quarta-feira, 3 de abril de 2013


“ Joguei ela no sofá e deitei por cima. Nem tirei a calça. Só abaixei no meio das pernas. Fui engolindo o pedaço de pizza enquanto metia. No mesmo ritmo, rápido, muito rápido, o mesmo ritmo.  It don´t matter to you. It don´t matter to me. Acabei. Peguei um pedaço de mussarela. Joguei o dinheiro no chão e fui pra cozinha. Peguei uma garrafa de vinho na geladeira e dei um gole. Longo. Quando voltei ela ainda tava lá, comendo um pedaço de mussarela. Nua no meio da sala, comendo um pedaço de pizza de mussarela. Podia até ser uma bela imagem, se eu estivesse lírico naquela noite e se ela fosse outra puta. Uma que não falasse tanto. Não costumo ser lírico e decididamente aquela não era a puta da minha vida.
“ Você ainda tá aí?”
“ Achei que você queria um pouco de companhia.”
“ É do que eu menos preciso. “
“ Você é bem esquisito. “
“ Você já falou. Come a pizza e cai fora. “
“ Dá um gole desse vinho.”
Peguei um pedaço de pizza. Dos grandes. Um de calabresa. Dobrei em dois e enfiei na boca dela. Ela não conseguia respirar com aquele pedação de pizza na boca. Enfiei a garrafa na boca dela e virei. Acho que ela tentava me xingar de alguma coisa. Que se foda. A felicidade é uma puta morta. Afastei o pensamento. Não era por aí. Só queria ficar sozinho. Ela sentou no sofá, extenuada. Tentava digerir o pedaço de pizza. Gotas de vinho banhavam os bicos dos seus seios. Quase bonita. Se não falasse tanto.
“ Seu filho da puta. Você quase me mata sufocada. “
“ Qualquer hora dessas você vai acabar sufocada com a própria língua. “
“ Eu já encontrei muito esquisitão por aí, mas você é o pior de todos. “
“ Então você deve ser novata no ramo. “
.....
.....
“ Você ainda tá aí? E pelada? Vou meter no seu rabo. “
“ O cacete que vai. Te denuncio por estupro. Se quiser comer meu cú, vai ter que pagar. “
“ Esquece. Coloca a roupa e cai fora. “
“ Eu to cansada. Não vou pegar mais ninguém essa noite. Vou ficar por aqui um pouco. “

Peguei as roupas dela que estavam espalhadas pelo chão.
“ Cê que sabe “, e joguei todas pela janela.

" Dj - Canções para tocar no inferno " - Mario Bortolotto.

terça-feira, 26 de março de 2013


Talvez eu precise mudar.

Talvez ela necessite de alterações.

Somos, antes de tudo, amigos. Mas eu vou tendo cada vez mais uma percepção de degradação na relação. Antes éramos apenas amigos e provamos que pode sim existir uma amizade entre homem e mulher. Quebramos vários tabus e papinhos bestas impueris de quem não tem noção absolutamente nenhuma do que é ter algum tipo de sentimento que não seja o de levantar o pau ou de aniquilar àquela carência e falta de algo entrando. Talvez eu esteja sendo hipócrita, mas isso não muda nada. Só que ela, a amizade, se transformou em algo mais gostoso e de muito mais dimensão e importância. E viramos um casal. Surpresos, alegres, tentando construir uma espécie de trincheira pro que achávamos que poderia vir. E nos fortalecemos.  E nos tornamos um casal quase normal que, como qualquer outro, tem suas brigas. O “quase” é uma eminente pretensão.

Só que notei que nossas brigas tem sido à base de estaca, de escudo, e, principalmente, de artilharia verbal. Pesada. Ponto 40 no cume da montanha e gatilho morro abaixo. E eu não gosto nada disso. E sei que ela também não. E eu vejo que tudo construído até aqui vem desmoronando aos poucos. E não pelo poder do fogo inimigo, mas basicamente por destroços e balas perdidas vindo do mesmo lado.,

E eu acho isso a pior das derrotas: a pessoal.

E fico pensando no que sinto. E que talvez seja a hora dela ter as alegrias dela. Seja saindo coas amigas, seja dançando, se divertindo, conhecendo gente nova, essas coisas. E não passar o dia na cama ou indo ao mesmo bar de sempre. Talvez seja a minha hora de seguir essa filosofia barata e encharcar a porra toda sozinho, chegar em casa, sabe-se como,  e agradecer a esses poucos anjo que acompanham os bêbados, sem querer que compartilhem da minha idéia suicida sem parâmetro algum e com uma ideologia do valor de um cd de axé arranhado.

Talvez tantos talvez(es) seja um jeito de manter os últimos pingos de amizade. Uma espécie de dignidade que ninguém consegue ter quando sentimentos estão envolvidos e são arrebentados e arremessados por cima de algum muro bem alto para, em seguida, numa espécie de ordem, bradar a quem se sentiu prejudicado: vai lá pegar se quiser!!!
Uma cartilha de ressarcimentos sem valor algum a quem por acaso sentiu-se lesado e acabou se vendo dentro de uma dessas crateras enormes e desertas armadas estrategicamente por essa parada que denominam amor.

Talvez essa seja apenas uma das visões da história, mas imparcialidade é algo pra quem possui dom e talento.

quarta-feira, 20 de março de 2013

todas as tentativas fajutas de suicídio que você desejou diante do espelho.


Um dia inteiro sozinho e sem respostas. Sem perspectivas. O sol tá na tua cuca, o sol brilha lá fora numas de te aquecer, mas você nem gosta tanto assim de sol, conclui sozinho denotando toda confusão interior. É dia lá fora, as pessoas tentam se divertir enquanto você se sente sozinho e no escuro. E você não sabe mais calcular sentimentos e filtrar o que deve ou não ser pensado. Você tem o dia inteiro pra não pensar em nada e pensar em tudo.  Daí você chora por saudade e sorri por desespero. Você sente vontade de ligar pralguém e pedir que lhe entendam. Você tá quase pedindo um voto de confiança pro primeiro desconhecido que te cruzar. Mas você tá sozinho nessa e nenhum sujeito quer dar bola pralguém que anda por aí com problemas. Você quer apenas mostrar que não é esse quadro todo que te pintaram, uma mistura de surrealismo com o que há de mais pavoroso da condição humana no programa de fofoca da tevê. Você precisa mesmo é de um abraço. Você é uma criança perdida precisando, não de um colo, mas de alguém que alcance o interruptor e acenda a luz que é pra você pelo menos enxergar onde fica a saída disso tudo. Você tá pequeno, miúdo e se assusta com o sorriso tímido que vê no espelho apesar de saber o tamanho do grito que tem dentro de você.  Daí você pensa em suicídio e nas melodias tristes daquele cantor do texas ou do mississipi. Você tenta apalpar possibilidades, mas todas elas lhe dão um aceno de longe enquanto te assistem comendo pipoca coa boca aberta. Você pensa naquela arma dentro da gaveta e nas munições que estão ao lado do abajur em cima da mesinha ao lado do porta retrato cuma foto de um domingo alegre de quatro anos atrás. São seis balas e você tem todo o tempo do mundo pra acabar com tudo isso de uma vez. Mas você sabe que sua covardia é maior que tudo que tem dentro de si. Você esfrega os olhos na tentativa de mirar um feixe de luz e se depara coaquilo que chamam de amor. É você e ele, mais ninguém. Você finge segurança e olha fundo nos olhos dele. Ele, o contrário, está confiante, seguro e à vontade. Vocês negociam durante boa parte da tarde e enquanto você pede um tempo pra analisar a proposta e as condições em letras miúdas do novo contrato, ele bate a porta e vai embora te deixando coa louça toda pra lavar.

sexta-feira, 8 de março de 2013

quando a tristeza volta das compras e lhe tráz lembranças.


E u tava numa fila pra ouvir um rock. E eu odeio filas. Aliás, eu não gosto da maioria das coisas e tento fugir delas. Só que existem situações onde você não tem muito que fazer a não ser enfrentar filas.  A vida te testa o tempo todo e na maioria das vezes não te resta muita coisa a não ser combatê-la na marra. Em alguns testes a sensação é a de que ela te coloca numa prancha de navio em pleno alto mar cuma espada pontiaguda espetando teu rabo. E ela diz: “Vai, bora, anda.” E você não tem muita opção e acaba se jogando na água com tanta mágoa e sangue nos olhos, com tanto ímpeto e rancor, que os tubarões famintos que aguardavam o banquete percebem que não vai dar pra eles e batem em retirada.  E você fica boiando sozinho enquanto o sol frita tua cuca e te faz ter miragens e o ser humano mais próximo se encontra há pelo menos centenas de quilômetros dali. E isso te faz se sentir em paz. Você até arriscaria um papo com os tubarões caso não tivessem fugido. E é essa a impressão que fica, uma espécie de leque de testes lhe dando bom dia quando você ainda tá bocejando.
Mas eu tava numa fila e a cabeça distante. E eu comecei a cogitar a opção de voltar pra casa. E o fato de odiar filas fez com que essa opção começasse a ganhar cada vez mais votos de meus demônios internos. Eles sacaram que se eu entrasse naquele inferno seriam chutados e pisoteados como baratas saindo do bueiro e foram humildes em sacar que não era uma boa ideia, não pelo menos naquela noite, o combate direto franco. Talvez já tivessem sido tubarões um dia. E então eles se uniram e começaram a votar a favor da opção de voltar pra casa. Eles também devem odiar filas. Ninguém gosta. E era uma troca justa sair de uma fila e cair na cama.
Mas a noite não tinha acabado e a votação começava a ficar equilibrada, enquanto, à minha frente, talvez com a intenção de apimentar qualquer coisa que fosse, duas garotas se beijavam alucinadamente. E os carinhas que estavam ficando com elas se olhavam empolgados. Talvez eles tivessem chances de protagonizar cenas dignas de filmes pornôs, destas que habitam a mente da maioria dos homens. Mas era nítido que eles não passavam de dois bundões compondo cena. E as minas tavam mais se beijando numas de querer chocar. Elas não tinham desejo no beijo, não estavam alimentadas cuma espécie de fúria, de vontade uma na outra. E eu senti pena das duas. Dos quatro. E comecei a olhar em volta e me deparar com uma espécie de jardim de almas que vagavam. E me perguntei o que fazia ali. A mente fervilhando, sem aquela garota, me juntando a uma dezena de imbecis que não conseguem se olhar no espelho sem se sentirem fracassados e buscando uma espécie de vitória nos outros.
Muita pena. Senti isso mesmo, muita pena. Me vi sem razão e tentei procurar alguma em cada passo que davam. Olhei em volta e me limitei a assistir o desempenho pífio das minas que continuavam se beijando e tive a mesma empolgação de quem passa a madrugada toda assistindo a uma partida do campeonato ucraniano de peteca.

terça-feira, 5 de março de 2013



Como no dia que eu conheci àquele menino de rua. Ficamos conversando um tempinho. Ele me disse que tinha 21 anos e que saíra de casa aos 12. Porque, perguntei. Ele disse que o pai abusava dele todo dia. Que triste, pensei. Perguntei como foi e ele ficou me olhando desconfiado, talvez com vergonha. Falei pra ele que não precisava falar caso não quisesse. Que naquela noite seríamos amigos e que não faríamos nada que não quiséssemos fazer. Ele sorriu. Timidamente, mas sorriu. Acho que foi sentindo confiança em mim. Puxei um cigarro do bolso e acendi. Você fuma, perguntei. Fique à vontade. Ele apenas fez que não coa cabeça. Ficamos alguns minutos em silêncio e ele me ofereceu um pano que ele se cobria. Não estou com frio, respondi agradecendo. Conversamos algumas coisas bobas como times de futebol, garotas e covardia. Contei histórias pra ele e rimos bastante. Ofereci um fone e ficamos ouvindo Muddy Waters. Gostei da voz dele, o garoto me disse. É triste. Você conhece ele, me perguntou com ar de excitação. Não, respondi. Ele morreu há muito tempo, quando éramos pequeno. Você sabia que ele tocava em esquinas em troca de algumas moedas e comida, perguntei. Era óbvio que ele não sabia, mas queria que ele soubesse que mesmo as pessoas que não possuem muita perspectiva como ele poderiam dar uma girada na vida. Ele ficou calado e olhando pro nada. Mas eu não sei cantar, me respondeu desolado. Eu não soube o que responder. Nunca fui muito bom incentivador. Foi dos 8 aos 12, me disse cum olhar pro chão. Não tinha entendido muito bem. No início eu deixava porque amava meu pai. Eu não sabia o que era aquilo, mas eu gostava dele e deixava, emendou. Concluí que falava dos abusos do pai. Não falei nada, apenas fiquei observando-o. Aos 12 saquei que ele não me amava. Foi daí que saí de casa, ele sentenciou. Puxa vida, disse baixinho como que concordando com a dor dele. Você é a primeira pessoa que falo disso, me disse ele. Obrigado, não se preocupe, pode confiar em mim, respondi apertando a mão dele querendo realmente passar alguma confiança. Eu também não sou muito de me abrir coas pessoas, disse a ele. Daí saí e nunca mais voltei pra casa, ele concluiu. E sua mãe, perguntei. Nunca conheci minha mãe. Acho que ela morreu ou foi embora, não sei, pouco me importa. E você morava apenas com seu pai? Com meu pai e minha irmã, mas ela foi embora antes de mim. Deve ter sido pela mesma coisa que meu pai fazia comigo. É, acenei coa cabeça. Fiquei triste pelo menino. Ele me parecia gente boa. Meti a mão no casaco e puxei uma garrafinha de conhaque. Quer um pouco, perguntei? Não, ele me disse. Ajuda a esquecer o frio, tentei convencê-lo. Não, não bebo, me respondeu. Nunca, perguntei. Só uma vez, me disse. Tudo bem, disse eu tomando um trago da bebida e sentindo descer queimando pela garganta. Fiz uma cara feia e ele me olhou. E a única vez que bebi tive vontade de voltar em casa e matar meu pai, me disse ele, desta vez com os olhos grandes e brilhantes. Fiquei calado. Foi quando uns amigos juntaram algumas garrafas de cachaça que encontraram pelas ruas e bebemos todos. Eles riam bastante naquele dia. Comemoravam alguma coisa que eu não dei muita bola. Eles não sabiam de nada da minha vida. Ficaram todos muito bêbados e só não caíram no chão porque já estavam nele. E você, conseguiu ficar bêbado, perguntei rindo descontraído. Ele continuou compenetrado e sério. Nada, ele me disse. Nem um tiquinho. Tudo o que senti foi raiva. Raiva e ódio, me disse. Me despedi deles e saí andando. Eu guardava algumas ripas de madeiras que pegava nas feiras atrás de um trailer abandonado que serviam preu fazer uma fogueira quando fazia frio. Fui lá e peguei duas delas. Uma cheia de farpas e outra com alguns pregos na ponta. Eu não sentia nada. Nem frio, nem calor, nem meu corpo, nada, nada. Apenas ódio e raiva. Então eu tinha que matar meu pai pra que tudo aquilo que eu estava sentindo passasse. O que ele fez comigo eu não achei certo. Eu o amava, caramba. Dos 8 aos 12 a gente ainda é muito criança e não entende muita coisa e eu deixava acontecer porque achava normal. Achava um gesto de carinho que todo pai fazia com o filho. Mas aos 12 entendi que aquilo não era amor. Aquilo não era nenhum tipo de sentimento. E aquilo acabou comigo. Ele abusava de mim. Chegava bêbado em casa e me obrigava a segurar no pinto dele. Depois ele me virava de bruços e enfiava tudo com força e coa uma das mãos fedendo na minha boca. Doía sempre, mas eu era criança e achava que era normal tudo aquilo. Que era alguma coisa que toda criança tinha que passar. Depois ele caía com o corpo em cima de mim arfando e me falava, vai brincar, garoto. Aos 12 percebi o que era aquilo de verdade. E chorei muito. Chorei magoado com meu pai, achando que ele fazia tudo aquilo por me amar. Mas não. Depois que entendi, não conseguia mais encará-lo e resolvi fugir de casa por vergonha e decepção. Nunca mais o vi. Mas nesse dia que bebi eu quis vê-lo. Nesse dia eu iria matá-lo. Eu nunca tinha sentido nada tão grande quanto naquele dia. Uma força descomunal e um ódio que me cegava. Eu não estava me sentindo bem por estar sentindo aquilo tudo, mas nada me seguraria e iria fazer. Estava fora de controle. Por isso em toda minha vida só bebi esse dia. Beber me deixa com ódio de tudo que houve e o dia que eu beber novamente eu acabo com a vida de meu pai. Não vale a pena, garoto, falei a ele tentando acalmá-lo e entender de fato tudo aquilo que acabara de ouvir. Desculpe, ele me pediu. Eu quase nunca penso nisso e nessa época da minha vida quando garoto, mas acabei me deixando levar. Tudo bem, eu disse. Mas você realmente não fez nada ou fez, perguntei. Quase, ele me disse. Cheguei perto de onde morávamos e vi a luz do barraco aceso. Ele provavelmente estaria bebendo. Eu empurraria a porta com força e diria: Olá, papai. Olha quem veio pro jantar. Depois eu não sei como aconteceria, mas eu iria arrancar a cabeça dele à paulada. E depois o pinto. Eu descontaria todo o ódio que vivia dentro de mim nele. Eu não sei se iria parar uma hora ou só quando não tivesse mais forças. E depois não sei. Talvez depois eu cairia e choraria toda mágoa de um garoto de 8 anos. Ou talvez me sentiria vingado, calmo e leve e voltaria pra rua. Eu não sei de verdade. Mas eu só lembro que naquele dia eu avistei a luz do barraco e estava convicto do que iria fazer. Mas eu não consegui. Eu travei. Meu pensamento caminhava cada vez mais praquilo que um dia chamei de casa, mas minhas pernas não respondiam. Eu estava com uma ripa em cada mão e, uma a uma, caíram. Primeiro a da mão esquerda, a que tinha farpas. Depois caiu a dos pregos, da direita. E de repente comecei a chorar sem motivos. Eu chorei de amor. Eu chorava de ódio. Eu chorei por tudo que guardei até aquele dia...."


Continua...

segunda-feira, 4 de março de 2013


Ela é do tipo durona
e por mais que eu goste das mais frágeis,
das meigas,
destas que assumem e pedem carinho,
 e  pedem socorro com o olhar
eu admiro também isso nela
esse jeito durona e disposta a provar que está certa
mesmo nas horas erradas.


É que ela é capaz de chorar num desses anúncios de TV
ou de chutar a bunda de um bêbado mala
de se derreter com uma cena de filme
ou de caminhar sozinha de madrugada procurando a saidera
mas, como muitos, possui um talento incrível pra se deixar levar por gasparzinhos do passado
enquanto dialoga com o silêncio esperando algum conselho


Mas não a culpo por isso.
apesar de tudo é uma boa garota.


Me aquece em dias de frio
e me põe pra dormir até quando faço pirraça
e sabe que gosto de gema mole no café da manhã
e me manda mensagem às 4 da madruga assumindo que tá com saudades


E é daquelas que às vezes não sabe como agir
e veste uma pose de desespero vitorioso
assassinando as unhas e o esmalte dos dentes
enquanto transfere toda a carga de ansiedade prum hambúrguer de picanha


E aí cala os ouvidos pros conselhos pedidos
e fica sem dormir olhando pro teto
pensando e penando
em como dar a volta por cima


É do tipo que só perde prela mesma
e não deixa ninguém mexer no esquema de jogo
pois ela acha que quando a equipe encaixar
e a torcida pegar confiança
os resultados voltarão


eu nem sei mais de nada
mas sei que vou sentir falta dessa garota

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013


Vem logo, cara. Cê marcou comigo e nada ainda. Já tem quase uma hora que eu tô aqui sozinho te esperando. Eu não tô precisando de ajuda e nem me meti em encrenca não. Cê me conhece, sabe que se for preciso, as garrafas e as cadeiras voam e eu incendio tudo em volta, mas não sou disso, pelo menos não ando mais assim.
Eu ando precisando mesmo é de conselhos e orientações. Destes que no fundo eu nem seguirei, mas que preciso mesmo só pra ter a certeza de que alguém anda se preocupando comigo.  Vem logo, cara.

Wrecking ball


E daí você se vê dentro de um carro zero, daqueles grandes e bonitos, sabe? Cum ar condicionado geladíssimo, as janelas fechadas, no banco de carona. Uma ficha meio que cai e você não lembra como foi parar ali. Você olha pro lado e uma bela mulher, clara, de cabelos lisos e morenos, um belo par de brincos, um vestido leve de cor verde, as pernas depiladas e lisas e um belo perfume. Em outras circunstâncias lhe chamaria atenção, mas a situação não lhe é favorável. Atrás, no banco, uma senhora e um moleque conversam entre si sobre escolas, desenhos e filmes. A mulher ao volante, a seu lado, acena coa cabeça concordando com eles e você cada vez menos entendendo como foi parar naquela armadilha. A cara da morte te paquerando. Você percebe seu reflexo no vidro dianteiro e não encontra lá muita coisa de errado. Dá uma olhada lá fora e se depara com outros carros também fechados, com homens sozinhos mudando a estação do rádio, em outros, mulheres acompanhadas de amigas, tagalerando, parecendo todas se divertirem ou a caminho de algum entretenimento. O carro para num posto e a moça bela a seu lado ordena: “completa, por favor “. No automático você abre a porta e se encaminha à loja de conveniência. Pede um maço de cigarro e uma cerveja. Mete a mão no bolso e paga cuma nota de 20. Pega o troco e sai da loja pra fumar. Olha em volta e continua confuso. “ Ah, resolveu beber, é, amor? “, dispara a moça clara, de cabelos longos morenos, perfumada e agora cum sorriso de belos dentes brancos. Você percebe agora, com ela de pé, que ela é muito mais bonita do que sentada. Um corpo esguio, uma cintura mediana e um andar charmoso. A palavra “ amor “ lhe deixa ainda mais confuso. “O que você é dela??”, pensa consigo. “ Vou ao toalete”, ela diz. Você pensa em fugir. Em correr pro outro lado da pista e entrar no primeiro veículo que passar. Você não sabe como foi parar ali. Você só lembra de cavalos e de uma música do bruce springsteen que fala em amores perdidos e em novas oportunidades. Talvez você tenha mudado e não seja mais àquele cara que achava que era. Talvez a vida tivesse lhe dado uma oportunidade. Mais uma oportunidade. Você jogou todas as outras fora. Chutou-as pra longe enquanto bradava justiça e igualdade para cum todos ou algo assim. Uma espécie de justiceiro social ou seja lá o que isso queira dizer. Você sente algo vibrar em seu bolso. Um celular. Ele toca. No visor a palavra “ amor “. Você fica olhando inerte por um tempo tentando de vez entender o que está acontecendo. A chamada cai. Você fica olhando pro celular. Você não lembra de ter tido um celular, ainda mais um daqueles tão modernos e bonitos. Uma cartinha aparece, indicando um sms. De: “Amor “. Você abre: “ Amor, cadê você? Já paguei, vamos embora. A viagem é longa e quero chegar antes de anoitecer pra dar um mergulho. “ Você sente-se desnorteado. Uma viagem, um carro bonito, uma mulher bonita, uma senhora atrás, um moleque, uma vida toda nova e um passado que não lhe vêm à mente por nada. “ Não perca esta nova oportunidade. Corretores no local. Venha já. “, diz um outdoor imenso logo à frente do posto. “ Oportunidades ”,  você pensa. “Não perca.” É a vida lhe dando uma nova oportunidade. Onde eu joguei minhas demais vidas? Onde estou e quem são essas pessoas? Você não se lembra de nada do dia anterior. De nada até mesmo do mesmo dia. Não lembra onde acordou e se acordou com a motorista de vestido verde. Nada vem à cabeça. Não existe ressaca, dor, lembrança, sensação de fardo, de peso, nada. Apenas uma leveza imensa, uma paz de espírito, um tipo de calma que você nunca sentiu ou não lembra ter sentido alguma vez.  Você agora lembra de cavalos marinhos, garrafas vazias, um pavio aceso, fumaças e um disco do Eric Clapton, mas não consegue ligar nenhuma imagem.  O celular toca mais uma vez e, de novo, a palavra “ Amor “. Você ignora novamente. A insegurança dos fatos e a imprecisão com que tudo se deu começa a lhe deixar irritado. A confusão de tudo isso lhe deixa tenso e angustiado. Os músculos endurecem e você morde a boca. Olha de volta ao posto e identifica o carro em que você estava. Lá dentro o moleque e a senhora lhe esperam. Do lado de fora, a jovem moça clara, de cabelos grandes e lisos e morenos lhe acena cum olhar preocupante. Você caminha até eles com passos lentos.  E você lembra daquela música do tom waits que diz que se você ficar longe o suficiente, você estará em seu caminho para casa, e que você já está na estação, mas não consegue entrar no trem.  Você se aproxima do carro e percebe que o posto agora está vazio. O carro se encontra ao lado de uma bomba de gasolina vazia e que os únicos dois funcionários estão dentro da loja de conveniência fugindo do insuportável calor que faz. “ Onde você estava, poxa? “, lhe indaga a jovem moça de cabelos morenos, vestido verde, uma bela cintura, um perfume bom de se sentir e seu português impecável. Você a ignora e passa por ela. Caminha até a bomba. Ainda dá tempo de receber os olhares curiosos da senhora e do moleque dentro do carro, onde também fogem do calor infernal. Você acende mais um cigarro ignorando a moça dizendo: “ Amor, o que mais falta? Vamos? “, seguido de um: “ Amor, o que você está fazendo? “ quando ela percebe você com a mangueira da bomba esguichando gasolina em tudo.  É muito amor de uma pessoa só, você pensa irritado. E agora você lembra daquela velha música que diz que se você encontrou seu tempo, então chegou a hora de você dar o seu melhor e essa é a hora, este é o momento, e você fica constrangido por não lembrar o nome da música, mas segue esguichando combustível por todo posto sob os olhares desesperados do moleque, da velha senhora e da jovem moça de vestido verde e cabelos morenos ensopados de gasolina. Você joga o celular no chão e ouve a explosão antes de olhar novamente praquele outdoor que fala em “Novas oportunidades que você não pode perder.”

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013


" Para ferir seu amante, a mulher não encontra arma melhor do que traí-lo com outro. O homem não precisa trair sua mulher para feri-la, basta-lhe ser homem, essa é sua agressão: ela o sente como uma força contrária, sente que ele a supera sem esforço. O mundo é masculino, e ela é uma intrusa, um traço a mais desse mundo.

Para ser desejada por um homem, basta-lhe ser a mulher que ele deseja. De nada lhe serve ir à Lua ou conquistar Roma se não tem o traseiro com que esse homem sonha. É inútil atravessar o oceano a nado se esse homem acha que seus peitos e sua bunda são um desastre.

As façanhas de um homem podem conquistar o amor de uma mulher, mesmo que ele seja um esfarrapado. Você também pode seduzi-la fazendo com que se sinta alguém. Ela precisa ser aceita, entrar no mundo e se, ainda por cima, você for capaz de prender-lhe o esqueleto andará atrás de você como um cãozinho de estimação. "

Efraim Medina Reyes


" Lembra quando eu trazia sorvete pra você? Eu sabia que você gostava. E eu gostava de te ver feliz. Por mais que soubesse que o sorvete e a lembrança eram apenas paliativos de redenção de alguém notívago e taciturno como eu onde, ao mesmo tempo e lá no fundo, pra mim, era uma espécie de esperança de que tudo resultasse em algum tipo de aceitação e diálogos de paz. Mas nada disso aconteceu. O sorvete foi esquecido dentro do freezer e fez companhia à alegria que há tempos congelara. A cerveja e a aceitação caíram no esquecimento e esquentaram. O que sobrou foi uma sala vazia, todo aquele vácuo de silêncio e desespero e uma tv ligada no mute. Sei lá, melhor assim. "