Novo Palmares
O Novo Palmares foi um mocambo dos Palmares, documentado em março de 1645 durante uma expedição das forças do Brasil Holandês. O assentamento, também referido como Mocambo de Dambi e Palmares Grande, era associado à liderança de Dambi, identificado no original holandês do diário da expedição como o rei que governava seus habitantes.[1]
A expedição alcançou o assentamento em 21 de março de 1645 e encontrou cerca de 220 casas, uma igreja, quatro forjas e uma grande casa de conselho, além de fortificações compostas por paliçadas, fossos e estrepes.[2] O diário denomina o assentamento de “Palmares Grande”.[2]
Antecedentes
[editar | editar código]Em 1645, uma expedição holandesa partiu da região de Alagoa do Sul em direção aos Palmares. Embora comandada inicialmente pelo capitão Johan Blaer, a tropa passou ao comando do tenente Jürgens Reijmbach após Blaer adoecer durante a marcha.[3]
Em 18 de março, a expedição encontrou o chamado Velho Palmares, abandonado havia cerca de três anos. No dia seguinte, alcançou outro assentamento que havia sido parcialmente incendiado numa expedição anterior de holandeses e indígenas. Segundo o diário, seus habitantes haviam se deslocado sete ou oito milhas e construído um novo assentamento semelhante ao anterior.[2]
Durante a marcha de 20 de março, os soldados encontraram sucessivos pequenos mocambos que, segundo o documento, haviam sido construídos durante o deslocamento dos habitantes em direção ao novo Palmares.[2]
Expedição de 1645
[editar | editar código]Ao amanhecer de 21 de março de 1645, a expedição alcançou a porta ocidental do Novo Palmares. O acesso era protegido por duas ordens de paliçadas ligadas por travessas, e do lado interior havia um fosso cheio de estrepes. Outras entradas também protegiam o assentamento.[2]
O Novo Palmares tinha aproximadamente meia milha de comprimento. Uma rua principal atravessava o assentamento de oeste a leste; ao norte havia um grande alagadiço e, ao sul, árvores derrubadas funcionavam como obstáculos. O terreno situado atrás das casas também estava coberto de estrepes.[2]
Os expedicionários contaram 220 casas. No centro havia uma igreja, quatro forjas e uma grande casa de conselho. O diário registra ainda a presença de diferentes tipos de artífices.[4][2]
A maioria dos habitantes havia deixado o assentamento poucos dias antes da chegada da tropa. Pessoas capturadas durante a operação informaram que havia aproximadamente quinhentos homens na comunidade; os expedicionários calcularam, incluindo mulheres e crianças, uma população de cerca de 1 500 habitantes.[2]
Economia e organização
[editar | editar código]As áreas próximas ao assentamento continham grandes roças, principalmente de milho, e estoques de azeite de palmeira. O diário descreve também o uso das palmeiras para alimentação, construção, produção de azeite, manteiga, bebida e diferentes utensílios.[2]
A fonte menciona uma casa separada utilizada pelo rei, situada a cerca de duas milhas do núcleo principal e acompanhada por uma grande roça. Uma força de vinte homens foi enviada para capturá-lo, mas encontrou o local abandonado e incendiou a residência.[2]
A narrativa atribui ao governante autoridade sobre a administração interna da comunidade e registra a existência da casa de conselho e de diferentes atividades artesanais.[5]
Dambi
[editar | editar código]A tradução portuguesa do diário publicada no início do século XX refere-se apenas ao “rei” do assentamento. O original holandês, porém, identifica essa liderança como Dambij.[1]
Felipe Aguiar Damasceno, ao consultar o manuscrito original conservado no Arquivo Nacional dos Países Baixos, chamou atenção para essa passagem, ausente da antiga tradução portuguesa. Com base nela, identificou o assentamento como Mocambo do Dambi em sua reconstrução cartográfica dos Palmares de meados do século XVII.[1]
O projeto Documenta Palmares associa igualmente o conjunto de mocambos desse período à liderança de Dambi, referido no diário como rei do “Palmares Grande”.[6]
Incêndio do assentamento
[editar | editar código]Em 22 de março de 1645, tropas enviadas às áreas próximas capturaram apenas uma mulher que não conseguia acompanhar os demais fugitivos. Na mesma jornada, os expedicionários incendiaram mais de sessenta casas situadas nas roças circundantes.[2] Em 23 de março, a força incendiou o Novo Palmares, incluindo as casas e os objetos que haviam permanecido no assentamento, e iniciou a retirada.[2]
A destruição documentada em 1645 não encerrou a história dos Palmares. As fontes das décadas seguintes voltam a registrar numerosos mocambos e novas configurações territoriais na região.[7]
Localização
[editar | editar código]O diário fornece uma descrição detalhada do percurso da expedição, mas a identificação moderna dos pontos percorridos é aproximada. Felipe Aguiar Damasceno reconstruiu a rota de 1645 a partir do manuscrito holandês e de dados hidrográficos e topográficos, representando o Novo Palmares como o Mocambo do Dambi.[1]
Nome
[editar | editar código]O projeto Documenta Palmares, da Universidade Estadual de Campinas, adota Novo Palmares como forma normalizada e registra Mocambo de Dambi e Palmares Grande como variantes. O uso de Palmares Grande deve ser interpretado no contexto da fonte, uma vez que a mesma base documental registra outras ocorrências dessa denominação.[8]
Referências
- 1 2 3 4 Lara 2021, p. 28.
- 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 «Diário da viagem do capitão João Blaer aos Palmares em 1645» (PDF). Documenta Palmares. Universidade Estadual de Campinas. Consultado em 5 de outubro de 2026
- ↑ Viotti 2017, pp. 82–83.
- ↑ Viotti 2017, p. 83.
- ↑ Viotti 2017, pp. 83–84.
- ↑ «Como buscar mapas». Documenta Palmares. Universidade Estadual de Campinas. Consultado em 5 de outubro de 2026
- ↑ Viotti 2017, pp. 84–85.
- ↑ «Nomes de locais utilizados na base de dados» (PDF). Documenta Palmares. Universidade Estadual de Campinas. 2021. Consultado em 5 de outubro de 2026
Bibliografia
[editar | editar código]- Lara, Silvia Hunold (2021). «O território dos Palmares: cartografia, história e política» (PDF). Afro-Ásia (64): 12–50. doi:10.9771/aa.v0i64.43622
- Viotti, Ana Carolina (2017). «Revisitar Palmares: histórias de um mocambo do Brasil colonial» (PDF). Trashumante. Revista Americana de Historia Social (10): 78–99. doi:10.17533/udea.trahs.n10a05