo
perfume. Em outras circunstâncias lhe chamaria atenção, mas a situação não lhe
é favorável. Atrás, no banco, uma senhora e um moleque conversam entre si sobre
escolas, desenhos e filmes. A mulher ao volante, a seu lado, acena coa cabeça
concordando com eles e você cada vez menos entendendo como foi parar naquela armadilha.
A cara da morte te paquerando. Você percebe seu reflexo no vidro dianteiro e
não encontra lá muita coisa de errado. Dá uma olhada lá fora e se depara com
outros carros também fechados, com homens sozinhos mudando a estação do rádio, em
outros, mulheres acompanhadas de amigas, tagalerando, parecendo todas se
divertirem ou a caminho de algum entretenimento. O carro para num posto e a
moça bela a seu lado ordena: “completa, por favor “. No automático você abre a
porta e se encaminha à loja de conveniência. Pede um maço de cigarro e uma
cerveja. Mete a mão no bolso e paga cuma nota de 20. Pega o troco e sai da loja
pra fumar. Olha em volta e continua confuso. “ Ah, resolveu beber, é, amor? “,
dispara a moça clara, de cabelos longos morenos, perfumada e agora cum sorriso
de belos dentes brancos. Você percebe agora, com ela de pé, que ela é muito mais
bonita do que sentada. Um corpo esguio, uma cintura mediana e um andar
charmoso. A palavra “ amor “ lhe deixa ainda mais confuso. “O que você é dela??”,
pensa consigo. “ Vou ao toalete”, ela diz. Você pensa em fugir. Em correr pro
outro lado da pista e entrar no primeiro veículo que passar. Você não sabe como
foi parar ali. Você só lembra de cavalos e de uma música do bruce springsteen
que fala em amores perdidos e em novas oportunidades. Talvez você tenha mudado
e não seja mais àquele cara que achava que era. Talvez a vida tivesse lhe dado
uma oportunidade. Mais uma oportunidade. Você jogou todas as outras fora.
Chutou-as pra longe enquanto bradava justiça e igualdade para cum todos ou algo
assim. Uma espécie de justiceiro social ou seja lá o que isso queira dizer.
Você sente algo vibrar em seu bolso. Um celular. Ele toca. No visor a palavra “
amor “. Você fica olhando inerte por um tempo tentando de vez entender o que
está acontecendo. A chamada cai. Você fica olhando pro celular. Você não lembra
de ter tido um celular, ainda mais um daqueles tão modernos e bonitos. Uma cartinha
aparece, indicando um sms. De: “Amor “. Você abre: “ Amor, cadê você? Já
paguei, vamos embora. A viagem é longa e quero chegar antes de anoitecer pra
dar um mergulho. “ Você sente-se desnorteado. Uma viagem, um carro bonito, uma
mulher bonita, uma senhora atrás, um moleque, uma vida toda nova e um passado
que não lhe vêm à mente por nada. “ Não perca esta nova oportunidade.
Corretores no local. Venha já. “, diz um outdoor imenso logo à frente do posto.
“ Oportunidades ”, você pensa. “Não
perca.” É a vida lhe dando uma nova oportunidade. Onde eu joguei minhas demais
vidas? Onde estou e quem são essas pessoas? Você não se lembra de nada do dia
anterior. De nada até mesmo do mesmo dia. Não lembra onde acordou e se acordou
com a motorista de vestido verde. Nada vem à cabeça. Não existe ressaca, dor,
lembrança, sensação de fardo, de peso, nada. Apenas uma leveza imensa, uma paz
de espírito, um tipo de calma que você nunca sentiu ou não lembra ter sentido
alguma vez. Você agora lembra de cavalos
marinhos, garrafas vazias, um pavio aceso, fumaças e um disco do Eric Clapton,
mas não consegue ligar nenhuma imagem. O
celular toca mais uma vez e, de novo, a palavra “ Amor “. Você ignora
novamente. A insegurança dos fatos e a imprecisão com que tudo se deu começa a
lhe deixar irritado. A confusão de tudo isso lhe deixa tenso e angustiado. Os
músculos endurecem e você morde a boca. Olha de volta ao posto e identifica o
carro em que você estava. Lá dentro o moleque e a senhora lhe esperam. Do lado
de fora, a jovem moça clara, de cabelos grandes e lisos e morenos lhe acena cum
olhar preocupante. Você caminha até eles com passos lentos. E você lembra daquela música do tom waits que
diz que se você ficar longe o suficiente, você estará em seu caminho para casa,
e que você já está na estação, mas não consegue entrar no trem. Você se aproxima do carro e percebe que o
posto agora está vazio. O carro se encontra ao lado de uma bomba de gasolina vazia
e que os únicos dois funcionários estão dentro da loja de conveniência fugindo
do insuportável calor que faz. “ Onde você estava, poxa? “, lhe indaga a jovem
moça de cabelos morenos, vestido verde, uma bela cintura, um perfume bom de se
sentir e seu português impecável. Você a ignora e passa por ela. Caminha até a
bomba. Ainda dá tempo de receber os olhares curiosos da senhora e do moleque
dentro do carro, onde também fogem do calor infernal. Você acende mais um
cigarro ignorando a moça dizendo: “ Amor, o que mais falta? Vamos? “, seguido
de um: “ Amor, o que você está fazendo? “ quando ela percebe você com a
mangueira da bomba esguichando gasolina em tudo. É muito amor de uma pessoa só, você pensa
irritado. E agora você lembra daquela velha música que diz que se você
encontrou seu tempo, então chegou a hora de você dar o seu melhor e essa é a
hora, este é o momento, e você fica constrangido por não lembrar o nome da
música, mas segue esguichando combustível por todo posto sob os olhares
desesperados do moleque, da velha senhora e da jovem moça de vestido verde e
cabelos morenos ensopados de gasolina. Você joga o celular no chão e ouve a explosão
antes de olhar novamente praquele outdoor que fala em “Novas oportunidades que
você não pode perder.”