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sexta-feira, 3 de junho de 2016

O que tiver de ser


então que venha devagar. suavemente se esparrame, preencha os sentidos mas não os espaços, abrigue-se aqui. que permaneça, aninhe-se, faça morada, mimetize-se cada vez mais e mais e mais até se tornar imperceptível. que se faça entender tão claramente, tão completamente, tão naturalmente que, aí então e só então, me pertença sem ser meu.

(Celso Mendes)

quinta-feira, 26 de novembro de 2015

Madorra

deve ser mesmo assim este tempo de espera, esta madorra, este aguardo do início ou do fim. deve ser por isso esta pachorra que me assola, este naco de calma, este olhar a se perder sobre gerúndios perfilados, essas flores a pedir por vento.  e essa lua dormindo no lago, imóvel e serena, calada, deve ser mesmo assim. talvez seja apenas a estupefatez destes meus olhos desguarnecidos, talvez apenas minha fragilidade ante tanto mundo, tanto fundo, tanto tantos. o que me abriga se repete, o desafio é o novo. mas eu guardo alguns segredos só meus, os usarei quando bem aprouver. ainda tenho fome de tsunamis. mantenho a lembrança do mistério das entradas e o descaminho das saídas cá comigo. usarei quando bem me aprouver.

(Celso Mendes)

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Desexplicações, inutilidades e desconhecimentos

aqui, sem um porquê, eis-me, a catalogar inutilidades e a fazer apologia da utilidade do desconhecido, do não saber para procurar. espero destas palavras nada além de um alvoroçado desentendimento, um gotejar de sílabas perplexas ao perceber seu próprio significado num plano que se estende além da linha de uma razão que não pretendo. até gostaria que elas falassem do contemplar horizontes como o mar contempla o pássaro ou a montanha contempla a árvore. gostaria, mas não creio que consigam ser tão desimportantes assim. mesmo porque não quero do albatroz o voo; quero o olhar. o plácido, belo, amplo, mas limitado olhar (meus limites fazem parte da minha infinitude). também ando a dispensar ruídos que não sejam música. prefiro continuar abarrotado de silêncios cúmplices, ensimesmado com este vácuo de sentidos plenos a serem ativados, que me amortalham a mente das sobriedades de um superego capenga e me revestem de saborosos vazios. vácuo de sentidos plenos para a água e para o fogo. preciso, necessito exorcizar convicções. e que um dia me livre, vez por todas, de todas as certezas que já construí. minhas inconsistências, celebro a cada momento. alimento-me de minhas dúvidas. e minhas incertezas acato como as minhas verdades. assim sigo. capto sensações, guardo as que me aprazem, convivo com as demais, sobrevivo com o que a vida me oferece. e a vida nada mais me oferece do que vivê-la. este é o tempo. a morte é atemporal.

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Setembro (reedição)

Aqui, deste setembro que não tem me deixado tempo para escrever novos textos, busco, de um setembro antigo, algo que preencha este espaço que se quer de letras.

      Setembro prossegue-me vago. Por ser um cultuador de palavras simples e frases rasas, dessas que descansam em beira de riacho, não compreendo bem o porquê. Mas sinto. Enquanto lavo meus olhos na poeira, aguardo a chuva que leve as folhas secas de agosto. Aprendi que retas perfeitas não existem, mas não consigo evitar a curiosidade de saber onde estão os pontos à frente. Isso machuca, sei bem, como sei também ser impossível evitar a dor.
      Houve um inverno que me roubou o vermelho e com ele fugiu o arco-íris das tempestades de verão; perdi uma flor. Marcou. O pó foi a cor que passou a me pintar. Até as maritacas que me acordavam toda manhã andaram ausentes. Agora volta, mais uma vez, a promessa de primavera. Já nem sei mais se acredito em primavera. Talvez devesse.
      Mas um setembro já me deu o que mais amo e outros também me trouxeram presentes. Sempre esperarei algo de setembro. Quem sabe este me umedeça novamente. Mantenho a água na memória. Meus olhos cansados permanecem abertos, continuo amanhecendo e não perdi essa mania de sonhar. Acho que ainda acredito em primaveras.

(Celso Mendes)

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Círculos


Deitava o vento com a boca amordaçada. O seu silêncio era imposição dos girassóis que refletiam-lhe os braços, as mãos e seus dedos amarelecidos. Mascava o sol dia pós dia, desconfiado, e se sentia cada vez mais enraizado. Gostava do azul das manhãs e do laranja das auroras. O marinho da noite o embriagava. Mantinha, secretamente, olhos de nadar estrelas. A lua costumava tocar suavemente suas costas até que adormecesse. Após isso era a o medo da treva, era atrás dos astros, era depois dos sonhos. Se houvera luz, não se lembraria. Mas o tempo sempre lhe foi muito orbital. Não entendia por que as coisas tinham essa mania de orbitar. Retas, pois sim, retas eram apenas uma eterna ilusão de caminhos; nunca mais o levavam a um novo que já não conhecesse. E foi assim que, mais uma vez, o sol se desprendeu do seu bocejo, preguiçosamente. Ainda não era a hora da escuridão.

terça-feira, 8 de março de 2011

Minhas Mulheres

Acho que já estamos cheios de pintar mulheres de cor-de-rosa, de mães dedicadas, donas de casa sem opções, trabalhadoras aguerridas que tentam provar que são tão boas ou melhores que os homens. Isso todo mundo já sabe. Acho que precisamos mostrar apenas que mulher é essencial! Eu, pelo menos, não sou ninguém sem as mulheres na minha vida. Respiro mulheres vinte e quatro horas por dia; sou mesmo um privilegiado, tenho-as por todos os lados o tempo todo. Aprendi a ver o mundo diferente graças a elas.
A mulher que me gerou não existe há muito, desde minha meninice. A dor, que até hoje sinto, de sua falta, só foi amenizada graças ao grande presente que a vida me deu de poder conviver intensamente com mulheres como eu convivo hoje em dia. Casei duas vezes, mas na segunda investida com três mulheres de uma só vez, pois recebi como presente de casamento duas filhas já prontas. Aí fiz (ou ajudei a fazer...) um homem: o que mais amo na vida por ser metade de minha mulher. No trabalho sou cercado de mulheres por todos os lados e meus melhores amigos, desses calados, distantes, que leem versos de Horácio, mas secretamente influem... São mulheres!!! Tudo bem, não são tão caladas assim como o amigo procurado de Drummond, mas são minha essência, meu ar, minha água e meu pão, de onde recebo o carinho e colo sempre que preciso. Uso homens pra discutir futebol, falar besteiras e beber uma cervejinha e logo corro de volta para onde me sinto seguro, ou seja, com minhas mulheres, com quem também falo besteiras, bebo cervejinhas e até discuto futebol, mas entendem a vida de uma maneira muito mais completa do que os homens.
Às vezes penso que nossa espécie não deveria se chamar “homem”. Deveria se chamar “mulher”! Mulher macho e mulher fêmea, esta a mais importante na preservação da espécie, claro. Mas isso pouco importa, o que importa é que existam. E assim no compomos.
Pra não começar a falar bobagem, vou encerrar apenas agradecendo a todas as mulheres que cruzaram em minha vida e, sem exceção, deixaram sua marca, que guardo com carinho e orgulho, gravada em minhas entranhas. 

MINHA VIDA = MINHAS MULHERES

domingo, 6 de fevereiro de 2011

O vento, a pedra e o rio


           Agora sopro estava tão tênue que nem mais lhe corava a face. Rasante. Era areia e chão. Amainara a abrasão da ventania. Em vez de voo, passos lentos. Sentiu que o outono passara e o inverno era findo. Setembros continuariam derretidos, mas não mais queimavam em suas mãos. Era estranha a sensação da calmaria. Os cortes cicatrizando. Aquela fotografia insistia ficar, mas já pouco lhe dizia. Não provocava mais tanta ansiedade ou sede; não insistia calar respostas, pois não mais escutava perguntas. E as perguntas, quase esgotadas, acomodavam-se entre a língua e os dedos, em silêncio. E foi nesse contexto que as rugas finalmente conseguiram aparecer, calmas. O olhar inquieto de outrora tentava sorrir, na desejada serenidade. O caminho ainda era longo. Ele sabia dos novos invernos e do frio. E que o fogo é essencial. Sabia da solidão e já frequentara o vazio. Não se iludia. Seguia, apenas seguia.

CELSO MENDES

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Fluxo


        Tenho nas palavras meu escoadouro libertário de aprisionadas impressões. O que flui é o que me abasta, vazão de sentimentos. Desta enxurrada, o que me basta. Se realidades seguem oníricas e sonhos se desejam concretos, eu navego o limiar. E é ali que me resumo em abstrações manchadas de cores, de odores, de toques, dores inexatas, lembranças caladas, olhares disformes, sorrisos multiformes, páginas marcadas, presenças eternas, ausências enormes.
        Uso o idioma dos homens numa linguagem que conversa com o meu universo e que nem sempre sei decodificar. Escrevo sobre o pouco do compreendido e o muito do sentido. Da vida procuro a essência. Da efemeridade de sua poesia, fragmentos.
        Bebo do mesmo tempo que me consumirá. E amanhã sempre será apenas talvez. Mas aprendi a não acreditar em verdades absolutas, então posso estar enganado. Afinal, minhas palavras não pretendem ensinar, apenas se libertar. Há momentos onde o que preciso é desaprender para me reinventar...

CELSO MENDES

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Setembro

Setembro começa-me vago. Por ser um cultuador de palavras simples e frases de raso significado, não compreendo bem o porquê. Mas sinto. Enquanto lavo meus olhos na poeira, aguardo a chuva que leve as folhas secas de agosto. Aprendi que retas perfeitas não existem, mas não consigo evitar a curiosidade de saber onde estão os pontos à frente. Isso machuca, sei bem, como sei também ser impossível evitar a dor.

Este inverno me roubou o vermelho e com ele fugiu o arco-íris das tempestades de verão; perdi mais uma flor. O pó é a cor que tem me pintado. Até as maritacas que me acordavam toda manhã andam ausentes. Agora volta a promessa de primavera. Não sei se acredito mais em primavera. Talvez devesse...

Mas um setembro já me deu o que mais amo e outros também me trouxeram presentes. Sempre esperarei algo de setembro. Quem sabe este me umedeça novamente. Mantenho a água na memória. Meus olhos cansados permanecem abertos, continuo amanhecendo e não perdi essa mania de sonhar. Acho que ainda acredito em primaveras.

(Celso Mendes)

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Avoando inutilidades pseudo-factuais


Enquanto formigas labutam em linha reta, penso torto: zunem as asas da abelha ou seria o ar a festejar mais um voo? Não gosto de atritos, prefiro a sabedoria das curvas, que sempre me possibilitam ver as coisas por um ângulo diferente.

Entretanto existem algumas certezas quase retilíneas...

Toda luz que atravessa frestas rasga sombras. Nem toda luz que conheço é sol, mas toda vida sim (a que conheço). E nem todo o escuro conhece o sol. Essas pertinências por vezes me incomodam. Melhor mudar de rumo.

Um pardal pia e pisca suas penas rindo de mim. Ele pensa que eu não sei de nada. Mal sabe que aprendi que pedras se fingem de surdas e podem ser disfarces de estátuas ou deuses. Outros pardais pousam próximo e me olham com o mesmo desprezo. Talvez tenham razão. Só sei o que penso saber e minhas verdades não são mais verdadeiras do que as deles; muito menos minha sapiência. E só sei voar de mentirinha. Mas é tão gostoso...


(Celso Mendes)

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Pânico



Sempre o medo e a angústia, a falta de cor selando seu semblante desbotado de vida e a música do silêncio a pesar sobre seus ombros. O ritmo acelerado de um coração mecânico, autômato, que nem mais lhe pertence, bate forte e descontrolado como a querer saltar de seu corpo, o mesmo corpo que flutua, límbico, na eletricidade de sonhos psicossomáticos; os mesmos sonhos focados na direção imagética de seu olhar estático.

Percorrer caminhos arteriais só leva a retornos venosos, escuros, tortuosos e sem oxigênio. Alma sufocada, seus olhos, por alguns segundos, arriscam explorar um vazio cercado de coisas sem razão ou sentido. Plantas artificiais enfeitam o dia fabricado por encomenda enquanto cãezinhos latem até acabarem suas baterias.

Estabelece-se um contato com o centro do nada. Segue brincando com lágrimas presas, que brilham, mas distorcem sua visão, e tenta, assim, esquecer que o sangue inunda lentamente seu mediastino prestes a transbordar ansiedade ou implodir sua tristeza. Já tem consigo uma certeza: não há anatomia que resista a mais um dia tonificado de pânico. E a noite chega.

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Trajetórias

Eu ando meio cansado de ventos e tempestades, de angústias e de saudades, de frestas e dos abismos, de dores e de rancores, de chuvas, de vendavais. Eu ando meio alecrim.

Eu ando meio enjoado de sangue jorrado em vão, de feridas, de cicatrizes, de lânguidos corações, de mazelas e chorumelas, de cupidos, de serafins. É que eu ando meio alecrim.

Eu ando já saturado de tragédias e das novelas, de modelos, de passarelas, de choro, riso e consolo, de guerra, de crime e comédia, da fome e de quem consome. Pois ando é meio alecrim.

Eu ando leve, no vento, no intento do firmamento, na face que toco com a mão, no passo que não toca o chão, no espaço e no meu vazio, neste infinito e no azul, neste silêncio, em meu som, nesta magia, em meu tom. Em mim, apenas e enfim, o suave odor de alecrim.