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A mostrar mensagens de dezembro, 2021

MATILDE PARTE IV

  Mas? insiste a Dra LĂșcia, ok, nĂŁo fiquei muito contente por o Bernardo ter decidido procurar um apartamento sem discutir primeiro o assunto contigo, explico, ele redimiu-se depois, pĂŽs-me Ă  vontade, mas fiquei um pouco magoada. HĂĄ uns meses, teria ficado calada, interrompe a Dra LĂșcia, a remoer tudo, mas jĂĄ foi capaz de falar, de explicar ao Bernardo do que nĂŁo gostou. É isso mesmo que quero que faça... Ă© um bom passo! Mas ainda nĂŁo estou totalmente convencida, confesso Ă  Tia Rita, o Bernardo nĂŁo quer aceitar as minhas economias, acha que Ă© melhor ter um fundo de maneio. Tem toda a razĂŁo, concorda a Rita, sempre achei o Bernardo um rapaz sensato, tĂȘm bons salĂĄrios, sĂŁo jovens, e se souberem negociar... pagam a casa em dois tempos! Suspiro, Ă s vezes, fico um pouco irritada com esse positivismo, digo e a Rita solta uma gargalhada, jĂĄ hĂĄ muitas sombras no Mundo, temos que ver o lado positivo das coisas. Goza a vida, Matilde, nĂŁo te preocupes com os pormenores. O preço do apartamento...

MATILDE PARTE III

  O apartamento no bairro onde os meus Pais vivem estĂĄ bem dividido, a sala dĂĄ para um terraço enorme e imagino jĂĄ o Bernardo a planear grandes festas no VerĂŁo. Podemos fazer aqui churrascos, convidar amigos para drinks ao fim da tarde, diz o meu companheiro, ou uma estufa, sugiro e vejo que o Bernardo fica surpreendido. Abro as portas dos armĂĄrios, o chĂŁo Ă© em madeira flutuante, cheira tudo ainda a novo, gosto, confesso quando nos despedimos da agente e voltamos para o carro. NĂŁo nos vamos precipitar, aconselha o Bernardo, ainda temos mais dois apartamentos para ver. Um Ă© muito sombrio, temos que fazer algumas obras e nĂŁo gosto da zona.  Nem eu nem o Bernardo gostamos das divisĂ”es do terceiro, sĂŁo pequenas demais e nĂŁo gostei nada do esquema de cores, comento quando regressamos ao estĂșdio. TambĂ©m gostei mais do primeiro apartamento, concorda o Bernardo, temos aquele terraço imenso, hĂĄ aquele quarto perto da cozinha que podes transformar no teu escritĂłrio... Ou podemos utiliza...

MATILDE PARTE II

  A Dra LĂșcia sorri, sinto que estou no bom caminho, estou a adorar o meu trabalho na empresa de decoração da Carolina. Saio satisfeita da consulta, o Bernardo jĂĄ deve estar Ă  minha espera no ĂĄtrio, ele Ă© sempre tĂŁo pontual. LĂĄ estĂĄ ele em frente aos elevadores, a olhar atentamente todos os que saem e quando me vĂȘ, sorri, aponta para o relĂłgio. Onde vamos? pergunta, mas ambos sabemos o que queremos. Jantar naquela pizzaria perto do Centro, de preferĂȘncia na mesa do canto, discreta, sossegada, queremos conversar. Acho que devemos mudar de casa, diz o Bernardo no fim do jantar, estamos jĂĄ a tomar o cafĂ©, um apartamento maior, com mais espaço, tens que ter um escritĂłrio para ti. Fico surpreendida, gosto de viver no estĂșdio, Ă s vezes, Ă© complicado quando trazemos trabalho para casa, mas encontramos uma solução. NĂŁo sei, nunca pensei no assunto, confesso, mas uma sala maior para recebermos os amigos Ă© uma boa ideia e, sim, gostava de ter um escritĂłrio sĂł para mim. Ok, encontrei doi...

MATILDE

  Uma noite, contei tudo ao Bernardo. Tudo o que me aconteceu naquelas semanas em que estive " desaparecida "... confessei-lhe tudo e o Bernardo ouviu tudo sem me interromper. No fim, suspirei fundo, sentia-me mais leve, talvez porque sĂł li carinho, amor, compreensĂŁo no olhar dele. Nessa noite, ficamos juntos e no dia seguinte, tive uma conversa com a MĂŁe, pois decidimos viver juntos. A MĂŁe fica preocupada, tens a certeza? repete, falaste com a Dra LĂșcia sobre isto? NĂŁo serĂĄ melhor discutires isto primeiro com ela? insiste. Mas eu tenho a certeza de que esta Ă© a decisĂŁo acertada, explico, MĂŁe, tens que me deixar viver e aprender com os meus erros, repito, e o Bernardo estĂĄ ao corrente de tudo, acrescento. Vejo que a MĂŁe nĂŁo estĂĄ convencida, mas eu tenho que tentar, vivo com medo e tenho que o vencer. Estou convencida de que o Bernardo me pode ajudar nisso, afirmo na consulta com a Dra LĂșcia, sei que vai ser complicado para os meus Pais. É a sua vida, Matilde, observa a Dra LĂș...

MIGUEL FIM

  Tens a certeza? repete o Pai, mas porque Ă© que nĂŁo falou connosco??? Pela mesma razĂŁo que nĂŁo quis falar em frente da MĂŁe, respondo, nĂŁo os quis preocupar! AtĂ© me passou pela cabeça que a Filipa podia ser vĂ­tima de violĂȘncia domĂ©stica!!! Ainda bem que nĂŁo! Eu matava-o! exclama o Pai, e agora o que fazemos? NĂŁo sei, admito, esperar que ela fale, dar-lhe a entender que sabemos, mas nĂŁo fazemos mais! A MĂŁe bate Ă  porta, entra, o que Ă© que vocĂȘs estĂŁo a conspirar? Ups, que ar tĂŁo sĂ©rio!!! Aconteceu alguma coisa? pergunta, desconfiada, mas o Pai consegue distraĂ­-la e vamos todos para a cozinha. A D. Margarida preparou um bom jantar e a InĂȘs faz-nos rir com histĂłrias absurdas. Quando me despeço, o Pai diz que vai falar com a Filipa no dia seguinte, mas os acontecimentos precipitam-se, o Tadeu saĂ­ de casa naquela noite. A minha irmĂŁ telefona-me na manhĂŁ seguinte, conta-me tudo, pede-me para explicar aos Pais, estou muito cansada, nĂŁo consigo falar. VocĂȘs sabiam e nĂŁo me disseram nada! a...

MIGUEL PARTE VI

  A tua irmĂŁ estĂĄ grĂĄvida novamente e eu nĂŁo quero ter esse filho, explica calmamente e cala-se. Estou confuso, digo, nĂŁo querias ter mais filhos? e o Tadeu suspira, claro, sĂł que nĂŁo os quero ter com a Filipa. O QUÊ? Agora Ă© que nĂŁo estou a entender nada, respondo, que histĂłria Ă© essa e explica tudo devagarinho! Encontraste outra mulher? Queres estar com essa mulher? A minha irmĂŁ sabe? É uma colega de trabalho, conta o Tadeu, estamos na mesma equipa de trabalho, sabes como Ă©... NĂŁo, nĂŁo sei como Ă©, interrompo, mas continua e o Tadeu continua calmamente, ficĂĄvamos atĂ© tarde no escritĂłrio, conversĂĄvamos muito. A Filipa estava ocupada com a Matilde, com o trabalho dela, estava sempre cansada, mal nos vĂ­amos. Talvez nĂŁo fizesses um esforço para contrariar isso, exclamo, talvez tambĂ©m nĂŁo tenhas escutado a Filipa...talvez os dois nĂŁo se tenham esforçado, concluo, e o que pretendes fazer? DivĂłrcio? A tua irmĂŁ quer fazer mais uma tentativa, acha que o devemos a esse filho, explica o Tade...

MIGUEL PARTE V

  A Filomena Ă© a primeira a reagir, sorri ironicamente e diz, nĂŁo estou surpreendida! Orgulho de macho ferido! e suspira. Eu continuo sem dizer nada e ela continua, vou para casa da minha irmĂŁ, nĂŁo vejo futuro para nĂłs! e pega no saco, meio escondido atrĂĄs do sofĂĄ. Acho melhor pedires a transferĂȘncia para outra secção! aconselha, talvez sejas promovido mais rapidamente e solta outra gargalhada. A porta fecha-se violentamente, amanhĂŁ vou ter os vizinhos a protestarem e com toda a razĂŁo! murmuro e mando um SMS Ă  Filipa, tinhas razĂŁo! ela foi embora! A resposta nĂŁo se faz tarde, Ă©s louco, Miguel? Sabes que horas sĂŁo??? Mas ainda bem! e eu rio-me. Estou de mau-humor no trabalho, marco uma reuniĂŁo nos Recursos Humanos, peço para ser transferido. O pedido causa uma certa confusĂŁo, mas porquĂȘ Miguel? EstĂĄ a fazer um trabalho importante, protestam, desculpe, nĂŁo podemos aceitar! É um elemento imprescindĂ­vel para a equipa! Pois, mas agora Ă© a Filomena que supervisiona as equipas e organiza ...

MIGUEL PARTE IV

  O Bernardo escuta-me atentamente, depois fica uns instantes calado e diz, compreendo que fiques aborrecido, mas tenho que concordar com o teu Pai, nĂŁo estĂĄs na empresa hĂĄ muito tempo, embora o teu trabalho seja excelente. Talvez o que te aborreça seja o facto de ter sido a Filomena a ser promovida, acrescenta e apĂłs um breve momento de reflexĂŁo, tenho que admitir que foi. E fui um pouco odioso hĂĄ pouco, confesso, tivemos uma grande discussĂŁo... perguntei-lhe se ela sabia, mas ela negou... O Bernardo volta a suspirar, nĂŁo foste nada diplomĂĄtico, concorda, e sĂł tens duas hipĂłteses: ou continuas a fazer o teu trabalho como atĂ© aqui e esperas pela prĂłxima promoção ou procuras discretamente uma nova posição. TambĂ©m jĂĄ pensei nisso, admito, mas atĂ© gosto de trabalhar naquela empresa. EntĂŁo, encontra uma forma de ultrapassar o facto da Filomena ter sido promovida, aconselha o Bernardo. Ele tem razĂŁo, sorrio, despeço-me, jĂĄ passa das onze da noite, estou a abusar, observo, mas o Bernardo...

MIGUEL PARTE III

  A Tia Teresa fica indignada, essa tua namorada fala demais! diz, que ideia mais estranha! Se a tua irmĂŁ nĂŁo te quis dizer, vou respeitar a decisĂŁo dela! SĂł te vou dizer isto; sim, ela e o Tadeu estĂŁo com problemas... espera que ela esteja pronta para falar! Suspiro, nĂŁo gosto de ver a minha irmĂŁ triste, agitada, mas tenho tanto trabalho que atĂ© me esqueço dos problemas. A Filomena ausenta-se, Ă© um workshop importante, afirma e eu encolho os ombros, nem pergunto detalhes. Fala-se em promoçÔes, estĂĄ na altura de dar tudo por tudo, preciso desta promoção, explico ao Pai, nĂŁo Ă© sĂł pela dinheiro, vou ser responsĂĄvel pelos meus prĂłprios projectos...  Tem calma, aconselha o Pai, sabes que podes nĂŁo ser escolhido? NĂŁo estĂĄs na empresa hĂĄ muito tempo... podem preferir uma pessoa com mais experiĂȘncia... Oh, eu sou perfeito para o lugar, respondo, convencido de que vou chegar rapidamente ao topo. É melhor assentares os pĂ©s na terra, repete o Pai, a queda pode ser fatal e magoares-te a ...

MIGUEL PARTE II

  A Filipa nĂŁo faz mais comentĂĄrios, fecha-se na cozinha, o Tadeu pergunta-me se quero cafĂ©, melhor irmos atĂ© ao cafĂ© lĂĄ em baixo, diz. Mas eu abano a cabeça, tenho que ir, respondo, nĂŁo dormi muito bem esta noite e tenho uma reuniĂŁo logo Ă s nove horas. Levanto-me, o Tadeu fica sentado Ă  mesa e vou atĂ© Ă  cozinha, a Filipa estĂĄ encostada no balcĂŁo, a loiça suja continua em cima da mesa. Vou-me embora, anuncio, estĂĄs bem? e a minha irmĂŁ suspira, nĂŁo muito, admite. O que se passa? Reparei que as coisas estĂŁo um pouco tensas entre ti e o Tadeu, comento, Ă©, estĂŁo, confirma a Filipa, mas este nĂŁo Ă© o local ideal para falarmos. É grave, entĂŁo? Ok, telefona-me, combinamos um almoço, sugiro e despeço-me. O Tadeu continua sentado Ă  mesa e a beber, fico a pensar se nĂŁo serĂĄ este o problema. Achas que sim? diz a Filomena quando lhe conto, vĂȘ-se que tem algumas dĂșvidas, achas que lhe bate? continua e eu fico parado no meio do quarto. Sinto o corpo gelado, a minha irmĂŁ vĂ­tima de violĂȘncia domĂ©st...

MIGUEL

  O Bernardo e a Matilde resolvem mudar de casa, falam de mim ao senhorio e ele aluga-me o estĂșdio pelo mesmo valor. NĂŁo estou a ganhar muito no meu estĂĄgio, a MĂŁe e a Tia Teresa abastecem-me a despensa e se estou aflito, posso sempre contar com o Pai ou o Tio Pedro. Estava na altura de partir, adoro a minha famĂ­lia, mas estava a precisar de espaço e estou cansado de ser o jĂșri nas desavenças dos meus irmĂŁos mais novos. Hoje, a empresa disse que vou passar a efectivo, o meu trabalho Ă© excelente, afirmam e estou eufĂłrico. Apetece-me celebrar, mas hoje a Filipa faz anos, hĂĄ um jantar em casa da MĂŁe. NĂŁo importa, acende-se duas vezes as velas, a Filipa nĂŁo vai dizer que nĂŁo. A sala explode de alegria quando conto a novidade, estou muito feliz por ti, filho, a MĂŁe dĂĄ-me um grande abraço e o Pai uma palmada nas costas. Espero que me convides para jantar um dia destes, brinca o Tio Pedro, eu tambĂ©m, acrescenta o Tadeu, mas eu nĂŁo tenho tanta certeza. Sinto que a minha irmĂŁ nĂŁo estĂĄ muito...

EU, EDGAR O GRANDE - FIM

  A viagem a Ibiza Ă© uma loucura, creio que fui o Ășnico que soube controlar a bebida e gozar o Sol. De regresso a casa, encontro a MĂŁe a protestar contra a pilha de roupa suja, o Pai mais calma e sorridente e atĂ© o Matias parece diferente. E eu? interrompe a InĂȘs, tu, continuas igual! Traquinas, mĂĄ, enumero e a minha irmĂŁ dĂĄ-me um empurrĂŁo. Eu e o Matias rimo-nos, fechamos a porta do quarto, nĂŁo, nĂŁo podes entrar! É assunto de homens! avisa o Matias e a InĂȘs solta um berro de frustração, o Pai pede logo explicaçÔes. EntĂŁo? incito, entĂŁo, acho que vou seguir o curso de agricultura biolĂłgica, os Pais do AntĂłnio tĂȘm lĂĄ pessoas a estagiarem e disseram logo que estĂŁo Ă  minha disposição. conta o meu irmĂŁo, adorei lĂĄ estar, Ă© cansativo, mas Ă© interessante. JĂĄ disseste aos Pais? pergunto e o Matias sorri, desapareceu aquele olhar sombrio, sim, jĂĄ conversamos e ficaram muito satisfeitos. NĂŁo duvido, penso, finalmente encontraste um rumo e o Matias explica-me que se vai matricular em Biologi...

EU, EDGAR O GRANDE PARTE V

  A vida continua, o Matias queixa-se da vigilĂąncia apertada, mas o Miguel dĂĄ-lhe um safanĂŁo, culpa tua! e o meu irmĂŁo cala-se. Passa Ă  tangente, a Lina terminou tudo comigo, conta-me no Ășltimo dia de aulas, mas eu acho que Ă© o melhor que podia ter acontecido. Vi as notas dela, chumbou a tudo, vai ter que repetir o ano e pode ser que longe da influĂȘncia dela, o Matias se " encontre ". É a palavra favorita da Tia Teresa, que estĂĄ toda satisfeita por ter um funcionĂĄrio tĂŁo atencioso e zeloso. Os Pais respiram um pouco aliviados, parece que o Matias encontrou o caminho, comenta o Pai e a MĂŁe sorri, tambĂ©m acho que sim, noutro dia, falou num curso de agricultura biolĂłgica. Pode ser uma saĂ­da, responde o Pai, atĂ© podemos falar com os Pais do AntĂłnio, eles tĂȘm uma quinta, ele pode passar lĂĄ umas semanas. O Matias atĂ© gosta da ideia, eu vou atĂ© Ibiza com os meus colegas e a InĂȘs faz uma cena. Porque Ă© que eu tenho que ficar com os Pais? protesta, deve ser mais engraçado ir atĂ© Ibiza...

EU, EDGAR O GRANDE PARTE IV

  Acordo a meio da noite com o Matias a abanar-me, estĂĄs acordado, Edgar? pergunta, agora, estou, suspiro e acendo a luz. O meu irmĂŁo estĂĄ com olheiras, agitado, foste tu quem falaste com os Pais? dispara, nĂŁo, respondo, falei com o Miguel... E tive que o fazer, porque tu nĂŁo estĂĄs bem! Precisas de ajuda, nĂŁo hĂĄ nada de mal em pedir ajuda! O Matias fica calado, os Pais nĂŁo estĂŁo nada contentes comigo, desabafa, querem que eu tenha explicaçÔes, para salvar o ano, dizem e depois, tenho que escolher qualquer coisa para fazer...Eu nĂŁo sei o que fazer! NĂŁo sabes o que fazer porquĂȘ? repito, tens que ter uma ideia do que vais fazer no futuro! A Filipa escolheu GestĂŁo Hospitalar, o Miguel Biologia e atĂ© a InĂȘs com sete anos pensa em desenhar roupas!  NĂŁo sei, volta a dizer o Matias, nunca pensei muito nisso! Agora que tenho que escolher qualquer coisa...e cala-se Explicaste isso aos Pais? nĂŁo duvido que a reacção dos Pais nĂŁo tenha sido muito favorĂĄvel e o Matias deve ter ouvido coisa...

EU, EDGAR O GRANDE PARTE III

  Acho que o Matias estĂĄ a passar muito tempo com a Lina e os irmĂŁos dela, confesso ao Miguel depois do jogo de tĂ©nis, um dos professores encontrou-o no corredor e nĂŁo pareceu nada satisfeito! Disseste aos Pais? pergunta o meu irmĂŁo, nĂŁo, achei melhor falar contigo ou com a Filipa antes, respondo, tem chegado bĂȘbedo a casa, acrescento, tenho conseguido esconder isso dos Pais, mas acho que o Pai estĂĄ a ficar desconfiado. O Miguel fica muito sĂ©rio, dĂĄ-me uma palmada no ombro, deixa isso comigo! NĂŁo comentes nada com ninguĂ©m, especialmente com a InĂȘs! aconselha. Rio, vou lĂĄ falar de um assunto tĂŁo sĂ©rio com uma miĂșda de sete anos! Tens cada ideia! mas percebo onde ele quer chegar, a InĂȘs Ă© muito observadora e jĂĄ me perguntou o que se passa com o Matias. Naquele sĂĄbado, o Miguel pede-me para sair de casa e levar a InĂȘs comigo, mas estou a terminar um trabalho, ia passar o dia na Biblioteca, protesto. Deixa a InĂȘs em casa da Tia Teresa, a Sofia vai a uma festinha, perguntam se a InĂȘs po...

EU, EDGAR O GRANDE PARTE II

  Restabelece a ordem, nĂŁo quer ouvir as nossas explicaçÔes, quer apenas que sejamos pessoas " em condiçÔes ". Demorei algum tempo a compreender o que Ă© uma " pessoa em condiçÔes", acabo por o dizer muitas vezes Ă  InĂȘs que fica furiosa, especialmente quando acrescento " eu sĂł digo as verdades e tu nĂŁo gostas de ouvir a verdade!" Ao princĂ­pio, a InĂȘs protestava, " mas qual verdade? Como Ă© que tu sabes que isso Ă© verdade? NĂŁo estiveste lĂĄ!", mas as pessoas crescem, desenvolvem novos interesses e esquecem-se de comentĂĄrios idiotas. Estes tornam-se apenas memĂłrias engraçadas do tempo em que Ă©ramos " uns idiotas" , explica o Matias Ă  nova namorada que se ri. Tenho ciĂșmes dela, " rouba-me" a companhia do meu irmĂŁo e talvez seja por isso que me interesso pelo programa de design que a MĂŁe tem instalado no computador. Começo a fazer pesquisa online, leio revistas da especialidade e atĂ© surpreendo a MĂŁe quando peço para a acompanhar a u...

EU, EDGAR O GRANDE

  Ok, admito: fiquei desapontado quando a InĂȘs nasceu. Queria um irmĂŁo homem, ter o " meu escravo pessoal", mas tive o cuidado de nĂŁo o dizer alto. O Miguel e o Matias " crucificavam-me " e tinham razĂŁo: podem ser chatos, pregarem-me partidas idiotas e estamos sempre a discutir, mas sei que me defenderiam atĂ© Ă  morte! A Ășnica coisa que nĂŁo percebo e comentei isso vĂĄrias vezes com a MĂŁe, porque Ă© que resolveram chamar-me Edgar quando o nome dos meus irmĂŁos começa pela letra " M "? A MĂŁe sorri, achas que isso Ă© importante? responde, Ă© um nome como outro qualquer. Foi eu quem o escolheu, acaba por explicar o Matias mais tarde, era o nome do meu amigo favorito. No jardim infantil! acrescenta. E ainda Ă© teu amigo? pergunto, mas o Matias abana a cabeça, nĂŁo, foi para uma escola diferente, nunca mais o vi! AH, e agora tenho o nome de um rapaz que jĂĄ nĂŁo Ă© teu amigo! protesto e avanço decidido para o Matias. Apanho desprevenido, ele caĂ­ ao chĂŁo, mas levanta-se de ...

CAROLINA FIM

  NĂŁo sei, repito mais tarde ao Gustavo que estĂĄ preocupado, nĂŁo sou uma invĂĄlida, terei que me concentrar em projectos mais interessantes, mais pequenos. NĂŁo sei! O Gustavo nĂŁo estĂĄ convencido, fala com a Filipa, mas a nossa filha tem o tempo todo ocupado, entre o trabalho e a Matilde, sugere a contratação de um novo vendedor. Sei que Ă© complicado, tem que ser alguĂ©m com experiĂȘncia e Ă© como a MĂŁe diz, concluĂ­, projectos mais pequenos para jĂĄ. Mesmo assim, o Pai nĂŁo fica convencido, a Rita promete sondar alguns clientes na ĂĄrea, mas Ă© a sobrinha Matilde quem apresenta a solução. Fica desempregada, tem uma licenciatura em design, experiĂȘncia em backoffice; Ă© perfeita! digo quando leio o CV. A Matilde fica entusiasmada com a ideia, adapto-me facilmente, garante e eu espero bem que sim. JĂĄ me habituei a esta nova rotina, caminhadas, aulas de yoga, fins de semana fora; nĂŁo tenho jĂĄ idade e vontade de estar vinte e quatro horas a respirar trabalho. É durante uma dessas caminhadas que a...

CAROLINA PARTE VI

  Encontrei o cliente socialmente, explica a LuĂ­sa, e ele estĂĄ muito insatisfeito com o trabalho da Paula. Diz que estĂĄ sempre a colocar obstĂĄculos, que as sugestĂ”es dele nĂŁo sĂŁo vĂĄlidas e persiste no plano. Falou com a Paula sobre isto? pergunto, estamos no meu gabinete na empresa, a Paula ainda nĂŁo chegou. Diz que o projecto Ă© dela, que nĂŁo tenho nada a ver com o assunto, responde a LuĂ­sa, visivelmente embaraçada, foi bastante malcriada, hesitei antes de falar com a Dra, mas nĂŁo podemos perder o cliente. NĂŁo se preocupe, eu analiso o projecto e depois falo com a Paula, sossego e a LuĂ­sa saĂ­ do gabinete. A Paula chega perto das dez, balbucia uma desculpa e senta-se. Nota-se que estĂĄ nervosa, pede actualizaçÔes dos projectos em curso um pouco agressiva, talvez tenha ficado surpreendida por me ver no gabinete. NĂŁo digo nada, analiso atentamente o projecto, o cliente pede alteraçÔes tĂŁo simples, nĂŁo percebo porque Ă© que a Paula insiste em as ignorar.  Acabo por telefonar ao clie...

CAROLINA PARTE V

  Apela ao sentido da responsabilidade, aconselha, a Francisca ainda nĂŁo sabe o que Ă© isso, chorou as primeiras vezes, mas agora, nem liga. Levanta-se, tenho que ir, tenho uma reuniĂŁo agora, diz, despede-se, deixa uma nuvem do perfume caro que usa. Achas uma boa ideia? insisto nessa noite e o Gustavo suspira, a InĂȘs tem sete anos, Ă© tĂŁo independente para certas coisas, achas mesmo que vai fazer uma cena por causa disto? pergunta. NĂŁo sei, a InĂȘs estĂĄ atenta a tudo, atĂ© Ă s horas da minha medicação, respondo, mas nĂŁo hĂĄ dĂșvida que o Tadeu tinha toda a razĂŁo. A professora estĂĄ muito satisfeita, a nossa filha estĂĄ mais calma... Quando sabe que vamos passar o fim de semana fora, a InĂȘs faz uma cena, quem Ă© que vai cuidar de ti?, eu claro, Ă© o meu papel, esclarece o Gustavo. Vai ficar em casa da Teresa, a Sofia tem uma sĂ©rie de coisas planeadas, confessa a Teresa, vĂŁo a uma oficina de leitura na biblioteca, mas acho que vai ficar lĂĄ sozinha e o AntĂłnio vai ter que improvisar um outro pro...

CAROLINA PARTE IV

  Tem uma personalidade forte, concordo, e Ă© muito criativa e aperto-lhe o braço. O Matias sorri-me e continuamos a andar calados. Em casa, a InĂȘs insiste em estudar no meu gabinete de trabalho, tenho que ter a certeza que estĂĄs bem, declara e os irmĂŁos riem. Acaba os TPC, mas depois aproxima-se da minha mesa, quer ver o croquis, fica fascinada quando rasgo mais a janela e assinalo o local onde penso colocar uma mesa de reuniĂ”es. PropĂ”e cores extravagantes para as paredes, fica um pouco desapontada quando lhe explico que esse tipo de cores cansam, temos que optar por outras mais sĂłlidas, mais neutras. A InĂȘs abre a boca para contestar, mas depois acena com a cabeça, jĂĄ compreendeu e continua a fazer perguntas, atĂ© deu boas dicas, comento mais tarde com o Gustavo. Claro que nĂŁo vou pintar o escritĂłrio de vermelho ou amarelo, continuo, mas lembrei-me que o cliente tem quadros abstractos na sala e como eu estou a pensar em fazer do escritĂłrio uma continuação, posso colocar quadros com...