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Mostrando postagens de fevereiro, 2010

Inédito

15. (Escuto o piano de Nélson Freire: Chopin) A lua e suas marés quando ela sai das alturas de tons baixos quando ela se retira (quase nua) uma parte de meus braços soltos segue com as areias Lua: fiel ao tempo das vertigens do corpo As sombras correm Os corpos giram Sem sinfonia Em todo caso não mais as mornas manhãs de abril, mas as frias sílabas dos dias de julho que começam sem sol Aqui as palavras partem mais facilmente ... e as caixas de areia na intimidade do sonho carregam caranguejos vivos olhos em pé: amarrados juntos no emaranhado de cordas sujos dos grãos A canção da Lua embala o trabalho com a fraqueza na melodia das letras essa distenção que move uma e outra linha balança e se escande no esquecimento A persiana do quarto lamenta e cai

Livro das areias (inédito)

2. O livro de Ítalo Calvino O Caminho de San Giovanni apresenta textos voltados para a memória. O autor introduz a ‘lata de lixo’/ ‘la poubelle’ para falar de nossos gestos, os mais inesperados, e que podem vir a ocupar um lugar em nossas vidas diárias que nem sequer notamos. Somos o que não jogamos fora? (Retomo a pergunta de Calvino para também indagar sobre o que precisamos reter conosco ou deixar por perto, mesmo que seja para não olhar jamais.) Na lista das pequeninas coisas e objetos especiais, encontro-me meio desajeitada. Vejamos que nem sempre é fácil listar. Mas, as palavras que pensam em nós demandam algum trabalho. Assim, que o que me vem à mente, de imediato, são os livros; os muito amados ou os nem tanto. Onde costumo colocar os que procuro sempre – para ler ou reler – e em que lugares permanecem os livros novos que serão utilizados em estudos ou em textos a escrever? E os que são ganhos de presente, ou os que quase não agradam? Na lista, ainda me ocorre dizer que, há coi...

Anotações de viagem feitas em 2005

Au theâtre: A cena do foyer no teatro Châtelet é ocupada por um piano de calda e duas cadeiras vazias. Há também uma máquina fotográfica antiga montada em cima de um tripé. As grandes portas abrem a varanda. São mais de 18 horas. Na claridade do sol a primavera sopra e se estende. Paris, maio de 2005. - C’est jolie l’ange dorée qui est là bas! (escuto na exclamação da francesa sentada bem próximo a mim). Fiquei sabendo, na hora de comprar o bilhete (12 euros) que, la pianiste est tombée dans les scaliers/ a pianista caiu nas escadas. De fato, a pianista havia caído antes do início do espetáculo. No entanto, ela não só tocou piano como fez a peça, pois era a personagem Clara Schumann. O ator, Jean-Marc Barr, já bastante conhecido do público francês, realizou um trabalho forte no papel de Robert Schumann. O texto foi transcrito a partir das cartas trocadas entre Schumann e sua esposa Clara. Um texto poético denso escrito por Irina Decermic. Na platéia consigo reconhecer a atriz francesa ...

Textos inéditos

No dia 11 de março Escrevo enquanto aguardo o Colóquio de Michel Collot, na Sorbonne, Paris III. Pela manhã, já na Sorbonne, pesquiso em livros da Biblioteca de Literatura Brasileira com a ajuda de Antonio, um brasileiro que trabalha aqui nesta pequena biblioteca. Encontro títulos que vão me interessar. À Tarde: No colóquio “Paisagem e modernidade”, participo como ouvinte, afirmo em francês que sou estudante brasileira. Permaneço impressionada com a apresentação de um professor chinês. Ao analisar um poema que se escreve em um papel com uma dobradura, na arte do papel que se mostra nas dobras, e diante do público que lotou a pequenina jóia-sala da Sorbonne, o chinês abriu o poema e, em pé, nos explicou como este poeta usou o termo souffle enquanto força. O poema é “A errância do pássaro”, e foi traduzido por esse professor chinês e poeta para a língua francesa. Não consigo me lembrar das palavras exatamente. Continuei com o gesto e o movimento das dobras de um poema-artefacto-de-arte q...

Colagem (2005)

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Caderno de viagem

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Texto inédito - Biblioteca Saint-Geneviève

Notas tomadas em 25.07.05 na Bibliothèque Sainte-Geneviève A porta diante de mim possui o número 13 bem no meio do portal. Preciso fazer esforço para conseguir me concentrar. Leio novamente Meschonnic. Estalo os dedos. Procuro me ausentar um pouco da força escópica que sinto em direção às paredes rodeadas de livros. No alto da colina Sainte Geneviève, a biblioteca oferece alguns vestígios de leitores antigos, com transcrições, inclusive, nas paredes da entrada. A história conta que houve uma abadia aqui, lá pelos anos VI d. C. Li e não lembro onde, que o abade principal, na época da Revolução Francesa, conseguiu proteger a abadia-biblioteca das invasões e destruições que aconteciam na cidade (feitas por inúmeros saqueadores). O local que já foi um lugar que recebeu muitos viajantes, e os alimentou durante suas passagens por Paris, continuou respeitado sempre. Nunca foi incendiado ou danificado. Sento-me na cadeira de número 313, porque a de número 311 está ocupada. O jovem q...

Anotações de viagem

Pesquisa na B. N. F. Cheguei atrasada. Precisei fazer tudo novamente para receber os livros já separados. O atraso aqui, só é permitido até, no máximo, uma hora. Às 11.45 hs entrei. Hoje é dia 31 de março. Ainda faz frio. Beaucoup! Preciso escrever essa imensa Biblioteca plantada à beira do Sena, em Paris. Guardada por grandes escadas construídas com madeira vinda do Amazonas, segundo me contaram, os enormes prédios desta Biblioteca me confundem ao chegar aqui pela primeira vez. É que eles têm mais de uma entrada e precisei andar muito para alcançá-las corretamente, qualquer que seja a entrada a partir das reservas feitas pela internet. Na primeira vez pensei estar em Nova York. Escadas rolantes se debruçam sob o solo. Assombram. As portas de vidro deixam entrar a luz do dia e os guardas, ali instalados, examinam as bolsas e mochilas posto que nas portas de entrada dessa instituição também estão as normas de sua segurança. Depois, já inside, outras gigantes escadas rolantes, modernas e...
A Biblioteca da Cité Universitaire e os livros grátis. Descobri de repente! Aliás, foi José quem descobriu. Hoje, em um dia do mês de junho, a biblioteca da Cité Universitaire abre as suas portas aos estudantes de todos os paises, que queiram pegar livros gratuitamente. Não é brincadeira não... os livros estavam lá para serem alcançados. Assim, alguns de meus livros têm o selo: Le Bouquin volant. Ou seja, o Livro móvel, ou algo próximo disso. São livros destinados aos alunos estrangeiros e que não podem ser vendidos. Adquiri livros de poetas e de artistas, inclusive esse que agora me ajuda a construir parte da história de Montparnasse; La vie quotidienne a Montparnasse de Jean-Paul Crespelle, editado em 1976 pela Libraire Hachette. ** A literatura sai de nós pela nossa boca, ou seria melhor dizer pela nossa voz. E ela entra em nós por nossos olhos e ouvidos. A questão é complexa e envolve uma abertura do olhar ao mundo exterior. Mas não apenas. Ponge se indaga: “o que fala quando eu fa...

Anotações

Durante les années noires, em toda França, a vida parou. Mas as reuniões poéticas de Paul Fort em La Closerie des Lilas, assim como as representações dos caf’conc’ da rua da Gaité continuaram (foi o que li em La vie quotidienne à Montparnasse à la grande époque. 1905-1930.) Era preciso distrair os que vinham por alguns dias do Inferno do Fronte. Em Montparnasse, nos ateliers morria-se de frio. Poucos foram os artistas estrangeiros que permaneceram por lá. A maioria dos marchands, que se interessava pelas obras desses artistas, deixou de comprá-las. Todos pareciam aguardar. Nesta atmosfera de miséria geral, os escritores e os artistas permaneceram recolhidos. Conta-se que muitos artistas se alistaram, mesmo os estrangeiros. Blaise Cendrais perdeu um braço na fazenda de Navarin durante um combate. E, em Montparnasse, muitos foram recusados pelo conselho de revisão em função do mau estado físico em que se encontravam. Diego Rivera em razão de suas varizes, Modigliani pela miséria física...

Caderno de viagem

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Francis Ponge

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FRANCIS PONGE e sua mesa

Francis Ponge e sua mesa ou: Do amor de um escritor por sua mesa “Ó Mesa, meu consolo e minha consoladora, mesa que me consola, onde eu me consolido” Não será percorrendo as vias dos homens ilustres que encontraremos, na virada do século XIX na França, um poeta que nunca se reconheceu entre os surrealistas, poetas de vanguarda que passaram a ocupar, pouco tempo depois, a cena literária. Mas Francis Ponge, nascido na região do Languedoc, em 1899 mais precisamente, escreveu uma obra que é reconhecida como fundamental para a poesia de hoje. Seu trabalho é uma interrogação sobre a linguagem, e tem uma dimensão ética no sentido em que apresenta uma preocupação com o homem e com as coisas do mundo. Ponge trabalhou com a letra de forma radical. Seus escritos abrem espaço para a palavra estabelecida e...

FRANCIS PONGE e sua mesa (continuação)

Francis Ponge escreveu "A Mesa" durante sete anos, a partir de 1967. Parece-me que o poeta escreveu seu objeto, mesa, no ritmo que a “sua mesa” lhe impôs. Em 7 de junho de 1971 ele anotou: Eis para que é preciso começar pois eu o sei agora, por experiência várias vezes renovada: é a madeira e sua sonoridade que surgem para mim cada vez que sonho outra vez à mesa. Pode-se crer que Ponge organiza, nesse jogo com a mesa, algo primordial de seu trabalho: repetição e ritmo. Diremos que é isso, esse movimento, que buscamos conhecer um pouco mais a partir de seus versos, e onde encontramos o poeta sentado – trabalhando diante de sua mesa – essa que, também, lhe apóia o corpo e lhe ensina algo da matéria, da madeira, das pernas firmes no chão, na distância mínima com o objeto que lhe sugere sonoridades na hora da escrita, nessa postura que lhe dá a diferença entre a verticalidade do corpo do homem e a horizontalidade da mesa, a qual comporta inclusive, a posição pres...

Homenagem

A tradutora de Virgínia Woolf para o francês, a escritora Marguerite Yourcenar escreveu: "AS ONDAS é um livro com seis personagens, ou melhor, seis instrumentos musicais, pois consiste unicamente de monólogos interiores cujas curvas se sucedem, se entrecruzam, com a firmeza de um desenho que lembra A arte da Fuga, de Bach". A narrativa, neste romance, incorpora pensamentos infantis, reflexões da juventude, e espaços de lentos solilóquios sobre a maturidade.

Uma leitura de As ondas de Virgínia Woolf

Somos parte das descobertas ao nos entregarmos no texto As ondas. Podemos ceder e até rir, deliciosamente, com as tantas artimanhas que a escrita favorece. Também podemos nos embrulhar nos cartões-postais enviados e, tal qual o personagem Percival, ficaremos esquecidos, sem noção do amor que nos foi dedicado. No entanto, se o texto de Virgínia autoriza essas descobertas inesquecíveis, deixa ver e remonta também aspectos do passado; o nosso tanto quanto o da autora. Sentimos uma espécie de torpor e experimentamos as palavras raras dessa escritora, à moda de Freud no texto “Escritores criativos e devaneios”, sabendo, aliás, que quando um escritor nos alcança dessa maneira não podemos recuar. Somos, enquanto leitores, aquilo que ele faz de nós. Nos comportamos como um objeto amado, sem conseguir escapar.