Mensagens

A mostrar mensagens de abril, 2021

A EXPLICAÇÃO - PARTE II

  Quero que fales com o Pedro, desabafa a Laura, quero que lhe digas que Ă© absurdo ter as visitas ao Miguel controladas e ter que ter aquela estĂșpida da baby sitter sempre presente, desabafa, quero levar o Miguel para a Maiorca, mas ele diz nĂŁo, fica na quinta contigo e com os avĂłs. É um absurdo! repete. Foste tu que causaste isto tudo com os teus ataques de loucura, observa o Gonçalo, ele apenas protege o filho e jĂĄ que falas na baby sitter, onde Ă© que ela estĂĄ? Supostamente, nĂŁo deves ficar sozinha com o Miguel! Ah, o tom de voz da Laura Ă© descontraĂ­do, estĂĄvamos na confeitaria, pedi-lhe para ir pagar e escapuli-me. O Gonçalo suspira, valha-me Deus, que mal fiz eu para me calhar esta maluca como irmĂŁ! pensa e procura o telemĂłvel. O que Ă© que vais fazer? pergunta a irmĂŁ quando o vĂȘ com o telemĂłvel na mĂŁo, vou ligar ao Pedro, o que Ă© que pensaste? responde o Gonçalo, o homem deve estar doido a tentar descobrir onde estĂĄs! Tu nĂŁo regulas bem! NÃO! grita a Laura e a Rita, que estĂĄ na...

A EXPLICAÇÃO

  Tenho saudades do Clube, queixa-se a Rita naquele domingo. Ela e o Gonçalo saĂ­ram com uns amigos, a noite durou atĂ© Ă s tantas e acabam de se levantar. PorquĂȘ? pergunta o Gonçalo concentrado a fazer a omolete e a Rita suspira. A AĂ­da foi promovida, continua, o Nicolau estĂĄ ocupado com as palestras, os seminĂĄrios e tanto o Major como o AntĂłnio estĂŁo interessados na nova vida que tĂȘm. NĂŁo me interpretes mal, ainda bem que conseguiram estabilizar a vida, mas o Clube deixa de ser tĂŁo importante, acrescenta. As pessoas definem outras prioridades, observa o Gonçalo, mas tu tambĂ©m tens novas prioridades e estĂĄs feliz com isso. Estou a falar de coisas fora da Ăłrbita profissional, protesta a Rita, sinto falta dos debates, dos Mapas que o Major fazia para demonstrar as batalhas, atĂ© mesmo dos comentĂĄrios irĂłnicos do Bernardo. O Gonçalo fica pensativo, pousa o prato com a omolete em frente da Rita e diz, sentes falta de um filho? A Rita olha-o surpresa, podemos tentar, comenta o Gonçalo, sei...

O DIÁRIO DE MEIRELES - FIM

  O Inspector escuta-me atentamente e quando termina, diz, confirmam-se as suspeitas, terei que discutir o assunto com a Chefia para saber como proceder, acrescenta, quando Ă© que tem que dar uma resposta? Suponho que na terça, quarta-feira, esclareço, ficou de me telefonar. Ok, obrigada, Meireles, observa o Inspector, tenho que consultar a Chefia. AtĂ© lĂĄ, nem uma palavra! Nem ao Mateus, nem ao Fonseca! repete. Aceno que sim, que compreendi e despeço-me. Suspiro aliviado quando entro no carro, atĂ© ligo o rĂĄdio para descontrair, a ClĂĄudia Ă© que nĂŁo deve estar muito satisfeita, sussurro, terei que a recompensar de alguma maneira. Depreendo que Ă© nessa altura (descobrirei anos mais tarde) que o Inpsector Bernardes liga ao Chefe da Brigada e lhe conta resumidamente a conversa que teve comigo. EntĂŁo, o Tavares estĂĄ preocupado com esse caso, exclama o Chefe, era o que suspeitĂĄvamos, quem Ă© que ele quer proteger? Qual Ă© a ligação que ele nĂŁo quer que se investigue? NĂŁo conheço bem o caso, ...

O DIÁRIO DE MEIRELES - PARTE V

  A conversa demora cerca de dez minutos, o Inspector quer saber detalhes sobre uma operação que nĂŁo Ă© da nossa brigada, " mas implementaste o sistema de arquivo, deves saber como o contornar. Pagamos bem! Tens dois dias! e desliga. Fico a olhar para o Ă©cran com ar de idiota como descreve a ClĂĄudia quando entra na sala, admirada por nĂŁo ter tomado ainda duche, Ă© para isso que temos duas casas de banho, sabes, diz. NĂŁo sei o que pensar, nĂŁo sei o que fazer e a questĂŁo mais importante Ă©, porquĂȘ eu? Sou vulnerĂĄvel, fraco? NĂŁo estou com a corda na garganta, trabalhamos os dois, os meus Pais tĂȘm dinheiro. A razĂŁo principal Ă© realmente a que o Inspector Tavares apontou: implementei o sistema de arquivo, posso aceder facilmente e nĂŁo deixar rasto. Mas valerĂĄ a pena? Posso ir para a prisĂŁo ou ter que fugir para um PaĂ­s estrangeiro, Ă© isso que quero? Claro que nĂŁo, decido enquanto dou voltas e mais voltas na cama e a ClĂĄudia acorda, pergunta, o que Ă© que se passa contigo? Este domingo, alm...

O DIÁRIO DE MEIRELES - PARTE IV

  NĂŁo consigo pesquisar nada sobre a Casa Pirata quando regresso ao gabinete; o Mateus tem uma pista nova que o Bernardes considera relevante para o caso e passamos a tarde a confirmar os detalhes. É o nosso fim de semana de folga, chego a casa extenuado, mas a ClĂĄudia quer ir dançar e nĂŁo a quero desapontar. Fico surpreendido por encontrar a Bela Antunes no bar acompanhada por um individuo que o Mateus interrogou e classificou de " insolente". NĂŁo sei se me reconheceram, sĂł me viram no corredor que leva Ă s salas de interrogatĂłrio, mas o facto Ă© que uns quinze minutos depois de chegarmos, os dois saem. Acho estranho, o meu instinto diz-me para os seguir, mas a ClĂĄudia exige toda a minha atenção e passa das quatro da manhĂŁ quando entramos em casa. Acordo tarde e mal disposto, nĂŁo devia ter bebido tanto, queixo-me e a ClĂĄudia ri-se, ninguĂ©m te obrigou, diz. Vamos atĂ© ao parque fazer um pouco de exercĂ­cio? convida, mas antes de sairmos, mando um SMS ao Mateus, talvez se consiga ...

O DIÁRIO DO MEIRELES - PARTE III

  Dizem que fez " desaparecer" provas relevantes, forjou uma assinatura, conta o Sargento,  e estĂŁo a investigar-lhe as contas bancĂĄrias, porque suspeitam que recebeu " luvas ". A esta altura, o dinheiro deve estar numa conta offshore, observo e o Sargento encolhe os ombros, diz pois. Olha para o relĂłgio, vais chegar atrasado, diz e eu apresso-me a subir as escadas. O Bernardes jĂĄ estĂĄ no meio da sala com um ficheiro na mĂŁo quando entro. Murmuro uma desculpa, porque Ă© que nĂŁo bebi o cafĂ© aqui? penso e sento-me na minha secretĂĄria. NĂŁo sei quem escreveu este relatĂłrio, mas estĂĄ uma verdadeira lĂĄstima, começa o Bernardes, tĂȘm que o reescrever e reparem bem na cronologia. A testemunha nĂŁo estĂĄ a dizer a verdade, por isso, voltem a falar com ela. NinguĂ©m se atreve a falar, o Inspector entrega-me o ficheiro e eu leio o relatĂłrio em questĂŁo. Oh, Fonseca, que se passa contigo? recrimino e o membro mais novo da Brigada fica atrapalhado, jĂĄ te explicamos como o trabalho deve...

O DIÁRIO DO MEIRELES - PARTE II

  O Inspector Bernardes Ă© o oposto do Tavares: hĂĄ reuniĂ”es diĂĄrias para falarmos sobre o desenvolvimento do caso e decidirmos o prĂłximo passo, dĂĄ-nos uma certa liberdade na forma de trabalharmos, mas exige relatĂłrios sempre actualizados, pois " tenho que estar ao corrente de tudo o que se passa!" diz e muitas vezes, atĂ© chega antes de nĂłs. O Sargento LuĂ­s nĂŁo me preparou para isto, confesso Ă  minha namorada certa noite, ter que estar sempre vigilante e tentar antecipar-me Ă s ordens! Mas isso Ă© bom! responde a ClĂĄudia, obriga-te a estar sempre actualizado e lembra-te que agora Ă©s tu o Sargento e podes tambĂ©m estabelecer os teus mĂ©todos. NĂŁo sei se sou capaz! insisto e a ClĂĄudia suspira, Ă s vezes, Ă©s irritante! Sabes perfeitamente que Ă©s capaz, apenas tens que te organizar, mas dizes sempre que nĂŁo podes, que nĂŁo sabes! Fizeste a mesma coisa com o sistema de arquivo e no final, atĂ© o implementaste com bastante sucesso! É a minha vez de suspirar, ela tem toda a razĂŁo, duvido sem...

O DIÁRIO DO MEIRELES

Os meus Pais não ficaram satisfeitos quando lhe disse que ia ingressar na Polícia. Então, o teu curso? protestam, mas explico que posso aplicar os conhecimentos adquiridos no curso na investigação de crimes. Por isso, após terminar o ano de formação, aqui estou na Brigada do Inspector Tavares. O Inspector é um individuo mal encarado, preguiçoso, que chega sempre atrasado, mas exige que os outros cumpram o horårio. Deixa a organização do dia da Brigada ao Sargento Luís, um homem franzino que parece que vai desatar a chorar a qualquer momento. Mas depressa descubro que é inteligente, disciplinado e não aceita tolices. Aprendo bastante com ele e tento não ligar aos rumores que circulam sobre o Inspector Tavares. Segundo dizem, trabalhou com uma das lendas do Departamento, o Inspector Leandro, um homem que descrevem como rigoroso e ao que parece, o Tavares não aprendeu nada, afirmam, porque o Bernardes estå a ter sucesso como Inspector! Não sei quem é esse Inspector Bernardes, estou concen...

A FAMILIA - FIM

  A Clarinha fica amuada e fica decidido que os Pais vĂŁo para a casa de fĂ©rias na quarta-feira e regressam no domingo Ă  noite. Assim, a Teresa nĂŁo fica tanto tempo sozinha, decide a MĂŁe e tu podes começar com a fisioterapia na segunda. A Clarinha fica em casa da Rita e do Gonçalo e a Matilde pede para ficar em casa do Pai, Ă© mais perto da Universidade, diz ela, mas eu suspeito que quer ficar lĂĄ sozinha com o namorado. Tem cuidado, aviso-a, tens a certeza que Ă© isto que queres? JĂĄ tiveste uma mĂĄ experiĂȘncia, nĂŁo deixes que se repita! Mas a Matilde assegura que tem a certeza, que o ZĂ© Maria Ă© uma pessoa confiĂĄvel, jĂĄ falaram sobre o assunto e esta Ă© a altura certa. Ok, se tiveres dĂșvidas, fala com a Rita. A MĂŁe vai acabar por saber, mas a Rita pode ajudar-te nisso, concedo e depois de me despedir dos meus Pais, volto para casa. Os Pais partem na quarta-feira, a Clarinha faz uma birra tremenda, mas a Rita lĂĄ a consegue acalmar. O Chefe chama-me ao gabinete dele nesse dia, mentalmente ...

A FAMÍLIA - PARTE VI

  A irmĂŁ do  Inspector entregou-me o diĂĄrio dele e descobri-me ao abrir umas caixas lĂĄ em casa, continua o Pai, quando o li, percebi muita coisa. O Inspector estava a seguir umas pistas sobre um caso de corrupção e falava no suspeito que confirmamos agora ter ligaçÔes ao gangue. AlguĂ©m que conhecia, que tu conheces? interrompo e o Pai suspira, um homem da minha antiga brigada e que o Inspector Leandro treinou! observa. Compreendo que deve ter sido duro, comento, e agora o que acontece? e o Pai fecha-se imediatamente, responde-me com o " nĂŁo posso falar sobre uma investigação em curso". Encolho os ombros, nĂŁo vale a pena insistir, embora esteja preocupado com uma possĂ­vel retaliação, estes gangues sĂŁo doidos! murmuro. O Pai pergunta-me sobre a Catarina, conto-lhe tudo o que aconteceu, Ă© fria, calculista, concluo, nunca me tinha apercebido disso! O Bernardo avisou-me, mas eu estava doido! Tens falado com o Bernardo? e eu abano a cabeça, estamos um pouco distantes! Ele concluiu ...

A FAMÍLIA - PARTE V

  Que frieza! penso, mas estou tĂŁo cansado, tĂŁo preocupado com o meu Pai que escondo a Catarina no lado mais escuro da mente. Quero saber mais sobre a operação, vai ser difĂ­cil o teu Pai explicar, comenta a Rita, sabes como ele Ă©, as regras sĂŁo sagradas e eu concordo com isso atĂ© certo ponto.  Mas ele foi ferido em serviço e a famĂ­lia tem que saber porquĂȘ, insisto e a Rita abana a cabeça, a Ășnica coisa que ele disse Ă  tua MĂŁe foi que, quanto menos ela soubesse, melhor para ela! Talvez o Meireles me possa elucidar, mas lembro-me dos comentĂĄrios da Rita e eu pouco ou nada sei sobre o homem, quem sabe o que pode acontecer se faço perguntas incomodas. Valha-me Deus, digo em voz alta, sou mesmo filho do meu Pai! JĂĄ estou a ver conspiraçÔes em todo o lado! Deito-me, mas nĂŁo durmo sossegado e ligo Ă  MĂŁe logo Ă s oito da manhĂŁ. Ela diz-me que ainda nĂŁo ligou para o Hospital, estĂĄ Ă  espera das nove, devem estar na mudança de turno, a preparar os doentes, continua, e se houvesse qualquer...

A FAMÍLIA - PARTE IV

  A Clarinha senta-se no meu colo, conta-me as novidades, descreve-me em pormenor o que estĂĄ a fazer na aula de arte. De repente, lembra- se que hĂĄ muita gente na sala, que devĂ­amos estar todos a trabalhar, por isso, o que Ă© que estamos a fazer aqui? E onde estĂĄ a MĂŁe? pergunta. O Pai foi ferido, estĂĄ no Hospital, vamos para lĂĄ daqui a um bocadinho, explico e a Clarinha abana a cabeça em sinal de compreensĂŁo. TambĂ©m posso ir? mas o Gonçalo interrompe, hoje nĂŁo, o Pai tem que descansar, amanhĂŁ se verĂĄ, diz e a Clarinha prepara-se para fazer uma das cenas dela. A MĂŁe entra nesse momento, parece estar mais calma, mudou de roupa, penteou-se e anuncia, o Pai jĂĄ estĂĄ no quarto, acordou, estĂĄ com alguma dores, mas estĂĄ a perguntar por nĂłs. Tropeçamos uns nos outros na Ăąnsia de sair de casa, o Gonçalo quase que arrasta a Clarinha para o carro dela, nĂŁo se preocupem, ela vai ajudar-me num projecto, declara. A Rita nĂŁo pode entrar, sĂł Ă© permitida a entrada de duas pessoas no quarto, por isso...

A FAMILIA - PARTE III

  Partilho uma pizza com a Matilde. A Rita estĂĄ ao telefone, Ă© um assunto importante, tem que ser resolvido jĂĄ, desculpa-se. Pergunto Ă  minha irmĂŁ o que aconteceu, mas a Matilde diz que pouco sabe, Ă© uma investigação em aberto, nĂŁo pode falar sobre isso, conta. Mas isso nĂŁo Ă© importante agora, continua, sabes que os nossos Pais estĂŁo juntos novamente? Fico estupefacto, o quĂȘ??? e a Rita ri-se. É um segredo, observa, tentam ser discretos, mas como podem ser discretos, se passaram um fim de semana juntos com a Clarinha ou se a tua MĂŁe nĂŁo estĂĄ aqui, estĂĄ no apartamento dele? Sempre achei que o divĂłrcio deles foi precipitado, comento, que foi loucura por parte do Pai; se eles ficarem novamente juntos, vou fica muito contente. Acho que eles se completam... Pensei ter esse tipo de relação com a Catarina... O que Ă© que aconteceu com a Catarina? interrompe a Rita e a Matilde inclina-se para a frente para nĂŁo perder pitada, estas duas sentiram sangue no ar, penso. Terminamos e ela vai ser ...

A FAMÍLIA - II

  Ignoro-o, procuro a minha MĂŁe, deve estar na sala de espera com a Rita. O mĂ©dico tambĂ©m lĂĄ estĂĄ, a explicar-lhe que conseguiram remover a bala, nĂŁo hĂĄ hemorragias e o Pai reagiu muito bem. EstĂĄ ainda no recobro, diz, vamos mantĂȘ-lo lĂĄ mais algumas horas e depois Ă© transferido para um quarto lĂĄ para o fim da tarde. A MĂŁe suspira de alĂ­vio, a Matilde desata a chorar e eu fico parado Ă  porta, sem saber o que dizer ou fazer. Ainda bem que chegaste, confessa a Rita, tem sido uma manhĂŁ complicada! e eu abraço-a. Oh, Gustavo, diz a MĂŁe e eu deixo a Rita, acolho a minha MĂŁe nos meus braços. Ainda bem que ele estĂĄ bem, sussurro, nĂŁo, nĂŁo contes nada agora, mais tarde, peço. O Meireles aparece Ă  porta, jĂĄ sabe das novidades, quer saber se pode fazer alguma coisa, mas a MĂŁe limita-se a agradecer. O sargento hesita, abre a boca para dizer alguma coisa, mas acaba por se ir embora. NĂŁo sei porquĂȘ, comenta a Rita, nĂŁo confio neste homem e pouco falei com ele! Mas o Pai diz que ele Ă© muito compe...

A FAMÍLIA

  Termino a relação com a Catarina no dia em que o meu Pai Ă© ferido. Encontro-a na cozinha, ainda nĂŁo sĂŁo sete da manhĂŁ, com as malas feitas e com um discurso preparado. SĂł a interrompo quando fala " na birrenta da tua irmĂŁ adoptiva", porque a Maria Clara Ă©, serĂĄ sempre minha irmĂŁ e estarei sempre presente para a ajudar no que for preciso, friso. Pois, Ă© isso que me irrita, largas tudo porque aconteceu isto ou aquilo Ă  Clarinha, diz a Catarina e eu suspiro. NĂŁo vou abdicar da minha famĂ­lia, sĂł porque te irrita, observo e a Catarina encolhe os ombros, murmura um " venho buscar o resto das coisas ao fim da tarde e deixo a chave." e saĂ­. Sento-me no sofĂĄ, vou chegar atrasado ao trabalho, mas nĂŁo deve haver problema, ontem, estive a trabalhar atĂ© Ă s onze da noite. Ainda tenho que assimilar os acontecimentos, sei que o Bernardo vai dizer que me avisou, que a Catarina era muito vaidosa e egoĂ­sta e aqui estĂĄ a prova. Tenho que concordar, a Clarinha Ă© muito birrenta e pĂŽs a...

O FIM DE SEMANA - FIM

  NĂŁo estejas admirado, continua a minha mulher, desde que descobriste o diĂĄrio do Leandro, estĂĄs mais nervoso, estĂĄs distante. Por isso, o que estĂĄ a acontecer? Suspiro, ok, tem tudo a ver com o diĂĄrio do Leandro, confirmo, mas nĂŁo te posso dizer mais nada. Para tua protecção e minha tambĂ©m. A Madalena nĂŁo diz mais nada, mas sinto que fica preocupada e acabo por passar lĂĄ a noite. Os acontecimentos precipitam-se na semana seguinte, os Chefes decidem agir antes de sexta-feira. Todos os detalhes sĂŁo analisados cuidadosamente e hĂĄ uma reuniĂŁo final Ă  meia-noite. O Meireles estĂĄ presente, Ă© um homem em quem confio, digo aos Chefes que aceitam a minha sugestĂŁo. VĂȘ-se que estĂĄ nervoso, mas eu tambĂ©m estou. Finalmente, vamos ter respostas para a morte do Inspector Leandro. Ás cinco e meia da manhĂŁ, estacionamos perto do local, colocamos em posiçÔes estratĂ©gicas, serĂĄ? duvida o Meireles, mas nĂŁo me atrevo a repreende-lo, pois tambĂ©m eu nĂŁo tenho certezas. Às seis em ponto, invadimos o loc...

O FIM DE SEMANA - PARTE V

Os Chefes estĂŁo preocupados; uma operação tĂŁo complexa como esta demora meses a preparar, mas nĂłs temos que agir rapidamente. Temos que escolher cuidadosamente a equipa, diz o Chefe do Departamento, organizar protecção para o Bernardes, sugere o Chefe dos Detectives. Mas eu recuso; isso daria azo a comentĂĄrios e poria em alerta o nosso suspeito. Por isso, o dossier relativo ao assalto a minha casa Ă© concluĂ­do, " acto executado por desconhecidos" escreve-se no relatĂłrio e o Meireles fica intrigado. Tem a certeza de que nĂŁo quer o caso investigado a fundo? pergunta, hĂĄ qualquer coisa por trĂĄs disto e Ă© grave. Tudo leva a crer que foi obra de profissional, nĂŁo hĂĄ impressĂ”es digitais... Olho-o muito sĂ©rio, o Meireles nĂŁo desvia o olhar, vejo que respira fundo e depois, diz baixinho, oh, inspector, estĂĄ em perigo? NĂŁo propriamente, respondo cautelosamente, mas o caso Ă© muito delicado e estĂĄ a ser tratado com todas as precauçÔes.  Conte comigo, pode confiar em mim, observa o Meirel...

O FIM DE SEMANA - PARTE IV

  Matilde, tem calma.... Respira fundo e conta-me o que aconteceu... O meu apartamento foi assaltado? Forçaram a porta? NĂŁo??? Disseram ao porteiro que iam visitar os meus vizinhos e nĂŁo foram? Ok... vais telefonar a um dos teus tios para ele estar presente quando chegar a PolĂ­cia. Eu vou telefonar ao sargento de serviço, comunicar a situação e alguĂ©m vai aparecer para tomar conta da ocorrĂȘncia. O que aconteceu? a Madalena quer saber, mas eu murmuro, explico depois e telefono para a esquadra. É o Sargento Nunes que atende, claro que sim, Inspector, vamos jĂĄ para lĂĄ, nĂŁo se preocupe, responde e eu desligo. Assaltaram o apartamento? Mas porquĂȘ? pergunta a Madalena e eu suspiro, nĂŁo sei, teremos que ver se falta alguma coisa, mas para jĂĄ, Ă© importante que a PolĂ­cia tome conta da ocorrĂȘncia, explico. Tenho quase a certeza de que isto nĂŁo aconteceu por acaso, penso, mas nĂŁo o digo alto. O Gonçalo telefona-me uma hora depois, a PolĂ­cia jĂĄ lĂĄ esteve, fotografou tudo e segundo diz a Matild...

O FIM DE SEMANA - PARTE III

  A Madalena opĂŽs-se ao meu plano de ficar no spa enquanto elas vĂŁo explorar os trilhos e a escola de equitação. Vamos gozar este fim de semana em famĂ­lia, diz ela, por isso, vamos todos explorar o trilho e nĂŁo, interrompe-me antes que eu vocalize a minha objecção, vamos começar pelo mais curto. Contrariado, lĂĄ me equipo e sigo-as.  A Clarinha estĂĄ toda excitada, fala pelos cotovelos e nĂłs interpretamos isso como um bom sinal. A vista Ă© deslumbrante quando chegamos ao topo e lamentamos ter que descer novamente para o vale. HĂĄ ali perto um cafĂ©, a Madalena e a Clarinha instalam-se num banco cĂĄ fora a aproveitar o Sol e eu entro para pedir as bebidas. Com umas perguntas discretas, fico a saber que o Inspector LeitĂŁo sofreu um ataque cardĂ­aco, a famĂ­lia achou melhor mudĂĄ-lo para uma residĂȘncia assistida. NĂŁo, nĂŁo sabem para onde e eu suspiro, porque esta pista fica em suspenso. A Clarinha entra entĂŁo, exige saber a razĂŁo da demora, estou a morrer de sede, comenta, o que faz com q...

O FIM DE SEMANA - PARTE II

Os nossos filhos sabem que estamos a namorar, frisa a minha ex-mulher, o Gustavo acha divertido, a Matilde pensa que somos doidos e a Clarinha não diz nada. Rio-me também, a Madalena estå diferente, foi bom ter voltado a trabalhar, a alargar o circulo de interesses e amigos. Por isso, estudamos atentamente as brochuras que trouxe, tem que ser um sítio com um parque para a Clarinha se divertir, comenta a Madalena e um spa para nós, acrescento. O problema serå se a Teresa não voltar ao trabalho esta semana, exclamo, ou tu não conseguires ter folga, responde a Madalena. Mas o caso estå num impasse, é melhor aproveitar agora as folgas, aconselham os Chefes, vamos precisar de toda a sua atenção e tempo mais tarde. Na sexta-feira, vou buscar a Clarinha e a Madalena à loja principal, ainda ficamos um bocado a conversar com a Teresa, jå totalmente recuperada da constipação. Temos bastantes planos para as lojas, confidencia a Madalena, vamos apresentå-los na próxima reunião e veremos o que acon...

O FIM DE SEMANA

  HĂĄ anos que nĂŁo pensava na Helena, na relação escaldante que tive com ela. Uma loucura completa, foi pura diversĂŁo. A Helena era uma mulher muito sensual, muito livre e foi um choque saber que tinha sido casada com o Leandro, um homem tĂŁo discreto, tĂŁo rigoroso. Profissionalmente, a Helena tambĂ©m o era, mas pessoalmente...era uma outra histĂłria e talvez tenha sido por isso que o casamento deles nĂŁo funcionou. Durante uns dias, fui incapaz de encarar frontalmente o Inspector Leandro, mas ele era um bom professor, tinha tanto que aprender que escondi a Helena no recanto mais escuro da memĂłria. Acho que nem falei nela Ă  Madalena que conheci umas semanas apĂłs ter terminado a relação. Quem Ă© esta Helena? Alguma suspeita? a voz da Madalena traz-me novamente para a realidade, tem o diĂĄrio do Leandro na mĂŁo. Devo ter adormecido, ela deve ter usado a chave da Matilde para entrar. Que horas sĂŁo? pergunto e a minha ex-mulher sorri, passa das sete, trouxe-te um bolo, pensei que podĂ­amos jant...

EU E O BERNARDES - FIM

  Algum aspecto do caso que se complicou e nĂŁo sabe como abordar o assunto comigo? penso enquanto revejo o relatĂłrio. O relatĂłrio estĂĄ perfeito, o Bernardes assinala as pistas mais importantes, descreve o que estĂĄ a ser feito. NĂŁo sei o que aconteceu com os outros inspectores, murmuro, comigo, o trabalho do Bernardes estĂĄ a ser exemplar, Ă© organizado, atento ao detalhe, respeita as opiniĂ”es dos outros. EntĂŁo, o que se passa para o sargento estar a agir como se eu fosse um dĂ©spota?  De repente, lembro que o Bernardes Ă© o tipo de homem que a Helena aprecia e nĂŁo me surpreende nada que seja com ele que ela esteja a ter um caso. Coitado do sargento, sorrio, deve ter descoberto que a Helena foi casada comigo e tem receio de me estar a ofender. Tenho vontade de o chamar e lhe dizer que nĂŁo se preocupe, eu e a Helena nĂŁo somos amigos, hĂĄ uma histĂłria pesada por trĂĄs do nosso divĂłrcio e tudo o que quero Ă© esquecer. Suspiro tĂŁo alto que o Bernardes levanta a cabeça e olha-me curioso. C...

EU E O BERNARDES - PARTE IV

  No dia seguinte, acordo de mau humor, ainda bem que nĂŁo estou de serviço, penso, nĂŁo me ia concentrar. A Helena voltou e estĂĄ a trabalhar no Tribunal de FamĂ­lia? Segundo o que me contou o LeitĂŁo, regressou hĂĄ uns seis meses. Curioso que nĂŁo te tenhas cruzado com ela, disse o LeitĂŁo, eu sei porque ela era a responsĂĄvel pelo caso que eu investiguei hĂĄ umas semanas. NĂŁo respondi, o LeitĂŁo percebeu que estava a tocar num ponto sensĂ­vel e despediu-se, deixando-me aturdido no parque de estacionamento. Quando conto Ă  minha irmĂŁ, estĂĄs livre? pergunta, vamos tomar um cafĂ©?, ela fica sem palavras. O que vais fazer? questiona, nĂŁo lhe vais telefonar ou aparecer no Tribunal para falar com ela? NĂŁo Ă© uma boa ideia! NĂŁo, nĂŁo Ă©, respondo, sabes as circunstĂąncias em que nos divorciamos, nem amigos ficamos! NĂŁo a vou convidar para tomar um cafĂ© e exigir saber porque voltou. Decerto a relação com o outro cavalheiro terminou e aqui sempre tem a famĂ­lia, os amigos, observa a Gina, mas nĂŁo deixes qu...

EU E O BERNARDES - PARTE III

  Nesse mesmo instante, o Bernardes estĂĄ a terminar a relação com a companheira. A Helena nĂŁo estĂĄ surpreendida; afinal, Ă© vĂĄrios anos mais velha que o Bernardes e Ă© natural que o rapaz se interesse por uma mulher mais nova, queira casar e ter uma famĂ­lia. O Bernardes Ă© um homem interessante, um excelente companheiro e vai ter pena das escapadelas de fim de semana, das idas aos motĂ©is, dos jantares no conforto do apartamento dele. Mas, como disse muitas vezes Ă s amigas, esta relação tinha prazo. Volta Ă  realidade quando o Bernardes lhe fala do novo chefe, Ă© um homem curioso, ainda nĂŁo o conheço muito bem, mas tem ideias bem definidas e gosto disso, diz. NĂŁo vais entrar em conflito com ele desta vez? pergunta a Helena, em seis meses, Ă© a segunda vez que mudas de brigada e eles nĂŁo gostam muito disso. O Bernardes fica intrigado, como Ă© que sabes? indaga e ri-se. Fui casada com um Inspector, aprendi muita coisa durante esses anos, responde, os jantares interrompidos a meio, a falta de...

EU E O BERNARDES - PARTE II

  O Inspector LeitĂŁo convida-me para jantar. É viĂșvo hĂĄ alguns anos, os filhos jĂĄ sĂŁo adultos e tĂȘm a sua prĂłpria vida e jantarmos junto Ă  sexta-feira tornou-se um hĂĄbito. Partilhamos o mesmo gosto pela boa comida, boa mĂșsica e bons livros e nĂŁo nos falta tema de discussĂŁo. Mas, naquela sexta-feira, o LeitĂŁo estĂĄ mais interessado em saber da minha relação com o Sargento Bernardes. Dizem que se alguĂ©m Ă© capaz de domar o Bernardes, esse alguĂ©m Ă©s tu, exclama, por isso, dĂĄ-me as tuas impressĂ”es. É observador, atento, explica-se com clareza, respondo, aliĂĄs, frisei bem isso quando entrou na minha brigada. Pois, eu sei que exiges isso a todos os que colaboram contigo, concorda o LeitĂŁo, mas corre o rumor de que o Bernardes Ă© insubordinado, tem dificuldade em seguir ordens. NĂŁo digo que nĂŁo, tive que o repreender uma ou duas vezes, observo, mas talvez o que ele precise Ă© que o ajudem a pensar. O LeitĂŁo ri-se, lĂĄ estĂĄs tu com os teus truques, ok, explica-te, comenta o meu amigo. Ouves o q...

EU E O BERNARDES

  Observo atentamente a pessoa que tenho Ă  minha frente. É alto, atlĂ©tico (sei mais tarde de que pratica natação e ciclismo) e parece estar muito relaxado. Como se nĂŁo fosse importante causar boa impressĂŁo ao novo chefe. Sorrio, pois os olhos nĂŁo enganam; sĂŁo vivos, inteligentes, estudam-me atentamente e eu gosto disso. Telmo Almeida Bernardes, repito, dizem que Ă© um excelente detective, mas insubordinado. Eu nĂŁo vou tolerar isso, aviso-o jĂĄ. A minha equipa trabalha com base na confiança e nĂŁo tolero elementos que causem distĂșrbios. Por isso, vou fazer-lhe uma pergunta: vou ter problemas consigo, Bernardes? O Bernardes olha-me curioso, estĂĄ intrigado, nunca pensou que alguĂ©m lhe fizesse essa pergunta directamente. Os meus colegas limitam-se a apresentar os outros membros da brigada, presumem que estes expliquem os detalhes do caso em aberto e esperam resultados. Eu gosto de conhecer os membros da minha brigada, conhecer o potencial, os limites para saber o que exigir e geralmente, ...