Devaneio
O vento das montanhas altas sopra. Longe. Talvez na infância. Sinto no corpo a direção salgada do mar. Chega junto com o murmúrio das folhas soltas. Sobrevoam no descampado verde, bem perto da areia da praia. Distintos matizes. O céu cinzento não esconde a força: nuvens pesadas. Elas ainda guardam a água a ser derramada em breve. Alguns raios riscam letras no espaço. Não sei bem onde estou. A lembrança é antiga. Parece nunca ter sido alcançada com nitidez. A escrita abre as asas da mão. O corpo gelado da tarde de inverno. Um maiô azul colado à pele. Os lábios quase roxos. Corro pelas areias douradas: Guarapari. Areias duras. Uma surra de vento corta as canelas. O branco da página sopra. Bico de lápis. Um calor acalma o frio da infância. Lívida respiro em goles a natureza. (É possível escrever um devaneio?) Rio, final de verão de 2016.